Terça-Feira

arte por: ~artillaryofthemind~


A poeira pendia dos corpos soados e desgastados da confraria de aventureiros. Passaram todos pelo portal de pedra, deixando para trás um calabouço repleto de armadilhas e criaturas das mais diversas. Os membros da linha de frente do grupo desabaram no chão, um após o outro, estando o gigante de joelhos e o anânico deitado de barriga para cima, ambos arfando pesadamente, tentando recuperar seus fôlegos. Os outros três membros da confraria também estavam bastante exaustos — A élfa apoiou-se num paredão de rochas à sua direita e começou a tossir em busca de fôlego renovado, enquanto que a anã e a humana ambas se apoiavam em seus joelhos, buscando recuperar o ar perdido em sua correria. Aos prantos e exausto, o gigante deu uma fungada profunda pelo nariz. Após isso, em respirações ritmadas, ele esbaforiu:
 — É por isso... Que eu sempre digo... “Nunca”... “Nunca toque...”... — Ele deu uma segunda respirada profunda, e então retomou seu sermão — “Nunca. Toque. Em nada!”. Por que não podia manter suas mãos espertas para você, Eveline?! — O gigante fitou a élfa, que estava escorada de costas para um imenso paredão de pedra amarronzada bem à sua direita atrás do gigante arfante, enquanto jogava ar para seu rosto usando a própria mão de leque improvisado.
O paredão fazia parte da formação de um aclive que conectava à floresta poucos metros dali. Na face oposta havia formações arquitetônicas bem antigas e desgastadas, formando o grande e rústico portal de pedra pelo qual passaram e que se conectava a outras estruturas parecidas, porém já arruinadas pelo tempo.
A élfa de cabelos curtos e sedosos — agora completamente desgrenhados — parecia estar cansada demais, e indisposta demais, para ouvir os sermões do gigante sisudo, e simplesmente virou seu rosto na direção da parede à sua frente, cheia de trepadeiras das mais variadas, úmidas com o orvalho da manhã. O gigante então, a passos pesados e cambaleantes, caminhou o mais firme que podia em direção de Eveline. Pôs sua mão esquerda, tão grande quanto um pequeno barril, e a projetou com violência contra a parede, fazendo-a tremer. O estalar da palma nua e calejada do gigante contra a parede de rocha deixou Eveline assustada. A élfa só teve tempo de reação suficiente para ver a cabeçorra de o gigante aproximar-se incomodamente da sua.
— Não gosto quando sou ignorado, menina! — Disse o gigante com sua voz rouca, em tom ameaçador. — Ainda mais por uma gatuna infeliz cuja ganância e egoísmo quase mataram seus colegas!
Eveline o fitou com seus olhos lilás afiados. Ela entre abriu seus lábios, e finalmente respondeu:
— E eu não gosto de ter meu espaço pessoal invadido por mateiros gigantes turrões e inflexíveis, Jones! Então dá pra fazer o favor de se afastar antes que você me mate sufocada com seu bafo de onça?
— Me afasto quando você me responder o que deu nessa tua cabeça feérica para pôr suas mãos naquela caveira cravejada de joias! Era mais que óbvio que aquilo era uma armadilha! Mas isso nem foi o pior! O que foi ruim mesmo foi a sua traição!
Eveline virou seu rosto em meio perfil para o gigante enraivecido e o fitou com escárnio e retrucou: — Traição? Tá bêbado? Eu só fiquei assustada e corri na frente de vocês, oras. Só isso! E além do mai— Jones a interrompeu abruptamente com o estrondo de sua voz.
— Você nos deixou presos lá por minutos enquanto aquela câmara se enchia de areia e pedras, Eveline! Podíamos ter morrido por conta desse seu “susto”! E Jorge... O Jorge...
— Mas não morreram! Vocês conseguiram sair, não conseguiram? E, além disso, eu não os abandonei e muito menos os traí. Eu desativei todas as armadilhas que teriam se ativado no corredor que ligava a tesouraria até a antessala, bem quando vocês me alcançaram e todos aqueles diabretes apareceram — Como eu já havia previamente calculado! Quanto a Jorge, eu não t— A élfa fora interrompida por um urro feroz do gigante. A raiva de Jones já estava chegando num ápice. Sua mão direita fora na sua cintura, bem na altura do cabo de sua faca kukri, que para qualquer outra raça hominídea seria o equivalente a uma espada curta grande, quase do tamanho de uma espada de cavaleiro, quando um dos membros do grupo se pôs entre os dois: A anã. Ela segurava com suas mãos pequenas, mas firmes, a mãozorra do gigante, e disse:
— Uai, dá pá ‘cês dois pararem de se bicar, sô? Tá todo mundo bem, tá todo mundo bão, e é isso que importa! — Disse a anã coberta em panos escuros, de sotaque bem carregado — Típico de uma área de fazenda bem isolada da civilização.
— Sai da frente, Natália. — Disse Jones em tom pesado e intimidante, deixando a raiva conduzir suas ações.
