Corações Divididos

arte por: Simi N

I
No quarto da taverna a luz da lua passava gentilmente pela janela. A luz parecia beijar o chão de madeira após se engraçar com a cortina fina de tom branco presente na janela. Os dois estavam lá, sentados, se olhando outra vez. O silêncio era de matar, apenas sendo quebrado pelo tilintar do copo de vidro que o rapaz mexia sem parar, para lá e para cá.
— Por que fazemos isso? — Perguntou com um tom triste e bem fraco na voz, como se segurasse para não chorar
— Não sei. — Disse secamente o homem
O silêncio inundou de novo o local, até ser morto pelo barulho do whisky caindo na mesa de madeira. O copo, tombado, rolou para o lado e caiu da mesa, mas não se partiu, bateu violentamente no chão, mas não o suficiente para se estilhaçar
— Você a ama? — Perguntou a mulher enquanto se encolhia em meio as suas pernas, se cobrindo com o lençol
— Não. — Respondeu de novo de forma ríspida
O Silêncio apareceu de novo, mas não perdurou muito
— Não ama ou não sabe?
— Não sei responder a sua pergunta. — Se esquivou da pergunta, mas mesmo assim deixou claro o que a mulher queria saber
A moça deu um semi-sorriso que mais foi de tristeza do que qualquer outra coisa. Uma lágrima fugitiva começou a escorrer por seu rosto. Imediatamente passou o dedo de forma leve e delicada para limpar a lágrima que fugira de seus olhos verdes
— Por que fazemos isso? — Perguntou de novo
— Não sei. — Dessa vez a frase saiu tremula, como se o homem lutasse contra algo dentro de si
Silêncio




II
A manhã na taverna estava agitada. Viajantes de todos os lugares, uma festa de cores e bordões em suas elegantes vestes e alguns escudos aqui e ali. Mas o que mais estava presente era o escudo da família Maximilliam de Victorium. Victorium era uma das maiores cidades de Astrus, cheia de cultura e famílias ricas, cavaleiros errantes, donzelas em perigo e uma grande e poderosa milícia
Os Maximilliams são uma das mais poderosas casas de Victorium e de até de toda Astrus. Retem um grande império divido em 3 partes. Sendo eles o império da forja, comandado por Freddie Maximilliam, o ferreiro mais importante de toda Astrus, sendo o ferreiro oficial da realeza. A segunda parte é composta por frotas de navios, os Maximilliams são os melhores em construir navios de batalha, sendo eles os criadores da maior obra prima dos mares de Astrus, os Man’o’wars. E por fim o império vasto de terras em nome da família
Dust se sentava isolado dos outros, sozinho no canto esquerdo da taverna. Mal mexeu nos seus ovos estrelados com queijo. Nem sabia o porquê de ter pedido o prato, não sentia fome. Passou com o garfo nos ovos e mexeu um pouco no queijo. Depois de encarar a comida por um tempo, decidiu comer um pouco do queijo. Cortou-o com o garfo e colocou em sua boca. Mastigou uma, duas vezes. Não sentia fome. Não sentia nada.
Após um tempo parado em frente ao prato, viu o mesmo se mexer. Seu olhar estava vazio, longínquo, e o movimento o alertou. Segurou com força a faca e olhou para cima depressa.
A garçonete se assustou com o movimento súbito do rapaz. Parou com a expressão amedrontada. Olhou o direito e viu seu olhar de alerta se desmanchar num olhar melancólico. Parou e sorriu ao mesmo, pegando o prato
— Sorria! — Disse a doce jovem com um sorriso no rosto
— Sorria? — Falou em tom baixo
A moça apenas respondeu com um som afirmativo e mais um sorriso, logo após saiu da mesa e foi levar o amontoado de pratos para dentro da cozinha
O olhar do rapaz caiu sobre as suas mãos, onde a faca ainda estava. Sentiu uma angústia repentina forçando as mãos. A faca quebrou
— Como eu deveria sorrir? — Falou consigo em tom baixo — Se já não existe sorriso em mim?
A gritaria e as risadas estavam altas na taverna
— Como?
Mas dentro de si não havia nada além do seu velho conhecido
— Co-mo?
