A GAROTA DO CABELO VERMELHO
Zander olhou
para cima e viu a mão de Magnus estendida em sua direção, e sem falar nada
aceitou a ajuda e se levantou. Magnus também não disse nada, apenas bateu
levemente a mão no ombro do amigo. A chuva finalmente havia dado uma trégua e
agora era possível ver toda a bagunça que o combate havia causado. Ao lado de
Beatrice estavam o corpo decapitado do minotauro e também uma pequena criatura
de menos de trinta centímetros de altura e asas de inseto. Era Fafagon, o
Primeiro de Glenn, um Sprite do bosque de Alihana. Fafagon era um guerreiro
muito competente com sua lança mágica e muitos que o subestimavam por sua
aparência acabavam como o minotauro, mortos.
— Eu disse
para não se preocuparem, esse minotauro era muito fraquinho! — Dizia a diminuta
criaturinha.
Zander sorriu
daquela cena e após alguma tentativa, conseguiu se limpar, pelo menos tanto
quanto era possível e olhou para os lados a procura da garota de cabelos
vermelhos. Ela a avistou ao norte dali, os guardas haviam evacuado os civis,
mas de alguma forma ela conseguiu dar a volta e ficar onde poderia observar
tudo a uma distância segura. Quando seus olhares se encontraram ela virou-se de
costas para ele e começou a caminhar em direção ao mercado. Zander logo começou
a segui-la e não demorou a notar outra mulher vindo na direção em que estava.
Era Zhatra Birdeye, filha de Ethilda e oficial responsável pela Guarda dos
Crânios. Ela vinha acompanhada de quatro guardas e mais alguns serviçais, que
levavam um toldo sobre sua cabeça na intenção de protegê-la da chuva, caso esta
voltasse a apertar.
Zhatra era
conhecida em todo forte, se não em toda Curanmir, como sendo uma mulher tão
bela quanto excêntrica. Seus cabelos eram longos e brancos, que mesmo enrolados
em dois coques nas laterais de sua cabeça, ainda chegavam até o meio de suas
costas. Seus olhos eram carmesim intenso, da mesma cor que seu vestido, que
ainda apresentava detalhes em dourado. Ele já havia ouvido muitas histórias
sobre a jovem mulher, que colecionava um grande número de escândalos envolvendo
seu nome, a maioria com teor sexual. Ela era vista sempre em locais estranhos
para alguém tão bem-nascido e também costumava fazer visitas em horários
inoportunos. Zander gostava de Zhatra, achava muito interessante a forma como
ela quebrava regras e ignorava protocolos e às vezes invejava sua coragem e a
forma como ela não dava a mínima para o que pensavam dela, contudo, pela
primeira vez considerou que de fato a mulher havia aparecido em um momento
inoportuno.
O Jovem viu
com certo desapontamento quando Zhatra falou algo para um de seus serviçais e
continuou na direção de Zander com um sorriso provocador. O Rapaz suspirou e
foi de encontro à mulher. Zander se curvou esperando a mão da oficial, que a
despeito de sua polidez, se aproximou e lhe segurou o rosto, aproximando-o de
seu próprio e lhe dando um demorado beijo na bochecha, bem próximo a boca.
— Zander, que
bom vê-lo... Faz tempo que não o avisto pelas ruas do forte. — Zander abriu um
sorriso e se virou para encará-la, tentando não parecer incomodado com a
atitude.
— Milady,
temo que o forte esteja um tanto bagunçado para recebe-la.
— Mas é assim
que eu gosto, querido. — No rosto dela bailava um sorriso frívolo enquanto
falava.
Zander se
limitou a sorrir de volta e discretamente olhou por cima do ombro de Zhatra,
onde avistou a garota de antes, parada em uma barraca no mercado, aparentemente
se ocupando de escolher frutas. Zander viu Magnus se aproximando de onde estava
e de imediato, pensou em uma solução para o dilema em que se encontrava.
— Magnus! —
Olhou para o amigo que ergueu uma sobrancelha em resposta.
— Que é? —
Magnus parecia desinteressado e seco, mas Zander sabia que estava apenas tenso
pelo combate. Provavelmente decepcionado por não ter tido a oportunidade de se
envolver mais na luta.
— Veja quem
está aqui, nossa amiga lady Zhatra.
Magnus se
aproximou e em um movimento fluido pegou a mão de Zhatra e a pressionou contra
os lábios. Ele sorriu cordialmente e voltou a fumar seu cigarro de maneira
displicente. Zhatra lhe sorriu de volta e estendeu sua mão em direção à de
Magnus, ao mesmo tempo em que se aproximava ainda mais do rapaz, ficando com a
menos de um palmo do espadachim.
— Posso? —
Apontou ela em direção ao cigarro.
