Dente e Garra

arte por: WahyaMiakoda
Era maio. Uma noite de céu claro e com belas estrelas no pacato bairro da Gardênia Azul. O bairro era cercado por várias comunidades de favelas e ficava nas beiradas da Avenida Ayrton Senna, no Rio de Janeiro. Já passava da meia noite, e havia relativamente pouca atividade nas ruas. 

As ruas da Gardênia tinham dois nomes: O primeiro grupo era mais recente e sistemático, que se baseava em letras do abecedário da letra A até a I (por exceção da Rua Menta, que era também conhecida como Rua Principal). O segundo grupo era de nomes indígenas, baseados em antigas tribos que já habitaram a região.

Pelas ruelas do bairro, uma viatura de polícia transitava lentamente. Nela, dois policiais devidamente fardados faziam sua ronda. O que estava no banco do motorista estava dirigindo tranquilamente. Seu semblante, tal qual o do seu colega, era cansado, e sua barba estava por fazer. O que estava no banco do carona estava preparando o seu fuzil. O rádio estava desligado e ambas as janelas dos assentos da frente estavam abaixadas.

— Que merda, cara... Eu só queria ir pro bar do Scothe agora. – Comentou soturnamente o praça no banco do carona.

— Tarado do caralho. Tá tão na seca assim que você ta precisando de uma puta? Porra...

— Porra o quê? Mulher é mulher, fiel. Tô nem aí se eu pago ou não pra comer uma xereca hoje: Negócio é meter. Tô há quatro meses, mano. QUATRO. Sabe o que é QUATRO MESES sem foder? É uma afronta, cara! Um escândalo!

O praça guiando o carro soltou uma gargalhada sonora. Ele então girou o volante e entrou na Via Sete, que dava diretamente para a Av. Ayrton Senna. Seguiram em linha reta na contra mão da via. A longa rua estava parcialmente deserta, tendo um ou outro carro estacionado na beirada da calçada, além do seu atleta esporádico correndo durante a noite.

— Afronta, caralho... Tu me mata de rir, Válter, na moral! – por fim, comentou o policial no volante. Válter, que estava no banco do carona, também estava rindo alegremente com seu colega. Ele relaxou a mão do fuzil e deu uma fungada. — Eu sei que você me ama, viado! Hahaha!

— Seu cu que eu amo! Hahahaha!

Quatro minutos se passaram, e já na beirada da Av. Ayrton Senna, a viatura com os dois policiais virou à esquerda e parou ao lado da banca de jornal. À frente da banca, havia uma barraquinha de cachorros quentes, com os atendentes e outros clientes no local levemente deserto. Um ou outro carro passavam naquela mão da grande avenida, indo no sentido da Linha Amarela e Freguesia, com outros pouquíssimos indos na direção oposta, que ia para a Barra da Tijuca. A grande passarela amarelada que ia desde a entrada da Gardênia Azul até a porta de uma escola do outro lado da grande lagoa estava completamente vazia. Não parecia ao olho nu, mas a grande passarela dava leves sacolejos por conta da força do vento, o que tornava assustador o pensamento de atravessar a dita cuja.

Sons de conversa alta podiam ser ouvidas pelos praças. Eram duas vozes afoitas, pareciam discutir ferrenhamente sobre algo. Os soldados notaram a confusão, e logo desviaram sua atenção para o lugar à sua esquerda: Era um posto de gasolina. De porte médio, com apenas um carro parado aos postes abastecendo – Um SUV prateado. Bem novo, somente com um leve amassado na lateral da lataria. Válter pôs seu fuzil para trás apoiado pela alça e foi até a dita confusão. Ao chegar ao posto, à porta do lava-jato, estavam duas pessoas: Um deles era um homem alto, de descendência asiática e óculos. Barba malfeita, marcas de expressão pesadas e olheiras profundas, indicando que o moribundo não dormia direito. O cabelo era raspado, e as roupas eram a camisa e calção com o logotipo da empresa do posto – um funcionário do lugar. O outro membro da confusão era branco, de altura média, magro, sem camisa, bermuda jeans com as cuecas levantadas acima da altura da cintura. O traço mais marcante do elemento era que em contraste com sua pele alva marcada por pintas negras, tinha enormes e possantes dreadlocks tão negros quanto o céu noturno.

