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| Arte por: ~Vablo~ |
Em um pequeno cômodo na Alta Torre Preparatória e Escolástica de Vortúmbria residia a Verdade. Não a verdade absoluta que diz o que as coisas são e também o que não são. Tão pouco se trata da verdade incompleta a qual adotamos em nossas vidas, motivados por nosso limitado ângulo de visão. Aquela verdade, ao contrário das outras não era uma questão de perspectiva, mas sim um fato concreto.
A Verdade que lá vivia tinha dezessete anos, grandes olhos brilhantes, corpo de uma jovem mulher e orelhas de raposa que faziam conjunto com uma felpuda cauda. Ela habitava aquela úmida cela e havia recebido o nome de Minori na ocasião de seu nascimento.
A brisa vespertina entrava pela janela semiaberta fazendo balançar levemente a pesada cortina de veludo que adornava o recinto. O aroma de velas aromáticas queimadas durante a noite anterior ainda pairava no local e se misturava ao cheiro da tinta e do papel velho que repousavam sobre a mesa de carvalho antigo.
Naquele lugar a garota estudava escrituras antigas enquanto misturava reagentes alquímicos em pequenos recipientes de vidro. Ela murmurava as medidas enquanto repassava as quantidades de cada reagente que usaria.
— Cento e cinquenta gotas de extrato de raiz de Senkan, noventa doses de pó de Serenita... — moveu a mão esquerda em gestos rápidos, contidos e calculados e com o dedão da mão direita tampou o recipiente começando a girar o frasco rapidamente.
Lá dentro, o líquido antes transparente, começou a ficar branco e depois a assumir uma tonalidade de rosa à medida que pequenas pedras se formavam e se decantavam na mistura.
Em seus lábios se formou um sorriso de satisfação, um sorriso sincero, mas que se desfez em pouco tempo junto com sua concentração que foi quebrada pelas repentinas batidas na porta. No entanto, as batidas eram meramente uma formalidade dispensada por uma única pessoa na torre, já que não havia lá conceitos de pouca utilidade prática tais como privacidade e espaço pessoal.
— Entre, Mestre Astubal. — Ela não se virou para responder, apenas começou a organizar seu experimento na bagunçada bancada.
— Mas é claro que entrarei, do contrário não teria motivos para lhe deixar ciente de minha chegada.
Pela porta entrou um homenzinho de no máximo um metro e meio de altura, cerca de um palmo menor que a garota-raposa. Tinha cabelos escassos e usava uma túnica preta presa na cintura por uma corda feita de linho de três cores, o que o identificava como um “mestre da torre”.
— Pelo que sei tal procedimento não é o padrão aqui, caro mestre.
— De fato, mas eu gosto de não seguir o padrão.
— Mas neste caso o padrão é ser excêntrico.
— De fato.
— Então o senhor está sendo normal?
— De maneira nenhuma.
— Mas...
— Nada de mas. Vejo que conseguiu terminar sua tarefa. Mesmo que apenas no último segundo disponível para tal.
— Sim.
— Ótimo. — O Gnomo circundou a aprendiz e subiu sem cerimonias na cama da garota, a fim de poder ficar no nível de sua bancada e poder assim analisar o experimento. — Só os tolos se adiantam quando ainda há tempo disponível.
— E só os incompetentes se atrasam. — Verdade se afastava do mentor e se posicionava junto à parede com os braços cruzados atrás das costas.
— Exatamente.
Ambos ficaram em silêncio, o Gnomo continuava em pé sobre a cama da jovem enquanto analisava a cor do liquido dentro do frasco. Verdade fitava a cortina com uma expressão entediada.
— Aparentemente está tudo correto... — O Gnomo a olhou com um sorriso no rosto.
— Claro que está.
— Sim, claro que está.
Astubal Do era Mestre da Torre a menos de um ano e Verdade era sua primeira aluna. Ela era inteligente e aprendia com uma facilidade impressionante, mesmo para os raramente impressionáveis mekubal. Seu talento era daqueles que aparecem a cada dez anos e ela era cobiçada como pupila por muitos dos Mestres Superiores. Todos sabiam que ela seria alguém de grande renome e por isso aquele que a ensinasse seria igualmente prestigiado.
