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| Arte do Livro Sophia's Daughter, da série de RPG's 7th Sea, por: ~Cris Dornaus~ |
Já era manhã e o sol havia acabado de nascer. Enquanto Adriell ainda estava deitado nu e coberto por um lençol carmesim, Ilariel se arrumava na penteadeira. Já trajava um vestido de camponesa verde e bem decotado, com um cordão amarrado na frente para segurar os seios dentro no vestido, havia colocado os brincos que comprara no Ateliê da Bela, pequenos formatos de pérolas, e passava uma pasta nos lábios para deixá-los ainda mais rosados, o homem a admirava, encantado com cada detalhe. O corpo da moça havia passado por uma tremenda transformação, suas curvas
Ficaram mais suntuosas e seus seios cresceram consideravelmente, mas não a ponto de não continuarem firmes, agora não trajava vestidos volumosos e que escondiam completamente o formato de seu corpo, vestia vestidos de tecidos finos, de mangas médias e mais decotados; já não vestia meias finas por baixo da roupa, deixava as pernas livres, todo esse conjunto a deixava uma mulher irresistível ao olhar de qualquer homem, e isso irritava Adriell.
— Pra que se arrumar desse jeito para servir beberrões em uma taverna? — Adriell falava e sua irmã o observava através do espelho, enquanto penteava os cabelos.
— Os viajantes me dão mais gorjeta se eu estiver bonita. Ninguém gosta de mulher feia.
O jovem torceu o nariz com a resposta da irmã, não gostava da ideia de dela ter trabalhando em uma taverna servindo mesas, muito menos sendo desejada e admirada por outros homens, ela pertencia a ele e somente a ele.
— Não gosto dessa ideia. Você não precisa trabalhar servindo mesas e muito menos sendo alvo de olhares maliciosos de forasteiros.
Ela sorriu, parte por estar feliz com o ciúme, parte pela ironia:
— E se eu não trabalhar, como viveremos? Você se recusa a fazer qualquer tipo de coisa que não seja usar os músculos para dar jeito em quem causar confusão, mas se recusa um posto oficial de protetor da vila. E outra, não ache que eu não percebo o jeito que as garotas te olham quando você passa, então não venha falar de como os outros podem me olhar.
Com o olhar fixo no espelho, ele fez uma cara que deixava claro que não havia gostado do comentário.
— Mas eu não as vejo, só vejo você. E sabe o que eu realmente gostaria de fazer, já tivemos essa conversa antes.
E realmente já tiveram, o sonho de Adriell era sair da vila e ir para o mundo, se tornar um guerreiro e ter Ilariel ao seu lado, talvez encontrar um lugar no mundo onde eles não precisassem esconder quem eram, o que faziam e o que sentiam, mas ela não pensava dessa forma. Primeiramente, aquilo era tudo o que tinham e o que conheciam, aquela casa era uma lembrança sólida de seus pais e eles estavam enterrados nos jardins que plantaram com tanto carinho. Também havia o problema da bruxa, o amor entre irmãos sempre foi algo visto como doentio, maldito e fora do normal. Ilariel achava que realmente havia algo de errado com eles e sentia com todos os seus ossos que a bruxa havia feito algo para amarrá-los de tal modo. Lembrava-se da trança com as mechas, lembrava-se da profecia e o que ela predestinava, e tinha medo, vivia com medo todos os dias. Encontrar a bruxa e desfazer o feitiço acabaria com essa maldição que eles sofriam, pelo menos isso era o que achava Ilariel. Enquanto que seu irmão tinha uma posição contraria dessa: achava que o amor deles era pura e completamente normal, se amavam porque se amavam, chegaram a esse mundo juntos e assim partiriam dele porque era assim que teria de ser. Ilariel ia todos os dias ao lugar onde supostamente ficava a choupana, tentava achar algo, mas nunca conseguia rastro forte e isso a prendia àquele lugar e, por consequência o prendia também.
— Então não teremos essa conversa novamente. — Ela falou em um tom firme.
O homem se levantou, enrolado no lençol, foi até ela e a virou de frente para ele, olhou fundo em seus olhos:
— Então eu deveria ficar preso aqui e plantar batatas como Malik?
Ela o olhou em retorno, mas nada respondeu, só colocou as mãos em seu rosto e suplicou com os olhos para que não discutissem aquilo novamente, já era uma briga velha. Os olhos deles entenderam o pedido e se abaixaram na hora. Já estava na hora de ir trabalhar, lhe abraçou fortemente e lhe deu um beijo demorado, mas não havia o fogo habitual em Adriell, mas sim tristeza.