Válter caminhou em direção aos dois. Ambos estavam bem enervados, discutindo ferrenhamente. Os outros funcionários do posto estavam dentro da lojinha de conveniências, que também servia de fast food. Estavam todos observando a confusão. A maior parte eram mulheres entre seus vinte a quarenta anos, e todas estavam assustadas.

— SERÁ QUE VOCÊ É SURDO, PORRA? PASSA LOGO A PORRA DA CARTEIRA, CARALHO! – Gritava o jovem dos dreads. Estava em uma tentativa de assalto, pondo sua mão sugestivamente na cintura, como se tivesse uma arma escondida. O atendente se manteve impassível, mas visivelmente já estava sem paciência.

— Escuta aqui, ô seu vagabundozinho de merda! Eu não vou te dar porra de carteira nenhuma, e para de pôr a mão na cintura como se tivesse uma arma, pois eu sei que tu não tem! Para de me atazanar que tô sem paciência! Me deixa trabalhar!

O jovem estava perturbado. Perdeu a razão e avançou encima do funcionário. Desferiu um soco direto na maçã do rosto. A surpresa do ataque fez com que o atendente caísse mais de espanto do que pela força do golpe. O jovem pulou encima do atendente, e começou a desferir vários socos no rosto. O atendente, por sua vez estava se debatendo, tentando de todas as formas reagir ao assalto, mas ele não precisava: Válter estava lá, e ele ouviu tudo.

Válter se aproximou rapidamente por trás do jovem de dreads e o puxou pelos cabelos que mais pareciam cordas. O puxão foi muito forte, e suspendeu o corpo do agressor em um ângulo de cinquenta graus na direção de Válter. No momento em que ele viu o corpo do meliante criar o ângulo com o chão, ele passou a perna por trás das do agressor. Então soltou sua mão das madeixas secas e duras, fazendo com que o rapaz caísse encima de sua nuca contra o duro e frio chão de concreto. Válter então deu um possante chute na base do maxilar do meliante. O solado do coturno encaixou perfeitamente, fazendo que o jovem desmaiasse na hora. O praça então o virou de costas e pôs seus braços por de trás das costas, cruzando seus punhos, e por fim os algemando.

— O senhor está bem? – Disse Válter, dando sua mão para levantar a vítima. Ela estava atordoada, mas acima de tudo, furiosa. O atendente começou a avançar em direção ao moleque algemado de bruços no chão, gritando várias ofensas e maldições típicas de alguém cansado e estressado com sua rotina desgastante de trabalho, mas fora logo contido pelo soldado.

— Tá tudo bem, agora, fiel. Pode ficar tranquilo que o babaca vai dormir dentro do camburão da viatura e amanhecer numa delegacia.

— Eu quero enfiar minha mão na cara desse maconheirozinho de merda!! Filho da puta, desgraçado! Esse idiota sempre vem aqui todas as noites e tenta a mesma ladainha, e vocês policiais não vem fazer porra nenhuma! E se nesse meio tempo ele machucasse alguém aqui?! Já pensou nisso, oficial? – Disse o atendente de descendência asiática, que obviamente estava perturbado demais com o ocorrido.

— Calma, civil, calma. Olha, eu não posso responder pelos meus colegas que estavam aqui antes de mim. Somos todos membros da mesma corporação, mas nós ainda somos indivíduos aqui. Se o oficial de polícia não veio fazer nada antes de mim e do meu parceiro virmos render eles na vigília, eu sinto muito pelo ocorrido e peço desculpas em nome da corporação, tudo bem?

— O inferno tá cheio de “desculpas”, cara. Eu quero saber se vai haver alguma espécie de reparação da polícia por causa do descaso que a maior parte dos oficiais que chegam. RARAS VEZES, repito: RARAS VEZES eu vejo vocês fazendo qualquer outra porra que não seja ficar plantados na frente da avenida, como se fossem dois coqueiros! – Ao terminar de dizer estas palavras, as pessoas dentro da lojinha começaram a sair timidamente. Não demorou a que ouvissem a discussão agora entre o atendente e Válter, e como já parecia ser uma condição sine-qua-non, começaram a gritar em concordância com o atendente. Mas para o deleite do praça, também ouvia-se vozes enaltecendo e o elogiando por seu trabalho. Válter tinha de terminar isso logo e sem ferir ninguém.

— Calma amigo. Vamos lá: ‘Cê tem o nome dos oficiais que estavam aqui antes de nós? Sabe de qual batalhão eram? – Válter perguntara com educação e em tom ameno. O atendente que estava bem exaltado foi pego de surpresa. Ele esperava que por ter levantado a voz contra um oficial de polícia, iria sofrer repressão violenta, mas isso não aconteceu. Ele ficou em silêncio, procurando em seus pensamentos um nome ou batalhão, mas...