Magnus era
mais alto que Zander, vestia sempre uma capa preta que lhe protegia da chuva e mantinha
seus longos cabelos sempre penteados para trás. Zander pensou que era incrível
como ele parecia arrumado mesmo após lutar na chuva. Ele entregou o cigarro à
mulher que sem pestanejar deu uma longa tragada antes de devolvê-lo a ele.
— Não diga a
meus pais que fiz isso — sussurrou ela no ouvido de Magnus.
— Eu não
gosto de conhecer pais. — respondeu ele com um sorriso sugestivo, ao qual ela
prontamente respondeu com um sorriso igualmente malicioso.
Zander aproveitou
a distração dos dois e deslizou para longe dali o mais rápido e discretamente
que pode. Olhou para trás a tempo de ver Fafagon descer do céu bem a frente da
oficial da Guarda dos Crânios e suspirou satisfeito ao notar que não haviam
notado sua fuga.
Zander se
aproximou da moça que ainda fingia escolher frutas em uma bancada. Ela virou e
o viu se aproximar, e o recebeu com um sorriso amigável.
— Uma batalha
e tanto senhor, Zander.
— Sim, embora
eu tenha feito papel de tolo errando aquele golpe... — ele olhou ao redor e se aproximou dela,
abaixando o tom da voz ao nível de um sussurro — E ainda mais sendo atropelado
daquela forma. Nada muito glorioso não acha?
— Nem todas
as batalhas são vencidas, algumas servem de ensinamento para o amanhã. — Ela
olhou para cima, como se tivesse ficado confusa por conta da própria filosofia.
Zander riu do provérbio recém criado pela garota e continuou a conversa.
— Achei que
não iriamos conseguir conversar sem que algo nos interrompesse. Faz um tempo
que não a vejo aliás.
— É verdade,
passei uns dias fora do forte...
Zander acenou
positivamente e de repente pareceu se lembrar de algo muito importante.
— Antes que
algo aconteça novamente, você não chegou a me dizer seu nome.
— Não?! — Ela
fez uma expressão sinceramente espantada e de imediato curvou a cabeça em um
gesto que pedia desculpas. — Nossa não falei mesmo! É Chiana. — Se apressou em
dizer.
Zander como
era de praxe fez menção de beijar a mão da garota, mas ao invés disso ela
transformou o comprimento da corte em um aperto de mãos, mas caloroso do que a
fria saudação palaciana.
— Não precisa
ser formal comigo, Zander.
— É o
costume. — Disse ele com um sorriso.
— Percebi,
parece que os nobres daqui adoram beijar as mãos das mulheres. — O olhar dela
parecia distante à medida que falava. — Se meu pai visse isso ficaria enojado.
Zander ficou
desconcertado com aquilo e sem jeito tentou mudar de assunto.
— Bem... E
você trabalha no forte? — Disse ele enquanto pegava uma laranja e a examinava
com fingido cuidado.
— De certo
modo trabalho, embora não goste muito do que faço, pelo menos paga bem.
— E posso
perguntar o que você faz?
— Eu trabalho
nas forjas, ajudo os Ironshields na fabricação dos armamentos do forte. — Ela
pausou por um instante e franziu as sobrancelhas levemente. — É um trabalho
pesado, quente e sujo, mas paga bem e eles são bons chefes.
Zander a
olhou e disse em tom consolador:
— Bom, é um
trabalho como outro qualquer, e se você não se sente prejudicada por ele então
não vejo problemas.
— É verdade,
parece que só o fato de ter um emprego ultimamente já é algo a se comemorar.
Ainda mais nessa região. — Zander viu
quando de súbito o rosto dela se tornava mais pesaroso, como se memorias ruins
invadissem sua cabeça. — Na verdade eu queria voltar pra casa, mas acho que não
há mais uma casa para onde voltar, depois que Altrim caiu, sabe?
Zander
suspirou e se virou de frente para ela, encostando na barraca de frutas.
— Bem, eu sei
bem até demais, também sou de lá.
— Você é? De
qual região?
— Bem... —
Zander ponderou um pouco antes de responder. — Eu morava perto do palácio...
Chiana então
o olhou com olhos arregalados.
— Você devia
ter muito dinheiro, ou ainda tem! Bem, pelas suas roupas pelo menos você parece
ter.
—Na verdade
isso não importa muito aqui no forte. — Se esquivou ele. — O que nós tínhamos
antes ficou em Altrim.
— Você também
teve que sair fugido de lá?
— Na verdade
eu estava fora da cidade no momento do ataque, fiquei muito tempo sem saber o
que havia acontecido com minha irmã e com meus pais.
— Você teve
sorte, muita gente não conseguiu sair de lá atempo e hoje vive sob as rédeas
dos minotauros ou foi morta na guerra. — Ela então assumiu um tom mais irritado
e continuou — Mais estranho é o regente, ninguém sabe onde ele anda hoje em
dia. Dizem que sumiu no dia do ataque. Eu nunca teria feito algo assim, teria
morrido lutando, afinal é o meu lar!