O dia foi puxado, a taverna estava cheia, tanto de aldeões, quanto de viajantes, como previsto, ganhou uma bela gorjeta pelo dia de trabalho. Finalmente, o turno terminara, poderia voltar para casa e tomar um banho de tina, se perguntava se o irmão se incomodaria de acompanhar ela até o rio para pegar água. Caminhou lentamente até sua casa, cumprimentando as pessoas no caminho, segurava um saquinho com moedas em uma das mãos e a outra levava uma cesta com pão preto, queijo duro e carne seca, faria uma surpresa levando um odre com um pouco de vinho que conseguira pegar escondido na taverna. Se sentia mal pelo incidente da manhã, e queria recompensá-lo. Finalmente chegou na varanda e fez peso com o corpo para abrir a porta, enquanto caminhava até o andar de cima, onde ficavam os quartos, tagarelava:
— Cheguei! Espero que não tenha ficado tão entediado. Trouxe uma coisa especial para nós e consegui pegar até um pouco de vinho... o que você está fazendo?
Ao chegar à porta do quarto de Adriell, o viu arrumando roupas em uma sacola de couro, suas espadas estavam repousando acima da cama e ele trajava seu gibão de couro com taxas. Sem olhar para ela, que ainda estava parada na soleira da porta do quarto dele, disse Adriell:
— Eu me resolvi Ilariel. Não vou ficar mais nenhum dia nesse fim de mundo, eu nunca vou ser feliz aqui e sei que você também não, mas eu já cansei de tentar arrastá-la comigo, então estou indo sem você.
Incrédula, gaguejava:
— Pa-pa-pare com isso! Você não vai! Pare de arrumar suas coisas!
Enquanto ele colocava as coisas na trouxa, ela as retirava e colocava novamente nas gavetas, mas o irmão ia pacientemente até a cômoda e as pegava novamente. Quando ela viu que não adiantava retirar as coisas da bolsa, se sentou em cima da mesma e cruzou os braços. Ele, paciente, a retirou pegando-a pela cintura, que tentava se debater inutilmente levando em conta a força do irmão. Por fim desistiu, as lágrimas, que tentara conter a qualquer custo, começaram a rolar, se levantou e foi até a porta, parou por um instante, só para dizer:
— Ótimo, então vá! Mas vá e me esqueça, porque assim que você sair por aquela eu vou deixar de te amar! Pode ser até que isso seja bom, pois finalmente posso ter uma vida normal. Quem sabe eu não me case e tenha filhos? Então vá, nobre guerreiro, e me esqueça! — saiu, e bateu a porta atrás de si.
Correu até seu quarto e bateu a porta, foi até a penteadeira, precisava se sentar, chorava tanto que perdia o ar e cobria o rosto, vermelho e sofrido, com as mãos. Após um tempo, ouviu sua porta abrindo devagar, um passo devagar que se aproximava pelas suas costas, uma mão pousou em seu ombro, e logo veio um abraço.
— O que está fazendo aqui? Já deveria ter ido embora! — Falava, mas o choro a interrompia.
O abraço se apertou e uma voz fraca soou no seu ouvido.
— Não deixe de me amar, por favor. Tudo que eu sei fazer na vida é te amar e tudo o que eu tenho é o seu amor. Não me diga tais coisas.
Estava furiosa. Como ele poderia pedir tal coisa?
— Vai me abandonar. Vai me deixar aqui sem você. — as palavras saíram entre os dentes.
— Não, é você que não quer vir comigo. Acho que pensando bem, você realmente quer que eu vá, quer se ver livre da sua maldição. É, acho que você não me ama e nunca me amou.
As palavras a atingiram como um tapa no rosto. Descobriu o rosto pela primeira vez e se levantou, ele se levantou e um estava de frente para o outro, ela reparou que ele não estava usando o gibão, mas uma calça de couro e uma camisa branca e larga. Estava furiosa, tão furiosa, que levantou a mão para desferir um tapa no rosto do rapaz, que a parou com a maior facilidade do mundo!
— Me solte! Vá embora e me deixe!
Ele a olhava sério, enquanto segurava seu braço, um longo silêncio se estendeu, até timidamente ser quebrado pelas seguintes palavras:
— Nunca...