—... Não, eu não sei os nomes nem os batalhões. – Por fim, concluiu o atendente.

— Aí fica complicado, cara. Sem isso não dá pra encaminhar uma reclamação formal à secretaria do Delegado. – Concluiu Válter.

— Mas isso não significa que eu não possa fazer no futuro! Qual o seu nome e o seu batalhão então, amigo?

Criou-se um clima por causa desta pergunta. A maior parte das meninas que trabalhavam no fast food já se preparava para algum tipo de resposta grossa, mas de novo, Válter surpreendeu a todos. O praça juntou os pés e bateu continência, e logo depois entrou em pose de sentido.

— Cabo Válter Pereira de Lamarca Silveira do 19º batalhão da Polícia. E o rapaz bonito que me acompanha lá na viatura ali do lado da banca de jornal é o Cabo Washington Domingues Pablo e Silva, também do 19º. Vamos ficar estacionados naquele ponto por alguns minutos ainda, antes de prosseguir patrulha Gardênia adentro. Qualquer coisa que acontecer vocês não hesitem em vir até nós e falar, beleza? – Conclui Válter. O atendente estava com uma expressão neutra. Estava visualmente confuso. Um oficial de polícia que não fosse abusivo e não chegava usando sua arma logo de início? Parecia coisa de filme. Coisa de novela. Mas era a realidade.

Dito isso, Válter apertou a mão do atendente e retornou pro seu posto com o meliante. Ao sair, Válter conseguiu ouvir uma leve salva de palmas e elogios vinda por parte das meninas do fast food. Não era comum, mas também não era raro os policiais do Rio de Janeiro receberem elogios e palmas da população. Válter retornou para o seu colega, Washington, com uma pequena sensação de dever cumprido. E de fato, o fizera.

— Eita, o que deu lá pra receber uma salva de palmas? E o que esse mané aí fez? Assalto? – Perguntou Washington, que estava do lado do banco do motorista.

— Sim. E bem, só tava dando um sossega leão na vítima. Tava exaltado o cara, já preparado pra saltar na minha garganta. – Concluiu Válter, que estava posicionando o elemento de dreads desacordado. — Me dá uma ajuda para pôr esse pedaço de estrume no camburão, Washington.

— Ah, sim. Vamo lá... – Dito isso, ambos puseram o meliante no camburão, em posição fetal, deitado de lado. Fechando o camburão, ambos os praças ficaram um de cada lado da viatura depois, e Válter contou todo o ocorrido pro seu parceiro e colega.



Passaram-se alguns minutos. Válter e Washington estavam parados cada um de um lado da viatura, acima da calçada, vigiando toda a área da avenida, da passarela e também dos arredores.

— Não gosto muito de usar arma de fogo, na real – Disse Válter, em tom pesaroso — São barulhentas, desajeitadas e acima de tudo: elas dão confiança pra gente merda fazer merda.

— É um dos únicos policiais que eu conheço que detesta pôr a mão num ferro. Tem certeza que você tá na carreira certa?

— Olha, isso vai parecer bizarro o que eu vou falar, mas até que pagam bem, e... – Seu colega o interrompeu com uma risada sarcástica.

— HAHAHAHAHAHAHAHA! Engraçadérrimo essa! Soldado de Polícia ganhando BEM! Tu tem noção de que a gente não recebe nem se quer a metade que deveríamos só pelo fato de pormos o nosso na reta toda vez que saímos nas ruas, e ainda por cima somos taxados de assassinos e coisa pior pela maior parte da população, né? Só por curiosidade, Válter: Antes de tu passar no concurso, o que ‘cê fazia da vida? – Válter deu uma olhadela torta e atravessada para seu colega. Se tinha uma coisa que ele detestava de verdade era ser rudemente interrompido enquanto falava. Washington deu-lhe um sorriso nervoso.

— Era Auxiliar Administrativo. Mas fui demitido. – Respondeu Válter, seco.

— Wow. Só por curiosidade: O que você fez? – Perguntou Washington, estando ao lado da porta do motorista na viatura. Válter deu um suspiro grande, bocejou e por fim começou a falar.

— Discuti com uma garota lá. Eu mesmo dei corda pra me enforcar: Perdi a cabeça e falei que sentia vontade de arrastar a cara dela no asfalto de Bangu em plena tarde de verão.

