O Sonho

Arte do Livro Sophia's Daughter, da série de RPG's 7th Sea, por: ~Cris Dornaus~

Estava abafado no quarto, as janelas estavam abertas, mas o vento era tão pouco, que não fazia diferença alguma, o barulho das cigarras e dos grilos era alto, mas Ilariel dormia.
As cortinas do balaústre de sua cama, que ornavam perfeitamente com os lençóis cor carmesim, estavam abaixadas. Sempre que era questionada o por quê da cor dos lençóis, falava que era porque adorava a cor, mas isso era mentira. O seu fluxo sempre chegava de madrugada, no fim de cada mês, e após serem manchadas, as roupas de cama que eram brancas tinham de ser jogadas fora, pois o vermelho vivo sempre deixava manchas mesmo após a lavagem.
Estava tendo uma noite difícil, o suor fazia com que o cetim grudasse em sua pele nua marcando perfeitamente a silhueta do seu corpo. Sua pele, alva como a neve sob o topo das montanhas, dava um contraste bonito com o vermelho da sua roupa de cama, e seu cabelo loiro acinzentado caía em cachos bagunçados para fora da cama de tão longo que estava. Se contorcia de calor e de dor, mas isso não a despertou do seu sonho. Esse sonho, que era mais uma lembrança de acontecimentos passados, a acompanhava desde seus 10 anos.
Sonhava o que sonhou milhões de vezes em sua vida.

