Histórias de Taverna || Problemas no Forte Hedryl #2


UMA VISITA INESPERADA

Zander olhava o mar, desta vez de dentro da torre, pois a chuva era intensa demais para permitir que ele subisse no telhado como de costume. O cheiro característico de lama se misturava com o da maresia e muitas pessoas não teriam nenhum motivo para gostar daquilo. Mesmo Zander, que gostava de dias nublados, não tinha como ficar satisfeito com aquele volume exagerado de chuva.
De fato ele estava um pouco mais azedo do que o de costume e apenas a beleza dos movimentos das ondas o mantinha ali. Ele suspirou ao pensar que ainda faltavam duas horas para os treinos da manhã e lamentou que seu hábito tivesse feito com que levantasse cedo como de costume, pois na noite seguinte teria um turno noturno para cumprir na vigília das muralhas. Se virou e começou a descer as escadas, decidido a voltar para casa e vestir roupas secas, pelo menos pelas horas que lhe restavam.
Na saída da torre, ainda no alto da muralha, ele abriu um sorriso largo ao dar de cara com a garota da semana anterior. Seu cabelo estava preso de maneira displicente, de modo que apenas evitaria que lhe caísse no rosto. Suas roupas estavam encharcadas e sua expressão era de curiosa satisfação. Ela levantou os olhos e o viu parado em sua frente.
— Olá Zander. Eu realmente não esperava te ver aqui hoje.
Sua voz soava abafada, de modo que ela se aproximou e se protegeu da chuva ao lado de Zander.
— Eu mesmo não faço ideia do que vim fazer aqui hoje numa chuva dessas.
— Acho que somos dois então...
Antes que a conversa se desenvolvesse mais, os sinos do pátio central badalaram muito antes do habitual e com uma intensidade que trazia um significado diferente, era um sinal de alerta.
A garota ao ouvir o barulho, correu escadaria abaixo, seguindo em direção à praça, aparentemente perdendo de súbito o interesse pelo rapaz. Zander a seguiu, caminhando um pouco mais atrás. Ele ouvia os gritos de Evar e Jorah instruindo todos a se dirigirem até o pátio central e imaginou o que teria desencadeado o alerta, seria uma incursão inimiga?
Quando chegou, espantou-se ao ver os portões principais sendo levantados. Junto à torre central, Magnus se escorava na parede com um cigarro na boca, protegido da chuva pelo beiral do telhado da torre, de onde Zander calculava que ele teria um ângulo de visão privilegiado de quem quer que fossem os recém-chegados. A garota se posicionou um pouco afastada, na outra extremidade do Pátio e Zander parou próximo a ela.
Depois de alguns momentos de espera, os portões finalmente se abriram por completo e por ele começaram a marchar rumo ao interior do forte três figuras: Dois membros da Guarda dos Crânios (ostentando em seus escudos e capas o brasão da família Birdeye, umas das famílias fundadoras e responsável por maior parte da guarnição interna do local) e entre eles, preso por correntes, um alto minotauro. Zander pensou que aquele era um dos exemplares mais imponentes que já vira, passava facilmente dos dois metros e meio, tinha poderosos músculos em todo o corpo e as grossas correntes que o prendiam pareciam finas em seus punhos. Ao invés dos típicos chifres que apontavam para cima, os dele apontavam para frente, como se tivessem sido planejados para perfurar seus inimigos em uma investida.
Zander o observou boquiaberto, mal podendo acreditar que alguém pudesse ser capaz de tamanha insensatez como permitir a entrada de uma criatura como aquela no forte.
A pequena comitiva se aproximou com o minotauro vindo na frente, como se conduzisse o grupo ao contrário do que as correntes poderiam sugerir. Ele pisou na extremidade do piso de pedra lisa que marcava o limite do pátio principal e parou olhando os presentes, um a um, de maneira demorada. Zander viu Evar se aproximando e cruzando os braços ao lado de Magnus.
O Minotauro então ergueu a cabeça e começou a falar com sua voz gutural em seu idioma complexo.
Apaitíste éna koinó me ton kapetánio Beatrice Corah!
Zander conhecia a língua de Tapista, por isso entendeu o que o estranho quis dizer, ele requisitava uma audiência com Beatrice Corah, a atual comandante do forte. Zander traduziu para os que estavam próximos, mas antes que pudesse repetir a frase em voz alta para que todos ouvissem, viu quando Amami Tsunayoshi, uma monja vinda da longínqua terra de Tamura, tomou a frente e começou a traduzir para o restante dos presentes.
— Ele requisita uma audiência com a comandante!
Amami era atlética e seus músculos eram firmes como rocha e muito bem definidos, usava calças largas de tecido leve e uma camiseta sem mangas, seu cabelo era de coloração avermelhada e caía de lado, vindo do topo de sua cabeça que era raspada nas laterais.