O Mestre Superior Arvald Troncod’água era o favorito ao cargo, ao menos era assim considerado pelos outros Mestres e Mestres Superiores, que já imaginavam maravilhados o que tal dupla seria capaz de fazer.
Nesse cenário, ninguém ficou mais boquiaberto do que o próprio Astubal quando o Mestre Máximo Temas anunciou a decisão do Conselho de que ele ficaria encarregado da educação da jovem kitsunejin.
O começo fora difícil para ambos, Astubal Do era excêntrico como qualquer gnomo de respeito e Verdade tinha muita dificuldade em se relacionar.
Por muitas vezes discutiram com seriedade, por muitas outras sorriam com cumplicidade. A vida na Torre era complicada e cruel a tal ponto que os novos estudantes eram submetidos a castigos físicos pesados por pelo menos duas vezes por dia, antes das tarefas da manhã e da tarde. Tal postura era adotada para acostumá-los a trabalhar em situações adversas desde muito cedo, afinal o mundo fora das paredes da sede da Cabala Motriz era um lugar frio e cheio de perigos.
Verdade se mostrou menos excepcional do que o esperado, sua resistência física era muito abaixo da média e sua sociabilidade era, na melhor das hipóteses, desprovida de pudores. Por vezes andava pelas áreas comuns vestindo apenas uma leve camisa de seda que deixavam a mostra seu corpo de jovem mulher. Entre os Mestres e alunos mais velhos não havia problemas, mas os noviços não haviam ainda se livrado de suas fraquezas carnais, o que gerou em mais de uma ocasião, graves acidentes com componentes alquímicos.
Mestre Do, teve que adverti-la para que não fizesse mais aquilo, embora tenha sido necessário se valer de três explicações diferentes sobre a importância de não perturbar a mente dos demais noviços. Para sua resistência, ela desenvolveu um anestésico leve que lhe aliviava o sofrimento, sem que seus sentidos fossem prejudicados ou que sua capacidade cognitiva tivesse qualquer diminuição. Este método foi efetivo e fundamental para que ela fosse capaz de passar por essa fase inicial do treinamento, em que geralmente grande parte dos noviços desiste ou morre.
...
— Como se sente estando apenas a um dia de seu grande dia?
— Da mesma forma que sempre me sinto, mestre Do.
— Ótimo! Expectativa em demasia apenas atrapalha.
— Mas, meus pensamentos estão confusos apesar...
Astubal se sentou na cama da garota e a observou por cima de seus óculos redondos.
— Me diga o que pensa, talvez eu possa oferecer uma perspectiva à sua questão.
— O Ritual me traz incerteza... Confio que possa passar por qualquer teste mental que me impuserem, mas há o Bosque das Manticoras. Sou fraca e sem minhas poções, não creio que seja capaz de sair com vida de lá.
— E a chance de morrer lhe causa medo?
— Não. Mas eu não gosto de falhar, e há uma chance muito alta de eu falhar amanhã. Aproximadamente de noventa e cinco por cento, segundo meus cálculos preliminares.
— Na verdade sua chance de falha é de noventa e sete vírgula zero quarenta e cinco.
— O cenário é mais crítico do que eu pensava.
— Pode ser que sim, mas nós a treinamos para ter êxito quando as probabilidades dizem o contrário. Vencer quando a lógica determina a derrota é o que faz os mekubal serem algo de valor no mundo.
Verdade olhava com sua característica expressão vazia para a paisagem que se estendia abaixo de sua janela, quilômetros e mais quilômetros de montanhas até onde a vista podia alcançar. Lembrava-se de seus estudos aprofundados que começaram muito antes de chegar à torre, ainda em sua casa, com seu pai adotivo. Ele era um professor severo, mas que nem de longe a havia preparado para a Torre.