— Não vou sair coisíssima nenhuma não, Grandão. Se tu quiser passar a lambida na Eveline, tu vai ter que passar por mim primeiro.
— Deixa eu dizer algo pra você, caso tu não tenha percebido: Graças à essa filha de mil pais, o Jorge, nosso amigão Jorge de anos de estrada... Está morto! Tudo por que essa ladrazinha de quinta categoria não soube manter as mãosinhas de fada delicadas dela longe daquela porcaria de teso— Natália, a anã, interrompeu Jones abruptamente.
— Deixa eu dizer algo pr’ocê, pois tu é um bobão: Graças ao descuido daquele despudorado que ele virô um belo d’um alfineteiro! Eu vi, pois tava perto: Jorginho saiu avançando na tesouraria à frente da formação, e sem perceber, o lazarento pisô em um azulejo que possuía um sensor de peso embaixo, e sendo o gordo graúdo de armadura pesada que era, meio difícil não ativar aquele sensor — Que foi o que ativou os lance de virotes errantes!
A fúria de Jones por um instante deu vazão a um espanto repentino. Sua face de pele bronzeada que antes denotava fúria, agora mostrava espanto. Sentiu Natália o empurrar gentilmente para trás, e com dois passos firmes, ele se afastou das duas mulheres à sua frente.
— Mentiras... — Disse o gigante, entre dentes, num tom profundo e soturno, mas ainda enraivecido.
— Não é mentira, não sinhôr. Jorginho afobou-se e ignorou o nosso combinado, se lembra? “A caçadora de tesouro profissional vai na frente, pois ela que manja dos trem de mecânica e armadilhas”. Aquele gordo pagou pela afobação. Só isso. Mas num ponto, tu tá certo, Grandão: — A anã virou-se para Eveline, que fitava ambos com incômodo estampado em sua face. — Eveline é uma avarenta danada, e poderia muito bem ter pelo menos se lembrado de checar por sensores de peso antes de pegar a cavêra mardita!
— E por um instante eu achei que você iria me defender, Naty. Fiquei chateada!
— Me poupe da tua arrogância e da tua ironia, ô dondoca! Não vou deixar o Grandão te machucar, mas tu também não pense que eu vou virar o olho pras tua má criação! Tá pensando que sô bagunça? Acha que isso é bagunça? Só olha o que tivêmo que passar só pra terminar esse trabalho e no que nos custo! Acha que dá pra ser leviana e descuidada? Ou tá querendo terminar igual o Jorginho? E se a armadilha que ‘cês dois ativaram fosse algo ainda mais sinistro e matasse a todos nóis na hora? ‘Cê já pensou nisso, dona Eveline? Hm? Já pensou?
— Eu... — Eveline soluçou. Seu rosto alvo e belo denotava pesar. Ela deu uma piscada demorada. Logo recompôs sua face altiva de sempre, e disse:
— Eu sinto muito, vocês dois. Eu prometo que vou ser mais cuidadosa na próxima.
— Ótimo! Já que você se desculpou e o Jonesinho e a Naty te perdoaram, dá pra gente pôr uma viga, um tronco, ou sei lá o quê nessa passagem antes que aquele bando de treco nos alcance, nos mate, e se tornem um problema pros fazendeiros e viajantes locais? Ou vocês realmente querem chegar aos Sete Céus Celestiais com uma plaquinha escrito: “Morreu por que ficou tagarelando na frente do calabouço cheio de diabrete”? — Uma voz grossa e desafinada veio mais da frente. Ele se aproximou dos quatro membros do grupo. Era o anânico, junto com sua brunia e espada de cavaleiro, que para os outros povos humanoides — especialmente a dos gigantes — era o equivalente a um cortador de cartas ou uma adaga, na melhor das hipóteses.
— Pedro tem razão! — Falou uma voz jovial e fina. — Deveríamos selar a passagem pra impedir que eles venham atrás de nós.
Um som bem longínquo do bater acelerado de asas pôde ser ouvido ao fundo. A pesar de serem bem pequenas, as orelhas de Jones eram sensíveis, captando com bastante intensidade o som do bater de asas — e também dos guinchados agudos e gargalhadas diabólicas vindas das profundezas da penumbra do calabouço. Natália e Eveline, que também tinham uma audição privilegiada, captaram imediatamente o som. Porém, Natália sendo uma anã das montanhas, já estava habituada a navegar dentro de túneis escuros, e pôde ver bem ao longe o princípio das silhuetas. Várias delas. Pequenos diabos alados em miniatura os haviam seguido.
— Orre, diacho! Grandão, Meryl, me ajuda a derrubar esses pilar na passagem!
Natália, Jones e Meryl, a emissária humana de uma ordem de cavaleiros religiosa pertencente à igreja, começaram, um a um, a forçarem e derrubarem as estruturas de pedra. Jones, sendo o gigante forte que era, derrubou os pilares da direita sem muita dificuldade. Ele chapou todo o seu flanco direito contra um dos pilares e, usando da imensa força de sua coluna, empurrou com seu braço direito o pilar central que servia de ponto conector para os outros pilares de pedra, que se conectavam ao mesmo por arcos de rocha talhada.