Washington olhou para o seu parceiro com uma feição mista de horror e espanto. — Caralho, cruel. Se ainda fosse no asfalto de Nova Friburgo não teriam te demitido.

Os dois praças tiveram um acesso de riso frenético. Válter então comentou com seu colega.

— Porra, Washington! Só tu mesmo pra me fazer rir dessa forma no meio da patrulha!

Washington era bem mais novo que Válter, mas ambos ingressaram na corporação juntos, sendo colegas de treino desde que se conheceram na Academia. Era um rapaz no final dos seus vinte anos, de cabelo baixo, em corte militar, pele negra e feições muito joviais. Seu traço mais notável em seu rosto era sua cicatriz na parte inferior do seu rosto, que ia desde o lábio superior até a base do maxilar no hemisfério esquerdo. A cicatriz era fina e curvilínea, desenhando um “C” invertido. O jovem policial então continuou com o papo.

— Mas o que ela fez? Te conheço a pouco tempo, mas tenho certeza que não é um homem violento, e muito menos um machistinha.

Válter se recompôs. Ele continuou encarando a avenida semi-deserta.

— Nada que eu me lembre, na verdade. Não parece, mas eu sempre fui esquentadinho, sabe? Eu já não ia com a cara da menina, e somou isso a umas besteiras que eu a ouvi dizer e pronto: acabei falando o que eu pensava em voz alta. Ela falou com os nossos patrões e não deu outra: Uma semana depois eu tava na rua.

— Besteiras? – Perguntou o jovem Washington.

— Coisas do tipo que bandido bom é bandido morto. Que grafiteiro tinha que apanhar e por aí vai, e eu fui ouvindo e ouvindo até que chegou ao ponto que me encheu o saco!

— Wow. Que merda, eim, cara? E que merda de pessoa.

— Ela era um porre. Eu gostava de lá. Mas por mais que possa parecer o contrário, não guardo rancores. – Concluiu Válter.

— Muito nobre de você. Se fosse eu, teria tirado satisfações com os patrões. – Respondeu Washington.

— A troco de quê, cara? Ela podia ser babaca, mas acho que é bem assustador você ouvir de um cara que pesa duas vezes o seu peso e que fica sentado atrás de você que ele sente vontade de arrastar seu rosto no asfalto, né não? E isso não é algo que você deva levar na brincadeira. Eu que errei por não saber filtrar ali, e acabei perdendo a cabeça. Faltou maturidade, tá ligado? Mas isso a vida ensina de um jeito ou de outro. Hoje em dia, eu sou um mestre da arte de lascar o foda-se pra essas coisas. – Finalizou Válter, que enquanto conversava, nunca desviava a atenção da avenida e de seus arredores.

Passaram-se trinta minutos. E o lugar ficou cada vez mais deserto. A barraca de cachorros quente fechou, e os dois atendentes carregavam sua Van com engradados cheios de salsichas, linguiças, pães e condimentos variados. A frequência que carros passavam pela via que ambos os praças supervisionavam diminuiu. E então, aconteceu:

BANG!

Um tiro. Vindo de longe. Ambos ouviram. E então mais três.

BANG! BANG! BANG!

Imediatamente ambos entraram na viatura e rumaram na direção dos tiros. Vinham de dentro da própria Gardênia Azul, mas na direção aos fundos do Shopping DownCity que ficava exatamente ao lado do bairro. A viatura então fez a volta e entrou na via mais colada com o shopping. Seguiram em linha reta, Washington dirigindo com sua pistola já pronta e Válter preparando o seu fuzil.

Chegaram. A porta lateral estava aberta. Duas portas de ferro e alumínio enormes completamente escancaradas. Válter checou as trancas das duas portas. As travas estavam completamente destruídas, e o alumínio da porta estava completamente amassado, como se alguém tivesse dado um soco muito forte ali. As marcas de amassados se estendiam por outras sessões das duas portas.

— Washington, vai pra viatura e chama por reforço.

— Quê, cara? A gente nem sabe quem ou o que fez isso!

— É por isso mesmo, porra. Olha as marcas de amassado nas duas portas. Dá pra ver as marcas de punho amassando o metal. Principalmente: Olha o tamanho dos punhos! Ou o cara que fez isso é bodybuilder e toca piano, ou alguma outra coisa tão grande quanto um gorila fez isso! Acha que nós dois dá conta? Porra nenhuma. Chama reforço. AGORA!