— Não pense muito sobre suas chances de morrer, seu tempo seria melhor gasto pensando em como fazer melhor uso das chances que tem.
Mestre Astubal então desceu na cama da garota-raposa e se dirigiu à porta.
— Tente dormir um pouco, espero vê-la pontualmente na câmara dos sábios amanhã.
— Nem antes e nem depois, mestre.
...
O primeiro sino da manhã tocou, precisamente ao mesmo tempo em que os primeiros raios do sol iluminavam a pedra rubra posicionada no alto da Grande Torre. Uma porta dupla de carvalho marcava a entrada da Câmara dos Sábios onde a primeira etapa do teste se passaria. Lá estavam Astubal Do e Minori Meyers, ou Verdade, como gostava de ser chamada.
— Não me envergonhe.
— Não irei.
Ao tocar do segundo sinal, mestre e discípula deram passos a frente e juntos abriram a grande porta de madeira. Lá dentro eles ficaram em pé no meio de uma sala redonda. À sua frente sentavam-se os cinco Mestres Máximos da Torre e mais um representante dos Mestres e dos Mestres Superiores, totalizando sete avaliadores. Eram esses: Mestre Máximo Temas, Mestre Máximo Glumderbach, Mestre Máximo Jintoki Kippan, Mestre Máximo Fulfirionarelonvald Ecquins, Mestre Máximo Rip Terkins, Mestre Superior Arvald Troncod’água e Mestre Bill. Todos os mestres utilizavam a cabeça raspada em sua totalidade, não ostentando pelo algum. Vestiam túnicas brancas e um gorro de couro sem adornos. Arvald era o que mais se destacava, pois era pelo menos um palmo mais alto do que todos ali. Mestre Bill era evidentemente o mais novo, seu rosto não possuía as rugas dos demais colegas e seus olhos eram claros como as águas de um lago.
Assim ficaram até que Mestre Máximo Temas tomou a palavra:
— Verdade... Seja... Bem vinda...
A jovem então fez o que o protocolo exigia e respondeu levando a ponta do dedo médio da mão esquerda ao lóbulo da orelha direita.
— Vamos começar sem delongas.
Diante da sugestão dada pelo Mestre Superior Arvald, os presentes assentiram com a cabeça. O próprio Arvald tomou a frente e iniciou a rodada de perguntas.
— Você sempre me encontrará no passado. Eu posso ser criado no presente, mas o futuro nunca pode me manchar. O que eu sou?
— Você é a História.
Todos os mestres mantiveram-se Imóveis enquanto Arvald se sentava novamente. Em seguida foi a vez de Mestre Bill.
— O que você faria se encontrasse um homem moribundo na estrada para as terras férteis, supostamente picado por um Escorpião Púrpura?
— Me prepararia para um possível combate.
— E por que faria tal coisa? — Interpelou Mestre Máximo Terkins.
— Pois se trataria de um assalto.
— Com base em quais evidências formularia essa hipótese? — Quis saber Mestre máximo Ecquins.
— Escorpiões Púrpura são conhecidos também como Escorpiões da Torre, pois são nativos de regiões montanhosas, particularmente dos espinheiros que podem ser encontrados próximos a esta torre em que estamos agora.
— É uma observação inteligente, más...
— Além disso, Escorpiões púrpura tem veneno poderoso o suficiente para paralisar um pássaro ou outros animais pequenos, jamais seria letal para um humano. E se fosse eu não faria nada, pois isso seria uma tarefa para os Corvos Amarelos, não para nós.
Todos ficaram em silêncio, menos Mestre Do que gargalhava com entusiasmo.
Mestre Temas se permitiu um sorriso enquanto se levantava com dificuldade. Ele olhou para a garota ainda impassível.
— Você adquiriu... conhecimento...
— Conhecimento Alimenta a alma.
— Sabe seu lugar... no... mundo...
— Um cão sabe que é um cão, uma pedra não sabe que é pedra, conhecimento de si define a vida.
— Essa, é sua última chance... de se virar... e ir embora...