As pedras caíram.

Três pilares derrubados. Metade da passagem estava tampada, mas o som do bater de asas, agora mais acelerado, estava se aproximando cada vez mais.

Estavam quase aqui.

— ‘Cêléra com isso aí, meu povo, minha póva! — Exclamou Natália, que estava com a pele completamente rosada de tanta força que ela fazia para empurrar um dos pilares. Natália, apesar de ser uma anã, era bem forte, como visto pelo fato de que mesmo com um grande esforço, fora capaz de mover uma coluna de pedra com quase três vezes o seu tamanho. Porém, sua força quase descomunal para padrões enânicos não estava sendo suficiente para mover a pedra a tempo.
— Grandão! — Ela exclamou.
 Jones moveu-se rápido para ajudar Natália, e com um puxão de seu braço, a coluna finalmente tombou, tampando assim três quartos da passagem. O bater de asas estava frenético e o som dos guinchados e as gargalhadas nefastas era audível para qualquer um no recinto.

 Chegaram.

 Assim que a coluna que Natália e Jones derrubaram caiu, alguns dos diabretes que haviam acabado de alcança-los foram esmagados pelos escombros, mas alguns conseguiram escapar para a luz do dia. Natália rapidamente pôs-se a ajudar Meryl, que estava empurrando a última pedra. A emissária empurrava o que parecia ser uma base de uma das colunas que Jones e Natália haviam derrubado, sendo bem grande e arredondada. Porém, Meryl, ao contrário dos outros dois, não era tão forte assim. Jones fora ajudar sua companheira a empurrar a grande rocha junto de Natália, enquanto Eveline e Pedro incumbir-se-iam de dar cabo dos diabretes fugitivos — que no caso eram três.
— É melhor dar uma acelerada aí! — Pedro cantarolava enquanto começava a girar sua funda de couro, carregada com três balas esféricas feitas de chumbo fundido e do tamanho de ovos de codorna.
Mesmo com Jones ajudando, mover a base de pedra estava sendo complicado. Natália pôs-se de costas, se escorando contra a pedra, e começou a empurrar com toda a força que suas pequenas e firmes pernas lhes dispunham. Jones, cansado e sem paciência, respondeu à bravata do anânico:
— Menos papo, mais chacina de diabrete!
 Eveline sacou de seu cinto sua main gauche. Os diabretes eram criaturas bem pequenas e voavam de forma veloz e errática, não só se assemelhando a moscas na forma que se locomoviam, mas também em comportamento. Tentar prever ou acertar os pequenos diabos era extremamente difícil. Porém, não para Eveline.
Uma das criaturas começou a rondá-la, voando de forma totalmente aleatória. Eveline não era burra e muito menos boba. Ela manteve sua concentração, mas não tentou acompanhar a criatura com seus olhos. Seria tolice. Invés disso focou sua audição para pegar o som da batida daquele diabrete específico que a rondava. De olhos fechados e em postura de ataque, com sua main gauche na mão esquerda e mão inábil livre, à frente do corpo, a élfa conseguiu isolar o mundo dela e de sua presa. Eveline já não ouvia outros sons cercando-a, apenas o som de sua própria respiração, seu coração, e por fim, bem nitidamente e isoladamente, as batidas de asa do diabrete.

Atacou.

 O pequeno diabo por fim quebrou sua aleatoriedade e atacou a élfa, dando um rasante com suas garras afiadas como navalhas na direção da jugular, vindo da direção sudoeste de Eveline, de cima para baixo. Eveline girou a ponta de seu pé esquerdo e trocou a distribuição de peso de seu corpo esbelto, girando para sua esquerda, e com um giro horizontal de seu braço, um golpe com a adaga fora desferido no seu algoz.

O golpe foi como um chicote.

O braço de Eveline, em questão de meio segundo, se desdobrou e cortou, puxando a lâmina para si, abrindo um arco estreito que terminava com a arma próxima de seu flanco. O corpo do diabrete aparentemente não havia sido afetado, até que ele se dividiu em dois.
Um quarto de seu corpo foi para a direita de Eveline, enquanto que o restante de seu corpo fora projetado encima do flanco direito da élfa. O cadáver mutilado bateu contra Eveline e caiu a seus pés, sujando seus trajes de viagem caros de sangue — tão negro como piche, e fedido a enxofre. Quando a élfa percebeu o cruel destino que se abatera em sua roupa, ela deu um suspiro.
— Ah, não acredito! Eu comprei essa blusinha ontem! Ontem! — Exclamou Eveline, visivelmente irritada.
Natália apenas tendo ouvido a reclamação, esbaforiu:
— Sua blusinha não te custa a vida, ô dondoca!
— Aaaaaaaah, mas vai custar as deles!
 Eveline por fim, voltou sua atenção ao combate. Pedro estava atacando, sem sucesso, seus dois adversários, já tendo algumas novas cicatrizes em seus braços e rosto. Não aparentava estar gravemente ferido, mas mesmo assim, a funda não estava conseguindo acertar seus alvos, que eram velozes demais. Eveline sacou com sua mão livre uma pequena lâmina de arremesso.

 Mirou.

 Jogou.

 A pequena lâmina saltou das mãos delicadas, mas firmes, da élfa, Girou pelo ar em alta velocidade. A lâmina quase acertou um dos diabretes, quebrando a sequência de ataques e desvirtuando a atenção dos monstros.
— Não tente acompanhar a velocidade deles com seus olhos. Siga o som das batidas de asas!
— Falar é fácil, ô trapezista! — Pedro rebateu o conselho de Eveline. O anânico era um combatente experiente, porém um tanto afoito. Ele girava sua funda e tentava golpear os diabretes a esmo, usando-a como um mangual improvisado. Porém, o máximo que ele conseguira fazer era manter seus algozes afastados. Foi então que, por um golpe de sorte, finalmente acertou um dos monstros: Enquanto girava a funda de um lado para o outro, Pedro acabou por interromper, sem querer, a sequência de voo de um dos diabretes, acertando-o em cheio, na fronte do nariz.
A funda tornada mangual acertou a pequena cabeça carmesim do monstrinho, projetando seu corpo para trás com bastante violência, fazendo-o voar para três metros do anânico. Pedro percebeu o impacto e se virou, vendo que um dos diabretes havia enfim caído. Ele desviou sua atenção do seu outro adversário alado, correu em direção ao monstro caído, ainda vivo, porém zonzo. Pedro sacou sua espada, preparando-se para dar o golpe de misericórdia, porém...
— Pedro, atrás de você! — Esbaforiu Eveline, presenciando o sorrateiro ataque que o outro diabrete se preparava a desferir por suas costas. Pedro não escutou, e estava a instantes de findar a vida torpe do pequeno diabo prostrado ao chão. Eveline praguejou, sacou mais uma de suas pequenas facas de arremesso e rapidamente arremessou na direção do diabrete remanescente. Eveline não tinha tempo pra mirar, então o arremesso foi completamente intuitivo.
O último diabrete ignorado por Pedro estava descendo em um rasante, preparando-se para atacar o anânico com o ferrão na ponta de sua calda. A lâmina arremessada por Eveline girou no ar e, por pouco, a lâmina atravessou a cartilagem da asa esquerda do monstro, que por conta da força do impacto da lâmina, girou no sentido horário, sendo projetado para bem ao lado do anânico, como um projétil feito de carne e espinhos. Pedro já havia estocado um de seus adversários e, vendo que seu outro algoz “misteriosamente” tombara e jazia convenientemente posicionado para que pudesse abatê-lo, o anânico o fez sem pestanejar. Levantou-se, fitou Eveline, ofegante, enquanto que a própria o encarava com um olhar de desaprovação, balançando a cabeça em negativa.
 Enquanto isso, Natália e Meryl, junto de Jones, se esforçavam para empurrar o pedregulho passagem a baixo. A base era bem mais pesada que o esperado, e mesmo com a força descomunal de Jones, eles ainda levariam um pouco mais de tempo até conseguirem.
— Do quê essa porcaria é feita, Minha Nossa?! — Praguejou Meryl, cuja pele rosada já estava corada como um pimentão vermelho de tanto esforço que fazia.
— Sai daí as duas! — Jones ordenou. Ele parou de empurrar a pedra. Afastou-se e ficou de pé, ereto.
Respirou fundo pelo nariz, e soltou o ar pela boca. De olhos fechados, ele começou a se concentrar. Logo, sua pele bronzeada começava a ficar avermelhada, as veias de sua cabeça e pescoço dilataram, seguindo por todos os vasos sanguíneos do peitoral e braços, ficando bem visíveis a olho nu. Sua respiração começava a ficar pesada, e um leve vapor podia ser visto sendo emanado de seu corpo.
Natália entendeu o que seu amigo gigante pretendia, pegou na mão de Meryl e abriu espaço às pressas para Jones.
— Sai de perto, minina!
— Huh? Quê?
 Jones abriu seus olhos pequenos, caídos e fundos. A tintura tribalística escura que cobria suas vistas aos poucos parecia desmanchar pela quantidade absurda de suor que gotejava da cabeçorra do gigante. Seus olhos azuis davam lugar agora para órbitas completamente brancas, realmente dando a entender que os olhos do gigante haviam virado.  Jones entre abriu sua boca, gotejando saliva, revelando seus dentes levemente tortos, mas muito bem cuidados.