E puxando com força a irmã para si, a domou com violência em um beijo forçado, que após algumas lágrimas e sussurros como: ''Vá embora, não faça isso'' e ''Não, não irei, nunca'', se tornou entregue, rendida. Os dois se beijaram apaixonadamente, e depois um calor subiu no corpo de ambos, o beijo começou a ficar mais apressado assim como as mãos desajeitadas que tentavam soltar os laços das roupas um do outro até elas caíram no chão. Adriell, a levantando pela cintura, colocou a amante em cima da penteadeira, que recebeu o irmão entre as pernas como se fosse a última coisa que fosse fazer em vida, se amaram por horas a fio, até que caíram cansados na cama.
Se abraçaram, e ficaram assim por muito tempo em silêncio, até que Ilariel olhou para ele, e perguntou:
— Você vai mesmo me deixar? — as lágrimas estavam ameaçando voltar, mas não queria isso, tinha que ser forte.
Passando a mão em seu rosto, e olhando em seus olhos:
— Nunca...
Após isso a garota adormeceu, teve um sono tranquilo e sem sonhos.
Ilariel acordou de madrugada, por conta do barulho de um raio que havia caído lá perto, chovia torrencialmente. Esticou o braço para abraçar o irmão, ainda de olhos fechados, ao sentir o vazio ao seu lado, abriu os olhos. Sentou-se na cama, vestiu um roupão e foi em busca do irmão pela casa. Foi até a sala, cozinha e escritório que se encontravam todos vazios, foi até o quarto do irmão e viu que lá não havia mais as espadas e nem as trouxas em cima da cama, a respiração começou a ficar difícil e o peito começou a apertar. Correu até seu quarto para ver se ele não estaria lá e irracionalmente, o procurou até dentro das gavetas. Tempo depois, percebeu que um bilhete repousava na penteadeira, um pequeno pedaço de papel dobrado, com as palavras: ''Sinto muito."
O bilhete caiu no chão, enquanto ela saía correndo de seu quarto e logo em seguida da sua casa. Passou pelo jardim, pisou nas flores, a chuva estava forte, então a água que caía nos olhos atrapalhava a visão. Ou seriam as lágrimas? Gritava seu nome pela vila, entrava em cada rua, cada beco, a lama prendia seus pés no chão e a fazia cair de vez em quando, mas ela se levantava e gritava:
— ADRIEEEEEEEEEEELL... ADRIEEEEEEEEEEEEEEELL...
Não achava ele em lugar nenhum, resolveu seguir a trilha para fora da vila em direção ao bosque. Corria, corria tanto que as pernas falhavam ao passo e a fazia cair com o rosto no chão diversas vezes. Não parava de gritar, mesmo quando adentrara o bosque.
Passou por uma pequena cabana, aquela que diziam ser assombrada, mas prosseguiu por muito tempo após vê-la, sempre correndo. Chegou ao ponto onde não havia mais trilha nenhuma para seguir e para todos os lados que olhava, via a mata fechada ao seu redor.
— ADRIEEEEELL... ADRIEEEEEEEEEELL...
Começou a ouvir barulhos, uivos talvez, olhava para todos os lados, não sabia onde estava. Estava perdida, no meio de um temporal, possivelmente com predadores ao seu redor e sabia que nunca mais veria o irmão, desistiu de gritar, desistiu de correr. A solidão se misturava com o desespero e as coisas giravam ao seu redor. Não aguentou, caiu de joelhos na lama, o ar faltou por um minuto. Repentinamente, um brilho azul e forte tomou os seus braços, olhou aquilo e ficou com raiva, raiva por ter sido abandonada, raiva por estar perdida e raiva por tudo de ruim estar acontecendo com ela, soltou um grito de fúria, com uma voz que não era sua e bateu seus punhos na terra. Uma explosão tomou conta de uma considerável porção do bosque, lançando um clarão tão grande que poderia ser visto a muitos quilômetros de distância. O bosque estava parcialmente destruído e a desgraça ao seu redor foi a última coisa que viu antes de perder a consciência e tudo ficar escuro.
Acordou em seu quarto, as roupas ainda estavam sujas de lama, era quase meio dia e não havia mais ninguém lá. Lembrou da solidão, tudo o que viu foi uma poção que jazia ao lado de sua cama.
Depois do acontecido, dia após dia viveu como uma flor murcha, perdeu o seu brilho e é como se a sua existência fosse o próprio sofrimento. Ainda trabalhava na taverna e tentava ocupar seu tempo livre ajudando os aldeões e com as crianças do orfanato, mas todo fim de tarde, se sentava no banquinho da praça, de frente para a entrada da vila e ficava lá até tarde da noite, fizesse chuva ou frio.
A esperança do retorno do irmão era grande, mas um dia se acabou também.