O Silêncio

III
Uma pequena borboleta batia contra o vidro da janela, enquanto a luz da lua refletia em suas lindas asas azuis
Os dois estavam da mesma forma da noite passada. Ele sentado numa cadeira enquanto mexia o copo para lá e para cá. Ela sentada na cama enrolada em seu lençol, como se fosse um manto protetor. E o terceiro convidado que sempre estava presente, o silêncio
— Por que fazemos isso? — Falou ela com o mesmo tom triste
— Não sei — Falou ele do mesmo jeito ríspido
Silêncio
— Você o ama? — Dessa vez foi o rapaz que cortou o silêncio, sua voz estava tremula. Ela não conseguiu definir se era por conta da bebida ou por algum outro motivo
— Não. — Disse ela com a voz fraca
— Não o ama ou não sabe? — Parou abruptamente de falar, pois quase fraquejou
— Não sei se o amo. — Diferente dele, ela não se esquivou da pergunta
Achava justo fazer isso e sabia na própria pele o quanto doía essas esquivas
O silêncio foi interrompido pelas suaves e delicadas batidinhas que a borboleta dava no vidro, que tentava sair pela janela que estava fechada. Se cansava, repousava e depois partia em busca da liberdade novamente
O rapaz viu o desespero do animalzinho para sair. Levantou e foi em direção a janela. Em silêncio abriu a janela e deixou a pequenina sair. Ela passou perto de seu rosto, parecia até de certa forma agradecer o ato, mas tinha certeza que era coisa apenas da sua cabeça, era um apenas um pequeno inseto, não tinha inteligência ou gratidão
Ela o viu na janela. A luz caia suavemente sobre seus cabelos, loiros, quase prata. O vento agitava graciosamente suas mexas, seu cabelo não era muito comprido, batia em seus ombros. Seus olhos quase vermelhos brilhavam ao luar, esses olhos carmesins, os grandes responsáveis pelo seu primeiro interesse no rapaz a 5 anos. Admirou o corpo atlético do jovem também, não muito musculoso, mas não muito magro também, com algumas cicatrizes em pontos diversos do corpo. Tudo resultado de seu treino e algumas aventuras, afinal ninguém vira um mestre da lâmina atoa e sem sacrifícios
Era louca por ele, não sabia direito o porquê, mas era. Até seu apelido, quando escutava alguém dizer se arrepiava inteira. “Dust”. Um nome que dava medo aos rivais, um nome que dava tesão para ela. É chamado assim por conta de sua velocidade, dizem algumas pessoas, que sua técnica foi garantida com um tratamento de pó da lua, feito por seu pai quando ainda era um simples bebê. Balelas
— Temos que parar de fazer isso! — Disse ele olhando pela janela para o lado de fora
Ela apenas ficou quieta e se encolheu em seu lençol
— Nós estamos apenas nos ferindo. E aqueles que não sabemos o que sentimos também. — Olhou para o canto escuro onde a cama ficava
Ela apertou os joelhos com as mãos por de baixo do lençol
— Ele é um cara legal. Não merece isso!
Essa frase atravessou seu coração como um raio. Preferia mil vezes o Dust irritado, violento, que gritava e quebrava as paredes dos quartos com socos. Nunca a feriu, mas a mobília sofria os danos. As brigas eram feias, mas sempre acabavam do mesmo jeito. Idaí as outras pessoas? Elas que procurassem melhorar por si só. Preferia uma briga, preferia um grito. Não compaixão. Não isso
— Por que fazemos isso? — Ela começou a chorar após falar
— Não sei; — Ele também
O silêncio dançou ao som do choro dos dois, com soluços e tudo mais. Ele voltou para sua cadeira. Para seu copo
O Copo caiu mais uma vez
Silêncio

IV
— AH POR FAVOR PROCURO O SENHOR “DUST”! POR FAVOR ALGUÉM VIU O SENHOR DUST? — Um senhor gritava a todos pulmões na pracinha agitando seus braços gordos no ar sem parar
As pessoas evitavam o senhor histérico passando ao redor dele, um pequeno círculo se formou em volta dele. Alguns viajantes o observavam, rindo de seus gestos e mais ainda de quem ele chamava
— Mas o que? Dust? — O homem com expressão mais dura olhou de rabo de olho com uma expressão zombeteira para seu colega
— Esse velho está louco? — Falou seu companheiro, um homem mais baixo de cabelos verdes
— Esse cara é uma lenda! Nem existe! — Fechou os olhos e pigarreou com tom irônico
— E mesmo se existisse cara! Porque ele viria para esse fim de mundo?