Um urro crepitou de sua grossa garganta.

Um urro bestial, selvagem, gutural.

Que parecia vir das partes mais profundas de suas entranhas.

— O que está acontecendo com ele?! — Perguntou Meryl, assustada com a visão. Jones esticou seus braços poderosos e com um só movimento, levantou a base de pedra sólida, fazendo-a ficar de pé. Ele a girou com visível esforço, porém com rapidez, e começou a rolar a pedra arredondada como se fosse uma roda em direção à passagem. O pedregulho de pé era quase do tamanho de Jones e tinha uma área de circunferência equivalente a três quartos de um humano adulto. Em questão de segundos, a grande pedra que dava tanta dificuldade por conta de seu tamanho e peso fora derrubada pelo gigante, aos urros, espatifando-se contra os escombros das outras colunas previamente derrubadas.

A passagem estava selada. Os diabretes estavam contidos.

Porém...

— Inacreditável... — Disse Meryl, impressionada, que não percebeu que Natália estava a puxando às pressas para longe de Jones.
— Não lerda, garota! Não vai querer ficar nas vista do Grandão quando ele tá nesse estado! Corre!!
— O que está acontecendo? Por que todo este medo do Jones?

 E então, aconteceu.

 Jones saltou com violência na direção de Eveline, em meio ao salto, ele sacou seu machado de guerra, e ao chegar perto do chão, desferiu um possante golpe. Eveline conseguiu se desviar, sem muito jeito por conta do ataque surpresa, e também pelo pequeno abalo sísmico que o ataque provocara.
Uma nuvem de poeira e terra se criou por conta da energia do golpe, e este fora tão intenso, que a cabeça do machado de guerra se despedaçou, sendo projetada contra o ar, para cima, girando e caindo exatamente atrás de Jones. O gigante lentamente se virou, fitando com o canto de seus olhos leitosos na direção de Eveline, que jazia caída, sentada no chão, atônita com o súbito ataque de Jones.
— Ferrou. — Disse Pedro, sua face levemente empalidecida. Seus olhos arredondados estavam arregalados e levemente esbugalhados, e os pelos de seus pés anânicos estavam visivelmente eriçados, assim como os de suas mãos.
— Dá pra alguém me explicar por que o Jones está atacando a Eveline?!
 Natália segurou a mão de Meryl. Ela fitava seu amigo Jones com o seu único olho amendoado e arregalado. Seus lábios carnudos e amarronzados se entre abriram:

— Grandão entrou em Fúria.

 Jones avançou em trote na direção de Eveline com os braços abertos. Sua boca liberava um urro gutural repleto da mais pura, caótica e animalesca fúria. Eveline se levantou de supetão, e rapidamente começou a correr em direção à parede pedras que via em sua frente. Eveline era ágil e sabia como escalar paredes, mas as pernas de Jones eram bem maiores que as dela. Seria questão de segundos até que ele a alcançasse. Enquanto corria, Eveline procurava, com os cantos dos olhos, por algum lugar, alguma coisa que pudesse servir de obstáculo para Jones.
Natália olhou para Pedro, pronta para pedir para que ele pusesse Jones desacordado, mas o anânico já o estava fazendo. Pedro carregou sua funda com uma bala extra, e começou a girá-la com rapidez. Jones era um alvo enorme, mas era bem ágil pro seu tamanho, ainda mais em fúria, mas Pedro não podia errar. Se errasse esse tiro, Pedro tinha certeza: Jones mataria Eveline. E logo depois, mataria todos eles.
A funda girou com velocidade. As quatro balas aumentariam sua chance de acerto. Se não acertasse a cabeça, pelo menos uma delas o acertaria em algum outro ponto em que ao menos o incomodaria o suficiente para parar de correr. Pedro se concentrou na figura do gigante enfurecido.

Preparou-se para atirar.

Eveline rumou para além de uma árvore jovem, ainda sem copas formadas, cujos brotos de galho já se enchiam de vinhas. Instantes depois de ter passado pela árvore, Jones com um único safanão de sua mão direita, fechada, quebrou em duas a jovem árvore, fazendo a copa ainda em formação, tombar para a sua direita, enquanto que sua perna esquerda derrubava o tronco para a sua frente, usando-o de estepe.
O pisão no tronco fora tão intenso que o chão ao redor da pequena, jovem e agora finada árvore se levantou com uma nuvem de poeira, revelando parte de suas raízes, que agora estavam completamente arruinadas pela violência rampante de Jones. Eveline conseguira pelo menos um segundo de vantagem encima de Jones, mas isso já bastaria. Disparou contra o paredão de pedra que havia avistado. Preparou os músculos das pernas, aproveitou o impulso e deu três passos paredão acima. Com este impulso ganho, deu um salto para cima e agarrou com suas mãos firmes nas trepadeiras e vinhas que serpenteavam o paredão. Jones a alcançou, mas Eveline já estava a uns bons sete metros do chão — Uma bela distância escalada em tão pouco tempo. Mas não seria o bastante para escapar de Jones.
O gigante chegou ao paredão de pedras. Ele se agachou, e com a força descomunal que tinha em suas pernas, saltou. Jones pulava bem alto, em comparação as espécies de estatura mais baixa: Chegando a impressionantes três metros de salto — pouco menos que sua altura. Era apenas uma questão de esticar o braço, e Jones alcançaria Eveline.
Pedro viu Jones saltando para agarrar a astuta élfa. Com a energia gerada pelo giro da funda, por fim, disparou.