Todos olharam com espanto diante do pedido e logo os cochichos se alastraram pelo local.
Evar torceu o nariz para aquilo, claramente em desagrado:
— E qual seria o motivo? — Sua voz ecoou os pensamentos da maioria dos presentes, incluindo Zander.
Amami traduziu e o minotauro reagiu: uma bufada e uma cusparada no chão, bateu as sandálias no chão, fazendo com que um dos guardas que o escoltavam perdesse brevemente o equilíbrio. A jovem monja viu como todos reagiram, levando imediatamente as mãos em direção ao punho das armas. Ela levantou as mãos em um gesto conciliador e pediu calma a todos. O Minotauro a examinou por um tempo e com uma respirada mais profunda, relaxou um pouco a tensão nos músculos.
Écho érthei polýs drómos gia na sas synantíso. Akoúsei pollés istoríes gia esás kai tha íthela na epivevaióso an eínai alithinés.
Amami balançou a cabeça para os lados e o respondeu em voz baixa ainda na língua do invasor:
Você sabe que isso não vai ser o suficiente para convencer os cidadãos daqui...
— Cidadãos? Aqui eu só vejo escravos.
Amami respirou fundo e tentou manter a calma. Se aproximou cuidadosamente, ainda com a expressão impassível de antes.
Você não está se ajudando...
O Invasor mais uma vez se mostrou impaciente e deu outra bufada, exalando seu bafo quente em direção à mulher impassível à sua frente.
Chamem logo Beatrice!
Eu vou passar a eles o que você falou, mas duvido que atendam seu pedido. — Amami virou as costas para ele e falou em voz alta, dessa vez em Valkar, para que todos compreendessem — Ele disse que ouviu histórias sobre ela e gostaria de comprová-las.
— Histórias não trarão a ele audiência alguma — Evar, ainda com os braços cruzados, o olhava fixamente. Ele havia observado que Magnus estava armado, assim como uma boa parte da guarnição, sabia que, se aquele intruso tentasse algo, poderiam contê-lo com certa facilidade.
Amami olhava para o veterano, como se esperasse dele alguma diretriz. Evar então andou em passos firmes em direção ao minotauro e o observou por um momento, olho a olho. Zander deu um passo a frente, se posicionando próximo a eles e então notou o quão alto era Evar. O guarda tinha a pele negra e usava os cabelos presos em múltiplas tranças, tinha uma cicatriz no olho direito fruto da guerra contra os taurinos. De frente a ele, o Minotauro não parecia mais tão imenso, apenas... grande.
— Acho que talvez não tem problema chamar a comandante.
Zander o olhou, estreitando os olhos, com claro desagrado estampado na face.
Talvez, devêssemos jogá-lo em uma masmorra. Ele já está de correntes, seria até mais fácil.
— Mas não seria honroso de nossa parte garoto. Ele veio de bom grado e aparentemente não machucou ninguém.
Zander deu de ombros e se virou para os Guardas dos Crânios, que suavam embaixo de seus elmos, enquanto seguravam as pesadas correntes. Zander identificou medo em suas expressões, assim como na de grande parte das pessoas à sua volta. Os guardas que escoltavam a fera eram ambos homens fortes e altos, mas mesmo assim pareciam frágeis próximos ao minotauro.
Amami então se colocou entre Evar e o Minotauro numa distância imprudentemente próxima.
— Então, posso te escoltar ate lá?
O Minotauro bufou mais uma vez, com sua baforada quente bagunçando o cabelo de Amami, que se limitou a colocá-lo de volta em seu lugar de forma despreocupada e displicente. Vendo que ela não se afastara, ele voltou a falar em seu gutural idioma.
Prefiro ter com ela em ambiente aberto.
Isso não será decidido por você. — Amami então se virou para os dois guardas acompanhando o minotauro. Estampado no peitoral das armaduras dos dois guardas estava o emblema da família Birdeye. — Vocês podem ir, eu assumo daqui.
Os dois se entreolharam, sem saber como reagir diante daquilo. A monja, apesar de respeitada, não possuía nenhuma posição oficial no forte, portanto não tinha autoridade para dar as ordens. Olharam para Evar e para Zander, que pareciam aceitar aquilo como natural.
Diante da inação dos guardas, Amami pensou que talvez eles gostassem de seguir hierarquias e protocolos sociais, por isso inclinou levemente a cabeça na direção deles e disse apenas “Obrigado”.
O que estava à direita do minotauro engoliu seco e começou a falar com a voz hesitante:
— Estamos seguindo ordens de Ethilda Birdeye e não podemos deixar o minotauro sozinho.
Amami sorriu condescendente para os guardas e começou a olhar ao redor.