Zander a
olhou por um tempo, a princípio seu orgulho fora ferido, mas ele sabia que ela
tinha razão.
— É verdade, ele
não devia ter fugido.
Notando a
tensão do rapaz, Chiana sorriu para ele e voltou a falar:
— Mas o
passado é passado, agora só nos resta esperar que o Reinado faça algo.
Zander
desencostou da barraca e esticou os braços em direção à garota.
— Quer ajuda?
— Ofereceu o rapaz com mais um de seus sorrisos.
— Com as
compras?
— Sim, tenho
algum tempo livre hoje à tarde.
Chiana acenou
positivamente e Zander pegou a cesta de seus braços. Ambos então de fato
começaram a comprar coisas e pela quantidade, Zander deduziu que ela estava
pegando provisões para si mesma e no mínimo mais quatro pessoas.
— Sabe... —
Começou ela, retomando a conversa. — As pessoas costumam falar muito aqui no
mercado e parece que Beatrice está uma fera. Parece que ela vai convocar uma
reunião amanhã cedo, você vai?
—
Infelizmente eu sou um oficial, logo vou ter que ir.
— Que azar...
Ela deve estar mesmo uma fera, na verdade ela sempre está uma fera, pelo que
dizem. É difícil eu assumo, depois de tudo que aconteceu.
— Sim, mas eu
acho que quem deve ser o maior foco da raiva da Capitã é a senhora Birdeye, ela
vai ouvir, e não será pouco...
— Isso se ela
for realmente...
—
Provavelmente enviará a filha. — Concordou o rapaz.
— Ou o
marido. Apesar de ele sempre dormir. — Ambos riram à menção de lorde Birdeye,
conhecido em todo o local por sua aparente falta de sanidade. — Sabe, você
passa um tempo num lugar como esse e parece que já conhece todos a uma vida.
Coisa de cidade pequena... É estranho para mim que vim da capital. Lá ninguém
se importa com os outros.
Ela se
aproximou do ouvido dele e continuou:
— Aqui se
você dá um peido todos já estarão falando!
Zander deixou
as risadas explodirem em uma gargalhada e a olhou em quanto ela também sorria.
— Mas ainda
sim demorei pra te conhecer.
— Eu não saio
muito por ai, Zander. E nem vou muito para lá. — Disse ela apontando para a
taverna dos Nobres. — Eu não gosto muito de bebidas, e os nobres quando bebem
perdem a noção de respeito. Sabe como é.
— Sei bem. Eu
mesmo não sou muito de frequentar lá. Sou um tanto recluso até, saio, faço meus
treinamentos e volto pra casa. Só vou lá quando Magnus me arrasta.
— E visita a
torre toda manhã... O que você tanto olha lá?
— Eu gosto de
sentar lá e olhar o mar, pensar nas histórias que contam sobre esse forte.
Sobre Tork o Troglodita e a batalha contra Deenar o Elfo do mar... Penso se um
dia terei minha própria lenda.
Chiana então
deu uma risada e contrapôs.
— Já eu não
almejo grandes feitos, apenas uma aposentadoria tranquila e rica. Depois de
tantos horrores a última coisa que eu quero é ação por aqui.
Zander a
olhou e pensou por um tempo.
— Você tem
razão... Só quem nunca esteve numa guerra deseja estar em uma. Lutar é uma
necessidade, não deve ser um modo de vida. Não deve ser algo para se gostar.
Chiana concordou
com a cabeça e revirou sua bolsa em busca de moedas para pagar as compras.
Ambos então foram em direção à casa dela em silêncio, caminhando pelo forte até
chegar a uma residência próxima às muralhas.
— Eu espero
vê-lo aqui com mais frequência. Isso se eu tiver tempo de sair.
Ela então lhe
deu um beijo no rosto, ambos visivelmente sem graça e em seguida sorriu e entrou.
...
A noite
Zander se ajeitou em sua desconfortável cadeira de observação, no alto da torre
três. Dessa vez não estava ali para observar o mar, estava ali para o turno da
noite. Tinha se esquecido de que na noite anterior à reunião teria a vigília
noturna e se amaldiçoou pelo descuido. Seu houvesse lembrado teria tratado de
dormir bem antes de iniciar seu turno.
Na torre dois
que ficava a dez metros ao oeste estava Magnus. “Provavelmente fumando um de
seus cigarros”, pensou o rapaz. Zander se recostou na cadeira e deixou sua
mente vagar, e como esperado, pensou na jovem e na conversa que tiveram. Ele
esperava algo mais romântico, esperava que ela se comportasse como as donzelas
com quem estava acostumado a flertar.... Ficou feliz de estar errado.
Enquanto o
jovem oficial se perdia em seus devaneios uma criatura se esgueirava na praia,
oculta de Zander que alheio a ela, ignorava o perigo que ele e todos os
habitantes da cidade corriam.