As balas voaram.

Era uma distância de pouco mais de quinze metros que distanciava Pedro de Jones, e graças à violência do gigante, o único empecilho para sua mira, que seria a jovem árvore, já não existia mais. A primeira e segunda bala de cima para baixo errara seu alvo por pouco, tendo chegado à parede milissegundos antes da cabeça de Jones passar. A terceira e a quarta, porém, alvejaram. A terceira na base da nuca, e a quarta bala na base superior de sua coluna, ambas batendo com força, ricocheteando em sua pele e caindo ao chão em um arco. Jones sentiu o impacto das balas de chumbo o acertando na cabeça, mas ainda teve reflexos o suficiente para esticar seu braço e agarrar o tornozelo de Eveline com a ponta de seus dedos. Eveline, pega de surpresa, caiu junto com o gigante, mas em meio à queda, ela conseguiu deslizar seu pé para fora de sua bota, que para a sua sorte não era de feixe e nem de cadarços. Com uma pirueta não tão graciosa para traz, Eveline caiu ao chão de terra e grama, aterrissando e caindo direto ao chão. A élfa, porém, sabia como cair, e assim que sentiu que seu equilíbrio em terra firme fora perdido na aterrissagem, projetou o meio de suas costas arqueado ao chão de forma convexa, jogando suas pernas para cima de sua cabeça, que por sua vez estava deitada para o lado direito, assim rolando para traz. Eveline repetiu o processo mais duas vezes, dissipando assim a energia da queda e não se machucando. Jones, por sua vez, caíra de pé. Ele ainda ficou de pé por alguns segundos, zonzo, até que por fim vacilou para traz, caindo como uma tábua de madeira, rente ao chão e de braços abertos.
— Ha! Na lata!!
Eveline estava sentada no chão, tendo a visão de um Jones desacordado, segurando uma de suas botas com sua mão direita, e lentamente, via sua pele enrubescida pelo furor da fúria empalidecendo. Seus olhos estavam fechados, e sua boca entre aberta. Porém, podia-se ver claramente pelo tremular criado pelo poderoso coração do gigante em suas vestes, e também pelo contrair e dilatar de suas narinas, que ele ainda vivia.
Ofegante, Eveline fitou seus companheiros atrás dela. Natália e Meryl ambas se aproximavam em um trotado acelerado. Natália se aproximou primeiro de Eveline, estendendo a mão para que a élfa pudesse se levantar. Meryl, por sua vez, foi imediatamente em direção à Jones.
— Oxe, minina; ‘Cê tá bem? Machucada?
Eveline se levantou com ajuda de Natália, que estava preocupada. Assim que se levantou, ela sacou sua main gauche, e partiu em direção à Jones, a passos largos.
— É agora que eu mato esse mateiro sisudo, desequilibrado e desgraçado!
— Ei, ei, ei, ei; onde tu pensa que vai com essa adaga, ô dondoca? Vai matar ninguém não, visse? — Disse Natália, enquanto segurava a élfa pelo braço. — Ele não fez por mau. É efeito da Fúria.
— Meu rabo que ele não fez por mau! Ele já estava a fim de se livrar de mim! Eu sei! O tom dele antes dos diabretes não mentia pra mim! — Respondeu uma Eveline enraivecida. — Me solta. Agora!
— Vô te sortar coisíssima nenhuma, Eveline. Tu fala que o Grandão é um desequilibrado e um sisudo, e tu tá certa. Mas e tu? Tu é uma avarenta, gananciosa, covarde, e muito da egoísta. Tu deixou a gente na mão lá na tesouraria e quis escafeder-se com a grinalda toda só pra tu, enquanto nóis lidava com os trem daquele inferno! Quem é você mesmo, dondoca, para chamar meu Grandão de desgraçado? É tão covarde que vai querer matar um homem desmaiado!
 Eveline começou a puxar seu braço. Natália tinha uma mão firme e era forte. As vistas das duas mulheres se encontraram. De um lado, os olhos lilás de Eveline, afiados como duas adagas, e ferozes com a situação de acusação e quase morte que passara, e do outro, o único olho restando na cabeça de Natália: Acinzentado, caído, profundo, transpassando sabedoria, cansaço, e também um estranho e amedrontador brilho. As duas mulheres mantiveram o contato visual por alguns segundos. Segundos estes que pareciam uma eternidade para Eveline.
— Então, moças... A gente pode deixar pra resolver isso assim que voltarmos para Egarost? Eu tô cansado, faminto, e tô fedendo. E definitivamente não estou em condições, nem em ânimo, de ver vocês duas se matarem hoje. — Disse Pedro, o anânico, que se aproximara de Natália e Eveline. As mulheres quebraram seu duelo de olhares. Natália soltou sua mão do braço de Eveline, que por sua vez endireitou-se e recolheu sua main gauche de volta à bainha.
— Muito bem, então. — Concluiu Eveline, ajeitando o fino cinto de couro em sua cintura. — Eu vou embora. Gostaria dos meus honorários agora.
— O combinado foi até o serviço ser concluído, dondoca.
— E ele foi! Vamos, meu dinheiro.
— Não, não foi. Ainda temos de retornar para o cliente e entregar o relatório. Este lugar parece ser um bom lugar para descansar... — Natália então desviou sua atenção para o espaço em volta:
Era a céu aberto, entre dois aclives que se conectavam em um morro não tão alto. Havia bastantes árvores na área atrás do sítio que o grupo ocupava atualmente, que era a parte mais externa de uma floresta próxima — Um bom lugar para pegar lenha. Natália olhou para o céu. O dia ainda estava começando: O sol ainda estava para nascer, e a alta umidade no ar indicava que deveriam ser quase cinco da manhã. Natália pôs sua mão metálica segurando seu queixo fino e arredondado, pensando consigo mesma. Deu três passos na direção do horizonte, levemente obscurecido, onde podia ter um vislumbre da silhueta e alguns focos de luz ao longe: era a Cidadela de Egarost, lar do Ducado de Erchester.
— Se sairmos pouco antes do meio dia, devemos chegar a Egarost lá pelo meio da tarde. A parte mais externa da floresta ali naquele morro pode ser fonte de lenha e comida. Não vamos conseguir sair daqui sem que o Grandão acorde mesmo... Hm, Grandão não costuma demorar muito pra acordar. Pessoal!
Natália deu uma exclamação alta. Meryl estava ocupada enxugando o suor da testa de Jones, e Pedro estava com as outras duas, ajeitando a sua funda em seu cinto. Enquanto tateava a pele áspera do gigante, suas mãos puderam notar que havia algo estranho: Jones estava tremendo, e sua respiração era pesada. Meryl tirou uma de suas luvas de couro e pôs sua mão na testa de Jones.