Washington engoliu em seco. De fato, as marcas de amassado eram enormes, e pareciam que alguém muito grande tinha esmurrado aquelas portas. Ele então voltou pra viatura e sacou o rádio, no qual ele começou a solicitar reforços da delegacia.

Outros tiros foram ouvidos, e então um grito. Era agudo e estridente, como o som de unhas em atrito com uma lousa, e muito, muito alto. De modo que poderia facilmente fazer alguém de audição sensível surtar com a altura do som.

— Washington, não sai da viatura! Eu vou entrar e fazer reconhecimento.

— Val, não faz isso! Válter! VÁLTER!! – gritou Washington em plenos pulmões, enquanto via seu parceiro e amigo adentrando a zona perigosa. Washington praguejou — AHHHH, VAMO NESSA!! – Ele disse por fim, correndo atrás de seu amigo.

Válter adentrou o perímetro dos fundos do shopping a céu aberto. O som de tiros estava ficando mais alto e mais frenético, indicando que os tiros estavam cada vez mais próximos. Válter estava agachado e andando com o rifle a postos. Ele passou por um, dois galpões que estavam fechados. Três, quatro, agora já podia se ouvir mais do grito agudo. Junto do grito, um berro gutural. Era grosso, bestial, como se estivesse vindo de um grande animal – E de fato, estava.

Válter viu o impossível:

Duas criaturas bizarras - Uma delas era quadrúpede, peluda, de aspecto lupino, mas também humanoide. O pelo ficava mais grosso na região do pescoço e da cabeça, mas na maior parte do corpo forte e viril, a pelugem era bem rala. Os caninos longos e arqueados como sabres saltavam da bocarra do monstro, que eram separados por pequenos intervalos. O rosto era levemente mais alongado que o normal, com o nariz e a região da boca formando algo que lembrava um focinho de cachorro, e as orelhas eram tal qual as de um cão boxer. Suas mãos, ou patas dianteiras, eram enormes. Pouco maiores que uma cabeça de um humano adulto. E das pontas de seus dedos, saltavam garras, do tamanho da ponta de um dedo humano. O braço continha algumas tatuagens, que pareciam ideogramas estranhos visto de longe. Brilhavam em vermelho e amarelo, tendo um meio tom alaranjado. Usava o que parecia ser na parte inferior uma calça social preta, completamente rasgada.

A criatura opositora era de aspecto humanoide, lembrando uma mulher de corpo translúcido. Seu rosto era completamente desfigurado, não tendo o maxilar, e com sua língua longa saltando de sua boca, orbitando erroneamente ao redor de seu corpo. Cabelos longos e absurdamente lisos e negros, flutuando em pleno ar. Seus olhos eram fundos e desgastados, já não tendo órbitas oculares, e tendo apenas um brilho etéreo, tal qual os dos faróis de um carro, em seu lugar. As mãos eram normais, por exceção de seus dedos que eram alongados por demais, deixando o restante dos braços atrofiados. Não havia sinal de pernas, tendo a metade de baixo coberto por camadas e mais camadas de um vestido branco sujo de poeira e outras coisas, como manchas amarronzadas, indicando talvez, possivelmente, sangue.

Em uma das mãos do lupino, havia um revolver de cano longo. Era gigante, feito de ferro e couro preto. A arma era linda, sendo brilhante e cromada. Na cintura do monstro, também havia um cinturão com um grupamento de alforjes e um coldre. O revolver também pulsava com as luzes pulsantes no punho da criatura. A fera estava com o tambor de seu revolver aberto, pondo mais balas, enquanto que o monstro translúcido flutuava a sua frente, aparentemente, se “formando”.

— Meu bom Jesus... Que porra é essa?! – Comentou Válter, aos sussurros, completamente atordoado pela visão à sua frente. Passos apressados vinham por de trás do policial. Ele se virou de supetão, e deu-se de cara com Washington, que veio correndo. Válter o agarrou com o braço esquerdo e o puxou para perto de si. Ambos estavam agachados se escondendo atrás de uma parede de um dos galpões.

— Ei, ei, ei, ei! Que porra é essa, caralho?! Eu achei que tinha mandado você AGUARDAR NA PORRA DA VIATURA! – Exclamou Válter, aos cochichos.