— Bom, se vocês olharem agora, verão que nesse momento ele está ao contrário de sozinho.
Os dois olharam entre si novamente e acenaram positivamente a cabeça, soltaram as correntes, que caíram com um estrondo metálico no chão, e se afastaram alguns passos, levando as mãos ao punho das espadas.
O Minotauro ao ver isso, afastou as mãos com um movimento rápido, fazendo com que as correntes se rompessem ante a força de seus músculos. Ele se espreguiçou a despeito das reações dos presentes, todos se colocando em posição de alerta, e em seguida cruzou os braços enquanto esperava. Amami virou de costas para o visitante e encarou Evar com uma expressão de absoluta confiança.
— Bem, então podemos ir, eu traduzo.
Zander então não pôde mais se conter, deu passos decididos e se colocou à frente de todos, erguendo as mãos à fim de chamar atenção de todos os presentes.
— Por que toda essa precipitação? Ainda precisamos ouvir o que a comandante tem a dizer sobre toda essa situação.
— Ah, claro, eu não sei muito dessas coisas de hierarquia, mas vão em enfrente então, façam o que tenham que fazer. — Disse Amami voltando a encarar o Minotauro, que permanecia impassível.
— Muito bem então. — Evar deu um passo atrás, tirando pela primeira vez a mão do punho da espada. — Vou comunicar a capitã. Magnus, Zander fiquem de olho nele por enquanto.
Magnus suspirou de seu lugar, tirou o cigarro da boca e bateu levemente com os dedos para tirar o excesso de cinzas que se acumulavam na ponta. Em seguida ele se aproximou de Zander e ficou alerta.
Amami se virou quando Evar se dirigiu ao sul, em direção aos aposentos da capitã.
Em sua terra você era um militar? — Quis saber ela, falando novamente na língua do visitante.
São poucos os que não nascem com esse destino em minha terra. E os que fogem dessa vida são covardes.
Amami ponderou a resposta por um tempo antes de continuar.
Então pode ser que eu tenha uma pergunta ou duas para fazer, quando tudo isso terminar. — Calado, o minotauro apenas concordou com um curto aceno positivo da cabeça.
O Minotauro deu um passo para o lado, seu movimento foi seguido de perto por todos os presentes, ele virava a cabeça em todas as direções, analisando as estruturas e o efetivo militar do qual o forte dispunha. Amami seguiu seu olhar e em determinado momento algo chamou sua atenção. Magnus pareceu também ter visto um pequeno tumulto em um local mais afastado, próximo ao dormitório dos plebeus e foi a passos firmes em direção, Amami colocou a mão em seu peito para que ele esperasse.
— Depois eu resolvo essa situação, elas precisam ver como as coisas funcionam por aqui.
Magnus a ignorou, tirando a mão da monja com um tapinha e seguiu na direção em que pretendia ir. Zander olhou e viu do que se tratava: um soldado aos berros tentava afastar os civis do local, especificamente duas garotinhas, que Zander sabia terem vindo com Amami quando a mulher chegou a um ano atrás. Magnus se aproximou e deu um aperto firme no ombro do homem.
— Por que está gritando John? Não tem filho em casa não?
Ao se virar, o jovem guarda fez uma posição de sentido para o espadachim.
— Perdoe-me senhor, acho que me equivoquei.
— Apenas as trate com respeito.
As garotas deram uma risada ao notar o embaraço do guarda e com um aceno de deboche elas os acompanharam para longe do local. Zander ao contrário permaneceu onde estava, com seus olhos fixos no visitante, com o restante de seus soldados ao seu lado.
Após 10 minutos de uma espera silenciosa e tensa, sob a forte chuva que assolava o local, Zander ouviu passos vindo da direção sul. Ele se virou e viu Evar acompanhado de uma mulher alta vestindo uma armadura brilhante, de cabelos castanhos e presos com joias reluzentes. Zander a viu e pensou que ela parecia nova demais para o cargo, não mais do que quatro ou cinco anos. A pele pálida, que contrastava com os lábios vermelhos, indicava que ela raramente saia de seu quarto, e assim era, desde que seu marido morreu anos antes, fazendo com que a antes doce e agradável Beatrice de Corah se transformasse pouco a pouco em uma mulher fria, reclusa e pragmática.
— Que gostosa. — Zander olhou para Magnus e se limitou a dar um sorriso discreto ante ao comentário displicente do amigo.
Ela se aproximou, em seu peito, um símbolo representando uma espada e uma balança sobrepostos, que a identificava como uma paladina de Khalmyr, o deus da Justiça. Parada a uma distância da criatura, ela pareceu examiná-la de longe. Zander a recebeu com uma continência.
— Então senhor Zander, o que temos aqui? — Disse ela olhando o rapaz com uma expressão indolente.