— Eu gosto dos ovos daqui. — Uma voz em tom sutil cortou a gozação dos dois
A voz veio de traz como um trovão, porém de forma gentil. Os dois olharam para trás e lá viram um homem de no máximo seus 30 anos. Cabelos loiros e olhos vermelhos, assim como nas lendas. Ouviram as histórias do homem que destruiu uma infantaria de Versates inteira, matando desde o capitão até o escudeiro. Coberto de sangue dos pés a cabeça no final
Mas não poderia ser ele, não, não poderia ser de fato. Ele não era grande, não era não. Ele não parecia um demônio como nas histórias. O que a lenda carmesim fazia ali? Não poderia ser, mas era. E eles sentiram o fogo nos olhos cor de carne do rapaz, o olhar que diziam que queimava a alma de seus inimigos
Pararam de rir na hora. Olharam para ele com o olhar baixo. Um deles tentou esboçar uma pequena saudação, mas não conseguiu. Apenas um grunhido estranho saiu do rapaz de cabelo verde
— Por que as caras sérias? Eu gosto de rir. — Parou no meio dos dois e ficou encarando um dos rapazes com um olhar indecifrável. Não era possível distinguir se ele estava irritado ou não. Se estava de bom humor ou se apenas estava testando os limites dos dois
— E-E-Ergh! Aquele ve-velhote lá! Ele ta pro-pro-procurando-o o demônio carmesim! — O homem de expressão dura suava frio enquanto tentava falar
— Você não me parecia gago antes! — Mediu com o olhar o homem
— E-E-E-E-E-E Que-que-QUE... — Se atrapalhou todo ao se explicar
— Tá! Tá! Não precisa mais falar nada. — Enfiou as mãos nos bolsos e passou pelos dois
Os dois suspiraram e sentiram um gelo na espinha. Viram ele parado de costas, olhando por cima do ombro para trás. A expressão fria, os olhos vermelhos, a pose ameaçadora. Era a morte olhando de relance para eles. Era sim
— Experimentem os ovos e saberão o que eu faço por aqui. — Sua frase foi amigável, mas a voz, essa soou como uma marcha fúnebre. Algo que daria medo no pior dos demônios da grande crise
Olhou por mais alguns segundos para os rapazes, depois, perdeu o interesse e voltou-se ao senhor gritando. Quando se afastou, o jovem de cabelo verde desmaiou e o outro de expressão dura tentou segura-lo. O arrastou para dentro e nunca mais saíram de seus quartos. Na verdade, saíram. Mas só depois de terem certeza de que o homem dos olhos cor de carne não se encontrava mais na cidade
O senhor já estava quase sem voz. Afinal gritava desde o início da tarde. Viu um jovem de cabelo claro se aproximar dele. Sorriu para o rapaz e retirou um paninho de seu bolso. Passou o paninho em sua testa e perguntou cordialmente
— Olá jovem homem! Por um acaso do destino conhece, ou sabe a localização do honorável senhor Dust? — Após enxugar a testa, balançou o paninho e o enfiou no bolso de novo
— Sim, meu honorável senhor. Sou eu. — Falou em tom suave
— Oh! Que sorte! Pensei que teria que pagar alguém para me ajudar a encontrar o senhor! — Sorriu e fez um movimento estranho com os pés que Dust jurava ser uma dancinha, não das boas é claro
— Por que me procuras? — Cumprimentou o homem
— É um prazer conhecer o senhor! Mas não devo tomar muito de seu tempo, sei de sua importância e bom aqui está! Uma carta direto do conselho senhor! — Mostrou um envelope para o rapaz, logo em seguida o colocou em sua mão
— Uma carta? — Olhou confuso para o envelope
— Sim, senhor! Envelope de papel de seda! Símbolo do conselho! Nenhuma violação! Tudo em ordem! — Falou exclamando cada vistoria, coisa muito comum para homens em sua casta de trabalho. Afinal qualquer erro poderia sair de seu bolso, ou pior, custar seu emprego.