— Vai tomar nesse teu cu, Val! Tu sai assim na frente, indo em direção na porra de um tirotei...o. – Washington mudou o semblante de preocupado para completamente amedrontado. Sua pele negra empalideceu quase que imediatamente. Válter notou a súbita mudança de tom e faceta. O policial se virou para trás devagar, e lá ele viu:

Um rosto translúcido, deformado e ressecado, sem o maxilar, saindo pela metade da parede com a língua saindo da mesma parede, flutuando. Válter saltou pra traz com o medo e apontou seu fuzil em direção ao rosto da criatura.

Apertou.

Válter soltou uma saraivada de tiros em direção ao monstro. Washington apontou a sua Glock e descarregou as balas, gritando a plenos pulmões de terror. Os sons das balas saindo das armas se ritmaram, junto com o som dos projéteis rechaçando-se contra a parede de concreto. Válter estava se arrastando no chão, lentamente, se afastando da criatura, enquanto que esta estava ameaçadoramente se aproximando da dupla. Muitos dos tiros ricochetearam, e era só uma questão de tempo para que acertassem um dos dois.

— POR DEUS, O QUE É ESSA COISA?! – Gritou Washington.

— CONTINUE ATIRANDO. NÃO PARE! – Retrucou Válter, enquanto se levantava e se recompunha.

Os esforços da dupla eram bons, mas fúteis. Todas as balas alvejavam, mas era como se o corpo a frente deles não passasse de um holograma muito bem feito. O corpo sofria uma leve deformação, como se uma gota de água caísse em uma poça, criando ondulações na forma. O monstro então começou a emitir um guinchado - Era uma voz de mulher, mas rouca, como se estivesse tentando falar enquanto estava sendo esganada.



O som de tiros parou, dando espaço para estalos.

Armas descarregadas.



Válter largou o rifle, que ficou pendurado em seu flanco por conta da alça. Tentava sacar sua pistola, mas tudo o que acontecia era tão bizarro que se atrapalhou várias vezes na hora de tirar a arma do próprio coldre, mas por fim, conseguiu.

Porém, não conseguiu atirar.

Washington o agarrou pelo braço e imediatamente o puxou em sua direção. Ambos correram com toda a rapidez que se dispunham na direção da viatura.

Mas por algum estranho motivo, as portas que estavam escancaradas se fecharam sozinhas. Os dois estavam trancados lá.

A entidade os estava rondando. Uma estranha atmosfera bizarra se criou no shopping. Uma névoa, tão densa que se pensava poder tocá-la, se formou. Ambos os policiais estavam sentindo seus sentidos falhando: Visão turva, ouvidos zumbindo, dormência nas pernas e na coluna. Washington tombou primeiro, e caiu de bruços no chão. Seu corpo dava pequenos espasmos musculares, como se estivesse prestes a ter uma convulsão. Válter concentrou suas últimas energias, e entrando no caminho entre a criatura disforme e seu companheiro, o policial armou a postura e apontou sua pistola.

Um, dois tiros. Ambos alvejaram, mas não machucaram.

Três, quatro tiros sucessivos e certeiros na cabeça e no tronco. Todos atravessaram provocando apenas ondulações na criatura.

Ela estava mais perto.

Válter caiu de joelhos. Seus braços e cabeça estavam muito pesados, como se ele estivesse absurdamente fadigado depois de três dias inteiros apenas correndo. Seus ouvidos zumbiam com uma força inacreditável, quase como se tivessem explodido uma bomba bem ao lado de suas orelhas. Seu nariz já não estava captando mais cheiro, e sua língua já não detectava sabores.

Era questão de tempo para que Válter também tombasse. Já não enxergava. E sua mente parecia estar reavivando suas memórias mais recentes: A despedida de solteiro de um amigo. Um adeus a outra amiga, que fora pra outro país. A primeira palavra de seu sobrinho. Mas logo, essas imagens também se desfizeram em sua mente. E então, só havia uma única coisa:





Escuridão.



E então, um grito de dor. Um tiro bem alto. E o som de carne e ossos podres caindo ao chão, seguido do som de vidro sendo partido subitamente.

Válter estava muito fraco para se mexer, mas sentia que a criatura, de alguma forma, fora ferida. E aos poucos, o seu sentido da audição estava voltando.

A criatura virou de súbito, e encontrou seu atacante:



O lupino misterioso.



A criatura gigantesca estava com seu corpanzil ereto e com o revólver apontado para a visão etérea a sua frente, que agora tinha um misto de luzes neons a circundando. O ombro direito do bicho estava completamente em frangalhos, e seu braço caiu ao chão, se transformando em cacos de vidro luminosos.