Calor. Bastante calor.

— Nós vamos acampar aqui por enquanto. Grandão tá prá lá de Az’garad, e não vamos poder nos locomover até que ele acorde. Eu pelo menos não pretendo. Não vou segurar ‘cês aqui não, quem quiser ir, pode ir na frente, mas eu tô muidinha e tô varada de fome, visse? Vou montar acampamento aqui e só saio com o Grandão acordado.
— Natália! Natália! — Gritou Meryl, afoita.
— Oxe, égua! Má que marmota é essa, minina?
— É o Jones! Ele tá com febre e sua respiração tá pesada!
— Eita, meu bom São Dóri! Grandão! — Disparou Natália na direção de Jones. A anã passou por seus companheiros, dando encontrões em todos eles, e correu ao auxílio de seu amigo desacordado, seguida de perto de Meryl e Pedro.
Quando fora afastada pelo encontrão, Eveline teve bastante oportunidade para bater a carteira de Natália. E não fora por falta de tentativa. Eveline tentou alcançar a pequena sacola de moedas que era firmemente amarrada ao arnês e cinturão da anã, mas quando estava para fazer seu roubo, o braço metálico de Natália deu-lhe um safanão, afastando as mãos espertas de Eveline. Frustrada, a élfa deixou-a passar, vendo a anã, bem como o restante do grupo ir de encontro ao gigante decaído. Eveline suspirou, deu meia volta e caminhou estrada a fora. Pedro vira que a élfa começara a caminhar na direção de Egarost. Ele parou de correr, voltou sua atenção ao gigante, e então novamente para Eveline.
— Ei! Ô trapezista! — Ele gritou, a plenos pulmões. Eveline o ignorou.
— Deixa ela em paz, Nanico. Aquela gatuna safada é grandinha o suficiente pra saber se cuidar. — Respondeu Natália, ríspida.
— M-mas... — Natália interrompeu o anânico, chamando sua atenção. Pedro acatou, relutantemente. Eveline em questão de minutos se afastava cada vez mais, e conforme ela avançava pela estrada de terra malcuidada, os ermos a engoliam por completo, desaparecendo.