— Muito obrigado.
— Eu que agradeço senhor Dust, eu que lhe agradeço! — Cumprimentou o rapaz mais uma vez e começou a mexer em sua bolsa, pegou mais um envelope. Leu o destinatário e voltou a gritar — Senhorita Pietra Huffman! PIETRA HUFFMAN!
Dust olhou para o senhor, deu um semi-sorriso e se retirou. Parou em frente a porta da taverna e olhou o envelope, lendo o remetente
— Alexander Sengrim? — Leu pausadamente com um tom de dúvida.

V
Os dois se encaravam. O escuro tomava o local, sendo cortado apenas pela luz da lua que mais uma vez invadia o local. Ele estava lá, sentado na mesma cadeira, girando o seu copo. Ela dessa vez não estava mais na cama, estava sentada na cadeira a sua frente. O encarava com olhos firmes
— Você vai? — Indagou
— Sim.
— Você tem que ir? — Ela recostou as costas na cadeira
— Não.
— Então por que você vai? — Estava brava, porém não tinha vontade de brigar, apenas raiva. Mas não dele, nunca dele. Se detestava por não conseguir odiar o homem a sua frente. Tinha raiva da situação que se encontravam mais uma vez
— E isso faz diferença? — Ele falou de forma seca. Tentava disfarçar a tristeza que continha em seu interior. Desviou o olhar para sua direita
Ela suspirou e se levantou. Vestia uma longa camisola de seda transparente, de tons meio azulados. Sua pele era branca como a neve, o que dava um lindo contraste com seus longos cabelos negros e seus olhos verde esmeralda. Suas orelhas pontudas faziam a combinação perfeita com o seu penteado, mesmo que no momento bagunçado. Sua pele em contato com a lua tomava um leve tom de azulado. Ele amava esse tom de azulado. Ele amava tudo nessa Elfa da lua
— Por que fazemos isso? — Falou ela, olhando pela janela
— Não sei. Realmente não sei a maldita razão. — Sorveu um gole de seu Whisky amado
Ela o olhou com ternura. Porém o olhar terno em poucos instantes se tornou vazio, triste e deu o tom das primeiras lágrimas
— Quando volta? — Falou já começando a chorar
— Não volto. — Começou a chorar também
Os dois ficaram entre soluços e pequenos gemidos. Cada um no seu canto. Cada um no seu mundo. Cada um na sua amargura.
Após alguns minutos ele tenta parar de chorar e diz
— Você não deveria estar com ele?
— Deveria. — A pergunta acertou-a como um dos golpes mais precisos desferidos pelo rapaz, mesmo que sem querer

A resposta veio simples, porém forte e direta. Sabiam que estavam na mesma situação de 8 meses atrás. O que mudava era apenas os outros e a cidade
— Por que fazemos isso?
— Não sei Sebastian. Não sei.
A elfa vai em direção a cama. Se senta e se enrola com o lençol. Ele já tinha visto essa cena tantas vezes. Nessa semana já foram 4 vezes. Em seu tempo juntos, nem saberia a estimativa do número de vezes que viu tal cena
— Temos que parar com isso! — Ao acabar a frase, a linda elfa se entrega a tristeza e volta a chorar
— Já falamos isso Megara. Tantas vezes... Tantas...