Nos antebraços e ao longo do revolver da criatura estavam os ideogramas. Pareciam ser letras gregas, e brilhavam agora em uma intensa luz dourada. O monstro translúcido deu um grito furioso e estridente, e ferozmente avançou sobre a criatura peluda.

Três tiros altíssimos ressoaram. Dois erraram, mas um acertou. O som de ossos e vidro se partindo mais uma vez ressoaram pelo local. A costela flutuante do monstro já não mais existia. A força do impacto do tiro contra o impulso da locomoção veloz do monstro o fez girar no sentido da bala, fazendo-a girar em sentido horário e cair de cabeça no chão de paralelepípedos, rolando à sua direita.

A criatura se levantou lentamente, e com um grito agudo e gutural, uma onda de energia brotou da região de seus braços – O braço destruído se regenerou, mas agora, os dedos longos foram encurtados, e suas unhas se transformaram em longas e finas garras negras, do tamanho de facas de cozinha. O outro braço teve o mesmo tipo de mutação.

Mais um tiro. Boom.

A criatura se moveu com rapidez e desviou do tiro.

O monstro peludo sacolejou a cabeça, emitindo um latido, como se estivesse praguejando. Então largou sua arma e avançou contra a entidade.

Ambos os monstros se chocaram um contra o outro. Rolavam pelo chão, trocando golpes simultâneos, e muitas vezes, talhando postes, latas de lixo e as paredes dos galpões de lojas no caminho. O som de gritos e latidos furiosos podia ser ouvido por Válter, que estava aos poucos recobrando sua consciência no chão. Seus pensamentos agora se resumiam em sobreviver, e salvar seu parceiro, que jazia desmaiado ao seu lado.

Os olhos do policial já conseguiam discernir imagens novamente. Eram embaçadas, mas lentamente ficando mais nítidas, e a visão a sua frente era digna de um filme de horror:

Dois monstros esquisitos, em um ambiente que muito lembrava uma visão surrealista do shopping que estavam. O mundo todo parecia estar com as cores em negativas, e o chão estava repleto de fluídos que mais lembravam um sangue escarlate muito do gosmento. Aquele lugar seja lá o que fosse não tinha calor, e nem frio, e também, não tinha cheiro. A atmosfera esquisita era agradável, mas ao mesmo tempo, incômoda. Algo que seus sentidos nunca estiveram acostumados antes. A cereja no bolo foi que Válter presenciava algo que mais lembrava um urso halterofilista e uma mulher cadavérica lutando ferozmente em um combate bizarro.

Era dente contra garra.

Era monstro contra monstro.

E nesse confronto, eles dois, meros humanos, foram pegos no meio.

O “urso halterofilista” bloqueou o ataque cruzado da mulher com um dos braços. Ele envelopou o membro e trincou suas garras no intervalo entre jugular e trapézio, prendendo-o em uma chave de um braço só. A mulher então tentou usar sua língua como um chicote para afastar a besta à sua frente. No momento em que o músculo saltou do buraco que seria sua garganta exposta, a fera abocanhou em uma única mordida a língua e a puxou. Seus dentes caninos possantes entranharam-se no músculo. A criatura tentou atacar com o braço livre, mas fora imediatamente impedida com o sacolejo dado pela fera peluda.

Com um giro da pata traseira e então do quadril, o monstro jogou sua concorrente translúcida com a cabeça em cheio a uma parede de concreto. A força foi tamanha, que a parede se quebrou com o formato da cabeça do monstro.

Mais um giro, e dessa vez, a cabeça foi de encontro com um poste de luz. O impacto foi violento, ao ponto de arrebentar o dito poste e entortá-lo, fazendo-o vacilar levemente na mesma direção que a mulher veio de encontro com o mesmo, ficando em um ângulo aberto com o chão. O monstro translúcido dava gritos de dor que mais lembravam os choros de uma mulher adulta moribunda. Por final, a grande fera peluda agarrou a criatura pelo pescoço e a projetou violentamente contra o chão – o impacto sendo tão poderoso que o corpo do monstro quicou ao se encontrar – e trincar – o piso de paralelepípedos, que agora estavam totalmente irregulares.