"Haviam boatos na vila sobre uma bruxa que havia se instalado em uma choupana velha no meio da floresta, diziam que era velha e curvada, sua pele desgrudava do rosto como a de um cadáver e seus dentes eram escuros e podres.
Adriell a arrastava Ilariel pelas árvores segurando em sua mão. Os cabelos do irmão gêmeo combinavam com o dela, só que os cachos dos seus haviam se desenvolvido mais do que os dele, que não passava de um pequeno ondular nas pontas que caíam sob os ombros.
O cheiro de folhas molhadas de orvalho da manhã enchiam suas narinas e as frestas de sol que passavam pelas mesmas aqueciam sua pele, estavam descalços e a terra fofa e úmida se encaixavam com os dedos de seus pés, sabiam que choveria à tarde, pois o cheiro de chuva era forte.
Eram crianças, não tinham mais que 10 anos, estavam animados para ver a bruxa, que segundo os boatos, em troca de algo inusitado, fazia previsões do futuro. E finalmente, após um tempo se embrenhando pela floresta que tão bem conheciam, em uma parte onde as árvores não permitiam a visita do sol e os insetos cantavam baixinho, avistaram uma pequena cabana de madeira.
Algumas tábuas estavam apodrecidas, e haviam trepadeiras que escalavam a madeira até o telhado triangular, as janelas estavam quebradas e a propriedade não possuía uma porta, mas sim um pano preto que cobria a entrada, a grama perto da choupana era baixa, como se ela não quisesse crescer perto demais, formando um círculo que abrigava a choupana bem no centro. Tudo parecia assustador demais para Ilariel, que se arrependera profundamente em dar ouvidos ao irmão.
Não quero mais ir, vamos para casa. — Disse ela, fazendo uma carranca.
Adriell parou, se postou confiante a frente da irmã e a olhou de cima, ele era cerca de 1 minuto mais novo, mas crescera mais do que ela.
Ora, vamos. Não está com medo de uma velha louca, está? — Adriell sempre foi corajoso, imprudente, e acima de tudo, estúpido — Qualquer coisa eu tiro a gente de lá, confia em mim.
Ilariel acenou com a cabeça, hesitante, e enfim adentraram a cabana.
Não havia velha alguma, a choupana parecia estar vazia, mas era tão assustadora por dentro como por fora, tudo estava empoeirado e havia teia de aranha nos cantos. O lugar todo parecia sair de dentro de um livro de histórias, haviam poucos móveis: uma cômoda de madeira com três gavetas e em cima da mesma, alguns recipientes com ervas amassadas, que cheiravam muito mal, caveiras que eram pequenas demais para serem de homens ou animais grandes; uma das paredes eram ocupadas por uma lareira mal construída de tijolos, e o fogo crepitava baixinho, aquecendo um caldeirão que estava suspenso por um espeto de ferro, e ao lado, uma mesa de madeira lisa com um dos pés quebrados, que apoiava uma série de tomos (passou o olho sob um deles, o título era Metamorfose Verdadeira); na parede oposta, havia uma pele de um animal estirada, provavelmente de uma cabra; sob a cama e o colchão feito de palha, cestas vazias.
Decepcionado, Adriell começou a revirar a cabana, procurando algo que julgasse interessante enquanto sua irmã ficava parada o observando. Alguns minutos depois, uma moça jovem, extremamente atraente, de cabelos castanhos e olhos verdes, com lábios carnudos e rosados, usando um vestido vermelho e longo preso ao pescoço, adentrou a choupana com uma cesta de palha nos braços, carregando ervas e flores recém-colhidas, sua pele era tão branca quanto a de Ilariel, que era mais clara que a de Adriell, pois não ficava ao sol.
Deu um sorriso complacente para os dois. Pôde-se ver a decepção nos olhos de Adriell, pois esperava um ser monstruoso e ali só havia uma mulher, aparentemente normal, mas contrário de Adriell, Ilariel estava encantada, nunca havia conhecido mulher mais bela e que transpusesse tanta confiança e poder.
Em que eu posso ajudá-los, meus anjos? — falou a mulher, enquanto adentrava a cabana.
Viemos ver a bruxa, mas pelo visto só eram boatos de aldeões estúpidos — rebateu Adriell com ousadia.
Com uma risada gostosa, respondeu a bravura do garoto, olhou para Ilariel e acariciou seu cabelo.
Pois está enganado criança, os aldeões não possuem nada de estúpidos, são apenas... criativos. Desculpe te decepcionar, sei que esperava um tipo monstruoso de bruxa, mas e então? Já saciaram sua curiosidade, então podem ir embora.
Adriell bufou de insatisfação, e novamente pegou na mão da irmã, a puxando em direção da saída.
Ilariel, ainda encantada, não conseguiria ir embora, parou o irmão e com dificuldade, falou:
Senhora, gostaria de saber se a parte das previsões são boatos.
A mulher, com curiosidade a olhou e balançou lentamente a cabeça negando a curiosidade da garotinha. E continuou:
Vejo que a garota está interessada em uma previsão? Pois saiba que é caro e não estou falando em ovos de galinha. De vocês... — se aproximou dos dois devagar. Adriell prontamente se colocou entre a irmã e a bruxa, mas a mesma apenas abaixou na frente dos gêmeos. — Sim, já sei o que quero, preciso praticar um feitiço, e vocês serão minhas cobaias. Não se preocupem, é algo bem simples. O que vou precisar, é de uma mecha de cabelo de cada um.
Mechas de cabelo? Apenas isso? Não vai doer não, né? E eu não vou ficar feia e corcunda como a filho do açougueiro? — Ilariel perguntou, nervosa.
Com uma risada e lágrimas nos olhos, a bruxa se divertindo com as perguntas, disse:
Nem que se juntassem todas as bruxas de Dunhain você ficaria feia, pequena.
Adriell, não concordava bem com a ideia, mas já havia chego até ali. Mas ainda assim precisava saber:
E o que vai fazer com elas? Por caso não vai controlar nossas mentes com elas, vai?
Isso, eu juro solenemente que não farei. — falou, esticando uma tesoura velha para as mãos de Ilariel, que cortou uma mecha de seu cabelo, e estendeu a ferramenta para o seu irmão, que hesitantemente, fez o mesmo.
Após conseguido as mechas, a bruxa sorriu, sentou em uma cadeira de madeira que estava ao lado da mesa, que rangiu ao receber o peso, calmamente trançou as mechas e selou as pontas com fogo.
Pronto, é esse o feitiço, agora vamos esperar um tempo até que esteja confirmado.
Levantou-se e guardou a trança de cabelo feita com o cabelo dos irmãos, virou-se para as crianças e disse:
Aqui, se sentem um de frente para o outro, deem as mãos, e lhes darei as minhas. Agora fechem os olhos e respirem fundo, deixem toda a mente de vocês fluírem para as minhas mãos. Começarei a previsão.
E assim fizeram.
As velas que estavam acesas, subitamente se apagaram, todos os bichos que faziam barulhos até então se calaram, o ar ficou pesado e havia a sensação de que só haviam aquelas três pessoas no mundo.
A bruxa abriu os olhos, que já não eram mais verdes e sim vermelhos, e esses olhos se encontraram com os olhos dos irmãos. Com a voz de uma velha, que ecoava como se estivessem dentro de uma caverna, recitou:

''Unido está, e assim será
Até que um ao outro matará.
Beijos, camas e filhos compartilharão
E dos três, dourados os cabelos serão
Assim como a mortalha que os cobrirão.
Indo e vindo no infinito, não importa o que façam
Os seus destinos se entrelaçam''

E após terminar, um riso histérico encobriu o lugar e tudo se evaporou como se nada nunca tivesse existido, ao longe, um lobo uivou.

Ofegante, Ilariel acordou suada e molhada e pegajosa entre os lençóis. Levantou-se da cama, afastando as cortinas e a roupa de cama e logo pôde ver que o sangue escorria vivo e grosso pelas suas pernas.



Share on Google Plus