— Esse minotauro deseja uma audiência com a senhora, Capitã. Ele entrou no forte escoltado por homens sob as ordens de Ethilda Birdeye.
Zander e os demais presentes viram quando Beatrice revirou os olhos em desgosto à menção do nome, sem fazer nenhum esforço para esconder a reprovação.
— Esses Birdeye parecem mais loucos a cada dia que se passa. — Ela suspirou e se voltou para o visitante, se dirigindo a ele em seu próprio idioma.
— Muito bem senhor, aqui estou. O que gostaria de ter comigo?
O Minotauro a olhou com atenção e de repente pareceu reconhecer a mulher à sua frente. Zander o observou enquanto ele esticou sua coluna e deu três bufadas tentando controlar a respiração.
— Depois de tanto tempo, finalmente a encontro, mulher.
Beatrice inclinou levemente a cabeça tentando se lembrar de algo.
Desculpe, mas acho que ainda não fomos apresentados.
Você não lembra, mas eu nunca esqueci, nem por um segundo! — Trovejou fazendo todos os presentes darem um passo cauteloso para trás. Zander por reflexo desembainhou a espada em seu cinto, revelando os primeiros centímetros da lâmina negra de sua espada.
Magnus foi menos sutil, retirando com um movimento suave a espada de sua bainha e apontando para o visitante, que batia os pés no chão.
Diga ao hambúrguer que se não parar com isso eu irei espetá-lo. — Disse, dirigindo-se a Amami.
— Você está eriçando todos aqui fazendo isso, não acho que seja sábio.
A monja, vendo que já haviam oponentes demais para conter a criatura, se retirou na direção onde o guarda havia levado as garotas. Magnus acenou para ela em agradecimento, mas a monja não respondeu, aparentemente ofendida pela rudeza do rapaz momentos antes.
O Minotauro ignorando tudo a sua volta, respirou fundo controlando suas emoções.
Me chamo Macedônios Wallhammer e venho de Tapista e nós temos uma história — Ele a olhava com fervor, ao passo que ela parecia olhar através dele com um vazio no rosto.
— Esse sobrenome me é familiar, embora não lembre... — Ela pareceu refletir por um tempo e então voltou a falar em Táurico fluente. — Você deve entender o porquê de evitarmos lembrar de vocês por aqui, é uma lembrança que nos machuca bastante.
Mais uma vez ele observou ao seu redor, olhando os rostos de cada um ao seu redor. Olhou para baixo e em seguida para o portão atrás de si.
Zander viu quando o minotauro bufou e levantou seu poderoso martelo, cheio de escrituras e marcações táuricas, Zander olhou para Beatrice que se colocou em guarda, Amami acabara de voltar, acompanhada por uma pequena criatura, que voava em círculos em volta da mulher.
Beatrice olhou para Zander e Magnus e lhes sorriu cansada.
A luta não será justa, você não conseguirá sua vingança. — O Minotauro observava Beatrice e a ignorava
Amami viu Evar dando sinal para os Guardas da Família Purplemoon nas torres acima, que de imediato sacaram flechas e se colocaram em posição de espera.
Então, antes de você morrer me responda. — Ela suspirou e continuou — Se eu fosse até Tapista, vocês conversariam com alguém como eu?
Ele a olhou com os olhos vermelhos de fúria.
Escravos como vocês não servem para conversar, servem apenas para trabalhar sob o chicote de seus senhores minotauros!
O Gigante de chifres então soltou um urro de raiva e correu com o martelo em punho na direção da paladina. Tudo foi muito rápido, Zander correu para interceptá-lo, enquanto Magnus o acompanhava pelo lado oposto. Magnus atacou mirando a perna do minotauro, que mesmo com o corte profundo não diminuiu o passo. As flechas zuniram de cima das torres ao passar próximas de Zander e se cravarem fundo na coxa da criatura. O jovem oficial conseguiu ultrapassá-lo e se preparou para um ataque diagonal, com sua espada de obsidiana em mãos ele deu um passo firmando o pé, girou o punho e mirou na costela exposta da criatura, a lâmina se aproximava mortalmente do atacante, quando uma pedra solta no chão rolou fazendo com que ele se desequilibrasse e errasse o golpe. O Minotauro não parou e Zander sentiu o gosto de seu próprio sangue, quando a poderosa coxa o acertou na boca, atirando-o para o lado. Ele rolou no chão tentando se recuperar e pode apenas ver um borrão que parecia ser um raio acertando o Minotauro nas costas. A criatura urrou de dor e chegou desequilibrado até a capitã, que com um passo gracioso para a esquerda desviou de seu pesado martelo e, em um piscar de olhos, desembainhou sua espada e passou a lâmina no pescoço do adversário.




Share on Google Plus