— Não se vive para trás tampouco se congela no tempo.
— Então... Irá até... O Bosque... das... Manticoras.
— E para onde mais puder alimentar minha alma.
— De lá trará... Uma nova... Verdade.
— E aí verão que minha alma está bem alimentada.
Todos se levantaram e saíram em silêncio em direção ao lado de fora da Torre, onde uma turba se aglomerava para acompanhar a última parte do ritual. Minori teria que entrar no denso espinhal que era o Bosque das Manticoras e ir até seu centro. Ao chegar na entrada do Bosque, Mestre Máximo Kippan se aproximou e lhe pediu o braço. Ela levantou a manga da túnica e ele a furou com um espinho de um ramo retorcido que havia acabado de ser colhido. Minori fez uma careta e imediatamente sentiu seu braço queimar.
— O veneno irá diminuir seus sentidos gradualmente até que em período de duas horas você irá cair imóvel e em seguida morrerá. Algumas pessoas são mais resistentes, outras mais frágeis, o que pode acelerar ou retardar o tempo de ação do veneno. No centro do Bosque á uma árvore de Mais-Viver, cuja flor se ingerida, é capaz de anular os efeitos do veneno em seu organismo.
Minori assentiu e ele continuou:
— Sua missão é sobreviver. Vá, coma a flor e volte.
...
A primeira coisa a adormecer foi sua língua, e logo não pode mais usá-la para captar os sabores no ar, uma das formas que seu povo usava para se localizar em florestas. Em seguida a ponta dos dedos, tornando difícil se locomover e navegar em meio aos espinhos. Conforme avançava sentia sua carne ser rasgada a cada espinho que lhe arranhava. Percebia que quanto mais se feria, mais era difícil manter a visão focada. Corte após corte, seu tato era reduzido e seu corpo se inebriava, tirando-lhe a dor.
Avançou a paços rápidos pelos caminhos que encontrava em meio a mata. Seu tamanho e sua agilidade a ajudavam, mas a estratégia que adotara não presava pela cautela, mas pela velocidade. Ela sabia que não teria muito tempo. Correu e saltou em meio aos galhos e troncos cheios de pontas afiadas.
Vinte minutos, Trinta minutos, uma hora. Caminhava praticamente sem o sentido da Visão, contando apenas com a audição e o Olfato. Suas roupas pendiam de seu corpo, rasgadas pelas lanças naturais. As sombras que se formavam diante de sua visão, turva, justificavam o nome do local e ela não conseguia ver nada a não ser caudas de manticoras se entrelaçando à sua frente.
Caminhou, mesmo sem ter certeza de que ia para o caminho certo. De repente nada. Deu um passo, mas não havia nada, apenas o vazio.
Abriu os olhos e pode ver, era branca e tinha folhas que pareciam pequenas lagrimas. Piscou e ao abrir os olhos a flor havia sumido e de algum modo, sua boca estava mastigando algo.
Abriu novamente os olhos e sentiu a dor lancinante que dominava seu corpo. Sua visão estava de volta e seu tato também. Se levantou e viu que havia caído em um buraco aos pés da grande árvore de Mais-Viver. Cambaleante se forçou a escalar o buraco pelos galhos e raízes que formavam uma escada natural. Tentou ignorar a dor, mas seus gritos enchiam o ambiente à medida que subia. Quase chegando ao topo, caiu.
...
Estava escuro e todos haviam entrado, menos Mestre Do. Sua aluna já havia partido a mais de três horas e ainda não havia retornado. Todos desistiram e lamentaram a perda de uma genial aluna. Todos, menos Astubal Do. Ele estava ocupado, aguardando sua pupila. Ele sabia que ela viria, por isso não ficou surpreso quando ela saiu do bosque se rastejando, apenas para cair aos pés do mestre.
— Está atrasada.
Minori sorriu ao ver o rosto do mestre e deixou fio de consciência que lhe restava se esvair.
Astubal levou a garota para o pequeno aposento no topo da torre, aquela pequena cela onde mora a Verdade.