O copo cai novamente
Silêncio

VI
Um pequeno mosquito andava por cima da mesa de madeira. Uma mesa grande e cheia de papéis espalhados por todos os cantos. Cartas, alguns mapas e um símbolo de madeira que repousava ao lado de uma garrafa de vinho azul, do lado de um candelabro
O Pequeno mosquito chamou a atenção dela, tanto que logo que o viu sorriu. Se aproximou gentilmente da mesa e encostou com a mão no papel onde o pequeno inseto se encontrava. Ele se assustou. Voou. Os olhos dela olharam a trajetória do mosquito com carinho, e no fundo, bem lá no fundo, um tanto de inveja. Afinal, quem não sonhara em ser livre? Voar para onde quiser. Simplesmente bater suas asas e voar para longe dos problemas. Mas não podia. Simplesmente não podia
O mosquito voou para fora da tenda onde ela estava, uma grande e chique tenda militar. Um grande brasão da família Maximilliam mostrava imponente o símbolo a se respeitar. Ao passar os olhos para o símbolo sorriu. Mas não de felicidade. Não mesmo
— Ele nunca se mostraria assim. — Falou consigo mesma, em tom baixo. Sua voz carregada passou muito do que sentia no momento. Mas não havia ninguém para ouvi-la
Ficou observando os mapas na mesa de guerra. Era assim que os comandantes chamavam aquilo, aprendeu isso tudo com Dust. Bom quase tudo. Muito do que sabia não fora aprendido com ele
Ouviu passos do lado de fora da barraca, fortes, imponentes e firmes. Sabia quem vinha ao seu encontro. Sorriu
Um homem de cabelos loiros quase prata entrou no recinto. Cabelos curtos. Pele clara como a neve e seus característicos olhos azuis. Uma pinta em cima da sobrancelha esquerda e uma expressão solene. Um porte atlético e bem postado. Um Maximilliam perfeito
Ele adentrou o recinto. A olhou. Seus olhos magicamente se encontraram como numa dança, intima e ritmada. Abriu um semi-sorriso e com sua voz encorpada falou
— Megara! — Se aproximou, ajoelhou-se e beijou a mão da dama
— Daren! — Corou ao sentir os lábios do homem
Daren ainda ajoelhado olhou para a elfa. Seu coração pulsou forte, mas ele não cedeu. Nunca o faria. Era um general. Um muito respeitado por sinal. Sabia como controlar suas emoções
— Levante-se seu bobo, não vai ficar aí ajoelhado, não é? — Falou sem jeito
— Isso depende de você! — Sorriu galantemente para a Elfa
Ela fez um sinal com a mão e o rapaz se levantou. Ele a olhou mais uma vez. Passou a mão nas pernas da moça. Ela corou e soltou um risinho. Porém a expressão galante se foi, e uma indecifrável tomou conta de si. Olhou fundo nos olhos dela. Ela percebeu o que se passava. Ele abaixou o olhar e o fixou num dos mapas que estavam na mesa de guerra
— Onde estava? — Falou com a voz neutra e controlada
Ela não respondeu
— Ele está aqui? Ouvi boatos; E você some toda santa noite
Ela abaixou o olhar com tristeza
— Que droga Megara! — Deu um pequeno soco na mesa de guerra, sem desviar o olhar — Por que faz isso comigo?
Uma lágrima começou a escorrer dos lindos olhos esmeraldas dela
— Eu não mereço isso! Não mereço! Sou piada para os soldados, sou piada para minha família! — Olhou para ela, seus olhos queimavam em raiva
Ela tentou por sua delicada mão direita sobre o ombro do jovem homem. Ele com um pequeno movimento não permitiu
— Eu não suporto mais olhar para ele. Você sabe o que é isso Megara? — Mais um pequeno soco
O silêncio deu as caras mais uma vez. Dessa vez dançava com um casal novo. Ele olhou para ela novamente, seus olhos não queimavam mais na fúria, e sim mergulharam na tristeza
— Meu irmão! Eu não consigo mais olhar para o meu próprio irmão, Megara! Aquele que eu jurei proteger quando nascera! — Seus olhos enchem de lágrimas. Mas ele não se entrega. Ele não faria isso. Nunca
Ela já era diferente. Chorava. Em silêncio como de costume. Mas se afogava no arrependimento de suas ações. Memórias. Tudo
Eles ficaram assim por alguns minutos, até que ele se recompôs. Ajeitou as suas vestes. Pegou gentilmente um dos mapas e fez algumas marcações. Aqui e ali. Pegou a cera e usou seu símbolo para selar, o que seja aquilo que estava fazendo
— Você tem até amanhã para escolher.