Horas mais tarde, o grupo estava reunido ao redor do lugar onde Jones estava adormecido. Uma cabana rústica e improvisada fora armada acima dele, e com bastante esforço, o corpanzil do gigante fora remanejado para cima de um saco de dormir, estando em uma posição mais confortável. À frente da mesma, outra tenda, menor, fora armada, e entre ambas, uma pequena fogueira foi acesa. Acima da fogueira, havia três galhos armados de forma que servissem de suporte para um caldeirão onde um ensopado rústico estava sendo preparado. Pedro estava mexendo no grude, preparando-o atentamente.
Na tenda onde se localizava Jones, Natália e Meryl prestavam cuidados médicos ao gigante febril. Natália enxugava sua testa constantemente com uma toalha com água, enquanto que Meryl rezava aos murmúrios para a Santa a qual servia — Cujo um dos domínios era o da cura. Enquanto rezava, a clériga estava com ervas em um pote e um odre, preparando o que parecia ser uma espécie de xarope à base de vinho e ervas. Enquanto misturava as ervas, seu cântico aumentava em volume e entonação, até que ela dirigiu o pote de argila com o xarope na direção do rosto pálido de Jones. Natália o suspendeu com esforço, e ambas conseguiram fazer com que o gigante ingerisse um pouco da poção.
Na segunda golada, Jones deu uma engasgada, cuspindo parte do liquido, mas mesmo com o engasgo, Meryl pôde ver que o gigante ingeriu parte. Ele tossiu mais algumas vezes, mas depois de ingerir um pouco de água e terminar o xarope, a palidez de seu rosto, quase que por um milagre, desaparecera.
— A respiração dele está ficando menos pesada, e a cor de sua face está voltando ao seu esplendor bronzeado de sempre... Se ele dormir esta noite, deve estar melhor pela manhã.
— Graças aos Santos! ‘Brigada, Mêri! — Disse aliviada Natália, com um sorriso de alívio em seu rosto. A mesma retirou a toalha molhada de sua testa e a molhou no pequeno capacete de Pedro, cujo qual usava de balde improvisado. Com um pedaço de pano limpo, ela limpou o suor da face de Jones, que ainda estava febril, e depois deixou a toalha com água em sua testa. Natália então repousou um pouco, sentada à frente do gigante.
— Mêri, pode dar uma ajuda aqui? — Fitou a anã para a clériga, que estava de costas, arrumando seus utensílios.
— Ah, sim, claro! — Concluiu Meryl.
Minutos depois, Natália estava sem seu longo capote grosso. Sua silhueta mostrava sua bela e longa trança grisalha e sua pele morena, constituição cheia e também forte, e suas várias cicatrizes ao longo do seu corpo. Seu braço esquerdo não existia, tendo uma prótese mecânica em seu lugar, da mesma forma que sua perna direita. Em sua face arredondada e jovial, traindo seus grisalhos cabelos, um único olho, esquerdo, de um profundo e vivo verde esmeralda, enquanto que o outro olho jazia embaixo de um tapa-olho rústico e improvisado, feito de ataduras já ficando encardidas de suor e poeira. Sua trança era amarrada na ponta por uma fita azul ciano, e era longa o suficiente para chegar a sua poupança.
Fazendo a moção de cruzar as pernas e com suas próteses de cada lado de seu corpo, Natália deu um suspiro de alívio. Ela mexeu seu pescoço, estalando-o, e com seu único olho, fitou Meryl: Era uma menina. Humana, não tendo mais que 20 anos. A pesar de jovem, Meryl era alta, quase batendo no diafragma de Jones se ambos estivessem de pé. Seu cabelo era curto, em um Chanel penteado para a direita, com uma franja terminando logo atrás de suas pequenas orelhas. Sua pele rosada e formato de rosto arredondado eram acompanhados por um par avantajado de bochechas, e podiam-se ver princípios de espinhas ao longo de sua testa. Seus olhos amendoados vinham na cor castanha clara, com cílios alongados. Seu nariz era arrebitado, e seu corpo era de constituição farta, especialmente nas coxas. Usava sobre suas túnicas clericais uma placa de metal para o tronco com brafoneiras e tassês amarrados à mesma, manoplas que cobriam toda a extensão do braço e que eram cobertas pelas mangas longas da túnica, e grévas protegendo os pés. Em sua cintura, havia afivelada uma pequena algibeira, um mangual estrelado e um pequeno livro simples. Provavelmente as escrituras sagradas de sua fé.
Natália desviou sua atenção para Jones, seu antigo amigo e parceiro. Um gigante, que tinha quase quatro vezes a altura dela mesma. Careca, de barba cheia e bigode ralo, ambos na cor ruiva. Orelhas ridiculamente pequenas pinturas rúnicas e indígenas em sua face, de nariz batatudo, e olhos pequenos e caídos. Seu corpo era forte, de pernas bem longas e poderosas, com mãos e pés pequenos em comparação ao restante do corpo. Trajava uma brigandina no corpo, por cima de um casaco de tecido fino, em tons terrosos, que era amarrado por um cinturão feito do mesmo material que a brigandina. As armas prediletas de Jones eram o arco longo composto e flechas, além de machados. E estas estavam repousando junto das próteses de Natália.
— Ele parece estar bem melhor agora...
— Sim... E tudo graças a ‘ocê , Mêri. Te devo uma.
— Ele sempre fica desse jeito quando... — Meryl vacilou. Estava com uma expressão aflita em seu rosto, visivelmente tentando buscar as palavras certas para não criar a impressão errada. Natália a respondeu, vendo o impasse da menina:
— Sempre. É um efeito colateral de entrar em Fúria, sabe?
— Mas como que isso acontece? É quase como se Jones tivesse seu corpo tomado por alguma outra coisa. Será que...
— Não, não é nada disso. — Concluiu rapidamente, antes que Meryl chegasse a uma conclusão precipitada. Natália respirou fundo, deixou sua cabeça decair um pouco entre ombros. Levou sua mão direita e pôs seus dedos entre os olhos, demonstrando cansaço.
— Eu não sei ao certo, mas Grandão me contou que antes de entrar nessa vida de aventureiro, mercenário, caçador de tesouro ou que diacho tu queira chamar, ele fazia parte de uma unidade especial de guerreiros de sua tribo. Se não me engano, eles eram chamados de... Bärzerkerst, eu acho.
— Bérz-ér-queste?
— Sei lá como se pronuncia, minina. Tenho cara de dicionário? — Natália bocejou, então continuou: — Os Bärzerkerst eram infames na tribo dele. Guerreiros poderosos capazes de entrar em um estado de furor tão feroz que não havia inimigo capaz de aguentar. Eram tão selvagens que, com suas capas feitas de pele de urso e esse tamanhão todo, eles realmente eram confundidos com um urso selvagem e voraz, e foi daí que veio o nome desse estado: Bärzerkergang — O que nós chamamos de Fúria. E quem é capaz de entrar neste estado era chamado Bärzerker, os Peles de Urso.
Meryl fitou Jones, que estava dormindo estirado no chão, entre as duas. Ela fitou Natália de volta, que retornou seu olhar.
— Eu não fazia ideia de que alguém era capaz de ficar tão... Descontrolado! — Concluiu a clériga. Natália então se ajeitou em seu canto, removendo sua perna do caminho, deixando-a junto do braço, e então se deitou de lado, usando seu único braço de travesseiro.