A fera saltou por cima da criatura translúcida, e aos rangidos, seus poderosos caninos roeram a língua do monstro. A criatura peluda fez vários movimentos com a cabeça, e a cada movimento, mais e mais o músculo pútrido se desfazia em meio aos seus dentes. Até que por fim, em um movimento arqueando a cabeça para traz, a língua fora brutalmente arrancada. A mutilação fez um estalo sonoro, como uma língua normalmente estalaria ao falar, mas o som era mais alto. O monstro gritava de dor. Seus berros eram agonizantes de se ouvir, e simplesmente insuportáveis.



Mas a fera não havia terminado ainda.



O braço da criatura peluda esticou. Um estalo, tal qual o de galho seco sendo pisoteado. O braço da criatura fora quebrado bem na região do cotovelo, fazendo que o osso do braço saísse do lugar, tornando possível que o mesmo dobrasse na direção oposta que deveria. O monstro então relaxou sua pata e soltou o braço quebrado da criatura translúcida. Pôs sua pata traseira entre os seios murchos da mulher cadavérica, fazendo pressão contra o chão. Ele arqueou suas costas, e pôs suas patas dianteiras no outro braço da criatura.

Agarrou.



Puxou.

O braço da mulher fora desmembrado com facilidade pela gigante criatura peluda. Os gritos de dor ficaram ainda mais insuportáveis e altos. Chegando ao ponto de arrebentar algumas janelas de vidro do lugar. Válter assistia com atenção a cena de violência e animalidade à sua frente, e ainda não notara que seus ouvidos já estavam sangrando absurdos.

Os gritos de dor eram incessantes, e a fera do tamanho de um urso já começava a demonstrar sinais de vacilação, com seus ouvidos também começando a sangrar. Então com o membro desmembrado de sua oponente, ele firmou a pressão de sua pata dianteira no abdômen da mulher translúcida. Ao fazer isso, ele notou somente o que parecia ser o final da coluna vertebral de sua oponente, sem encontrar nada como tecido, órgãos internos ou até mesmo o princípio de uma pélvis. Ele formou a rígida mão em forma de uma lâmina pontiaguda, usando as pontas das unhas alongadas, transformando o longo, fino e atrofiado membro partido, em uma lança.

Golpeou e estocou.

O golpe acertou em cheio o peito da criatura, na região que seria o coração. Imediatamente, os gritos incessantes, por fim, cessaram. O monstro moribundo lentamente parou de se mexer, para por fim, começar a ficar cada vez mais etéreo e flutuar ao céu, lentamente desaparecendo. A fera sentiu seu pé ir de encontro com a superfície rachada do chão de paralelepípedos. No lugar da criatura translúcida, agora só havia um amontoado de enormes panos brancos e sujos.



Seu algoz foi abatido. A vitória da besta contra a entidade imaterial.

Válter já estava parcialmente recuperado. Washington, porém, estava deitado, de bruços no chão. Não mais parecia estar tendo pequenas convulsões, mas ainda estava desacordado, porém vivo e respirando, com um pouco de sangue saindo de seu nariz e ouvidos.

Válter estava fraco, mas ainda conseguiu se mover em direção ao seu amigo. Ele bem que tentou, mas não conseguiu falar.

A besta agora estava diante de ambos. Válter a encarou nos olhos. Estava fraco demais para sacar sua pistola agora. O suor corria incessante por sua testa e têmporas. Seus dentes estavam trincados, sua respiração acelerada, tal qual seu pulso. Suas pupilas estavam arregaladas com a visão.

A besta estendeu sua pata gigante e pegou ambos os policiais.

Com um salto, ele pulou os portões, e parou do lado de fora, e os deixou sentados de cabeça repousada na lateral de sua viatura. De longe, podiam-se ver os sons de mais viaturas ao longe. Válter encarava a besta. A feição selvagem da criatura agora cedia lugar a uma feição tranquila, mas afiada e penetrante. Seria esse monstro realmente um monstro?

Válter não sabia. Contentava-se em saber que, naquela noite estranha, ele vira algo muito bizarro, e que ele e seu parceiro estavam vivos pra mais um dia de trabalho.

Sua cabeça vacilou, e seu queixo bateu contra eu peito. Ouvira o som de um salto, e de passos bem pesados vindos dos telhados dos casebres a uns quinze metros de distância atrás dele.

Sua consciência se esvaia lentamente, e no fundo, um som lembrando um alto uivado de cachorro, acompanhado de vários outros uivos menos barulhentos.

Estava cansado.

Seus olhos pesavam.

Seus olhos fecharam.

A longa noite terminou.


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