Ele se vira sem falar nada e sai da tenda. Ela ficou. Sozinha. De novo

VII
Ela estava lá mais uma vez sentada, acuada e chorosa, no canto da cama coberta com o lençol. Agarrava um bichinho de pelúcia. Presente de Dust no verão passado. Amava aquele bichinho. Afinal como poderia ser diferente? Ele a protegeu tantas vezes. Da escuridão. Da dor. Da solidão. Das Dúvidas
— Como meu irmão está? — Ele estava lá, como todas as noites. Sentado na cadeira com seu tão odiado copo
Ela não respondeu. Ele deu um semi-sorriso. Não de felicidade
Ele bufou. Soltou seus cabelos e se levantou olhando fixamente para ela. Ela o olhou e seus olhos conversaram por um instante. Não falaram nada. Nem precisava, eles sabiam se ler. Ela engatinhou pela cama. Ele foi até ela. Um beijo. Um abraço. Outro beijo. Roupas caindo. O lençol sendo jogado de lado. Beijos. Arranhões. Sexo. Amor. Tudo
Após acabarem sorriram um para o outro. Suas mãos dadas. Era o verão passado de novo? Bem que poderia ser. O Desfecho foi o mesmo
Os sorrisos foram dando adeus. O vazio e a tristeza apareceram. As lágrimas. Ele primeiro. Ela logo em seguida. Ele se levantou
— Por que fazemos isso? — Perguntou ela
— Não sei. — Falou ele com a voz chorosa
— Por que você vai embora? — Os olhos dela começaram a se mergulhar na raiva
— Por que você me tortura? Por que diz que me ama quando ama o meu irmão também? — Ele ficou de costas para ela, olhava o nada apoiado na parede — Por que você diz que quer ficar comigo e depois diz que quer ele? Por que Megara?
— Por que você tenta me apagar de sua memória com qualquer uma e Whisky? — Falou puramente por raiva. Ficou brava pelas perguntas que ele fez. Aquilo ofendeu ela da pior maneira possível
— Por que você me faz tão bem? — Ele se mantinha com a mesma entonação de voz, e no mesmo lugar. A mesma pose mórbida
Os olhos dela aliviaram um pouco da fúria
— E por que você me faz tão mal? — Completou ele
Ela não se aguentou. Sua expressão voltou a queimar de raiva. Pegou seu bichinho de pelúcia e arremessou nele. O bichinho bateu em suas costas. E caiu como se fosse nada no chão
— EU TE ODEIO! — Gritou furiosa
Ele ficou parado sem falar nada. O silêncio parecia consolar ele. Se tivesse forma estaria abraçando-o
— Eu queria poder te dizer isso! — Finalmente falou depois de mais um minuto de silêncio
Ela saiu rapidamente da raiva e caiu num poço profundo de tristeza
— Quem sabe agora não se torne realidade? Espero que você e Daren sejam felizes! — Olhou para ela e seus olhos cor de carne pareciam mortos. Totalmente sem vida
Ela se jogou na cama chorando. Os olhos começaram a doer por conta da força que fazia ao chorar
— Adeus, Megara! — Ele pegou suas coisas e abriu a porta
Ela se levantou imediatamente. O desespero tomou conta de seu ser. Precisava pará-lo, precisava a todo custo. Mas não foi rápida o suficiente. Ele saiu e fechou a porta. Ela bateu com as mãozinhas delicadas na porta. Perdeu aquilo que mais temia. Ou será que não? Não sabia ao certo. Passaram por isso tantas vezes que já perdera a conta
Chorando encosta suas costas na porta e deixa o corpo cair. Do lado de fora o rapaz ainda sem camisa faz o mesmo movimento. Como se numa brincadeira doentia e sincronizada do destino. Os dois pareciam marionetes sendo controladas pela mesma pessoa. Sincronia perfeita. Tanto nos movimentos como nos sentimentos
— Eu te amo. — Os dois falam a frase juntos, baixo. Sem chance alguma de perceberem que falavam aquilo um para o outro. No mesmo tempo. Do mesmo jeito. Com a mesma emoção. A mesma dor
Depois disso só sobrou um companheiro para cada nessa noite. Na verdade, era o mesmo
O silêncio



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