— Lidar com o Grandão nesse estado é sempre muito estressante, mas fazer o quê? Não sei viver sem esse mondrogão sem jeito! — Natália bocejou. — Orre, égua... Tô cansada. Minina, boa noite pr’ocê. Tô com sono. Vê se descansa um pouco, que tá quase na tua hora de render o Pedrim! B’ah noite!
Natália então virou para o lado, buscando dormir. O dia fora cansativo, então Meryl decidiu deixa-la descansar. Meryl então viu que Natália havia se virado na direção de Jones, e depois de alguns minutos, o único braço que ela tinha e usava de travesseiro, se esticou para baixo, abraçando o possante braço de Jones.
Meryl fitava aquele casal estranho: Um gigante mateiro, muito do turrão e do sisudo, e uma anã caçadora de tesouros manca, caolha e maneta, de sotaque estranho, mas com o coração de uma mãe. A jovem clériga então, enquanto fitava ambos, começava a se lembrar de todas as coisas, que nestes três dias de viagem desde que saiu de Egarost, vivenciou:
Experiências que poderiam muito bem cimentar relações por uma vida, mas que apesar de serem forjadas em circunstâncias tão extremas, sempre estavam ameaçadas de serem rompidas abruptamente. E da quão intensa eram as relações de trabalhos das pessoas desta profissão. De se fazerem discutir, trair e emboscar seus próprios colegas em nome de vantagem especiais. Ou de fazer do carinho e da fraternidade nascer entre os mais improváveis. A clériga notou que ambos estavam começando a roncar enquanto ela refletia. Gentilmente se esgueirou e rastejou-se para fora da tenda, encontrando à sua frente o anânico Pedro Matosseco mexendo no seu grude.
O anânico era encorpado para alguém de sua raça. Tendo nariz levemente achatado, dobrado pra direita, com sardas intensas por toda a sua face rosada, lábios grossos e olhos fundos, acinzentados. Sua face denotava cansaço, mas estava atento como nunca. Sua cabeleira encaracolada, tão loira como um fio de ouro, refletia com intensidade o brilho das chamas da fogueira, somente demonstrando o quão vaidoso Pedro era com seu cabelo. Trajava uma brunia com proteções para os braços e pernas, deixando apenas os pés peludos do anânico expostos. Ao seu lado, estavam sua funda, seu saco de balas, espada e escudo, caídos ao chão.
— Vai um grude aí, Meryl? Batata, coelho, cebola picada e um cadinho de hortelã. — Ofereceu o anânico. Meryl aceitou, sentando-se ao lado do anânico, enquanto ele, com uma concha, enchia uma pequena tigela para a jovem. Meryl pegou a tigela e começou a degustar do ensopado.
— Hmmm... Eu precisava disso... Concluiu Meryl, com uma face de júbilo e satisfação na face. A sopa estava deliciosa. Pedro desenhou um sorriso de orelha a orelha, mostrando seus dentes amarelados e tortos.
— Tudo em um dia de trabalho, jóvi! Tudo em um dia de trabalho... — Concluiu satisfeito o anânico, porém, seu tom trocou sutilmente de alegria para preocupação. Eveline ainda estava em sua mente. Meryl percebeu a preocupação do colega.
— Está preocupado com a Eve? — Perguntou Meryl, buscando puxar assunto com o anânico.
— Não com ela, mas com toda a situação. Eveline vacilou feio conosco, mas é a primeira vez que eu vejo o Jonesinho ficar tão doidão como ele ficou hoje. Foi um pouco... Assustador!
— De fato, foi... — Meryl deu uma colherada de seu ensopado. Um silêncio permeou o acampamento, sendo interrompido somente pelo roncar de Jones e Natália e do som dos grilos e mosquitos.
Meryl continuou:
— Mas se não fosse por você, as coisas poderiam ter ficado piores, e uma pessoa poderia ter morrido. Você salvou a todos nós, Pedro!
— Hahahaha! Acho que é verdade... Mas eu não quero ter de passar por isso de novo. Acho que depois que entregarmos o relatório ao Seu Ananias, vou dar tchau e caçar outro rumo.
— Achei que você fosse amigo deles dois. Por que sair?
— Sou colega deles dois, jovenzinha. Nessa profissão, ‘cê não pode fazer amizade com outros do ramo... — Mais um silêncio. Pedro por fim deu uma colherada de seu ensopado. — Se não acontece o que aconteceu hoje.
Meryl encarou o anânico por alguns instantes. Ela não compreendeu o que ele quis dizer. A clériga entre abriu os lábios, preparando-se para falar, quando Pedro concluiu seu raciocínio, com pesar em sua voz:
— Ser um aventureiro é estar na mão da chance a todo o tempo. É bom você ter certo desapego de seus colegas, pois ‘cê nunca sabe quando é que os Santos vão chamar eles, tá ligada? É saudável pra você profissionalmente, e principalmente, a dor é menor quando acontece algo assim. Nesse ramo, somos todos peões do destino, sobrevivendo há todos os minutos o que o mundo vai arremessar na nossa cara. Eveline entende isso. Jorge também entendia. Agora eles dois? Não. Eles não entendem. Por isso eu falei pra eles se aposentarem logo antes que algo aconteça.
— Algo aconteça? Você não acha que está sendo pessimista e precipitado demais? Nós...
— Nós é o caramba, garota. — O crepitar das chamas ressoava pela noite. Meryl não compreendia. O que diabos estava acontecendo naquele grupo? Confusa, ela esperou Pedro continuar, e ele não desapontou.
— Se quer união, volta pra Igreja. Aqui, nas estradas, nos calabouços, é cada um por si e os Santos por todos. Eu não vou pôr minha mão no fogo por ninguém! Nem por você, nem por eles dois ali. A gente só coopera simplesmente pra sobreviver e receber o dinheiro, depois disso? Cada um no seu caminho.
Incomodada, Meryl fechou a expressão de seu rosto. — Natália e Jones poriam as mãos deles por você. Isso eu tenho certeza! — Pedro deu uma gargalhada cansada, mais demonstrando sarcasmo do que júbilo ou alegria.
— Você é muito ingênua ainda, menina... Aqueles ali só se importam com eles mesmos. — Pedro olhou para o horizonte. Várias luzes pontuavam a silhueta obscurecida de Egarost ao longe. — Confie em mim quando digo que não tenho nada contra os dois. Mas eu tô aqui agora fazendo comida pra todos nós, te dando a real sobre essa profissão e montando guarda até o dia seguinte por que é parte do contrato social entre aventureiros. Isso que tô te dizendo acontece e é mais comum do que você imagina! — Do tipo: Aconteceu? É terça-feira. Não me olha com essa cara me julgando. Tô sendo até legal pra caramba te dando a real sobre essa profissão. Antes eu chegando e te contando como é essa coisa de ser aventureiro do que tu aprender na marra sendo feita de otária por muito metido a malandro, sacou? E ó: O que não falta no nosso ramo, é metido a malandro!
Meryl desviou a atenção do anânico tagarela e terminou seu ensopado.
— Me rende aí. Preciso descansar um pouco. Ah, e vê se não deixa o caldeirão no fogo!
— Você é muito do folgado e tagarela, sabia disso? — Respondeu a clériga, cansada da conversa.
— Dane-se. Lembra-se do que eu te disse? “Contrato Social entre Aventureiros”. Meu turno chegou ao fim. Agora é sua vez. — O anânico então se levantou e se recolheu para a pequena tenda atrás de si.
— Boa noite!


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