O Velho Omar


Imagem por: falsion


Então é assim que vai funcionar. Eu te conto a história e você me dá um café do jeito que eu gosto. Se você não puder fazer o café do jeito que eu gosto essa vai ser a última história que você vai ouvir. E como eu sei que você não tem muita escolha eu vou presumir que você achou o nosso acordo justo o bastante, pode ser?

Eu sempre ouvi como é difícil ser matador de aluguel no Norte do Brasil nos dias de hoje. Não é como se fossemos muitos, mas a rede que existe é bastante unida e se suporta mutuamente o máximo que seria aceitável de assassinos pagos. Mas isso é uma coisa muito recente! Me faz até lembrar do que acontecia no tempo do Velho Omar.

O Maranhão é um dos maiores estados do país, e mesmo assim podemos dizer que nunca foi muito necessário o nosso tipo de serviço. Na época áurea da peixeira estridente, o coro comia de verdade e não era estranho ver umas tripas pra fora dos cadáveres no meio da rua no final de uma celebração festiva. Essa data com muitas pessoas nas ruas, inclusive o alvo, era prolifera para finalizarmos os nossos contratos, mas é interessante notar que o povo de Jandiaçú, principalmente, eram o tipo de gente que nos deixavam pobres por toda a vida. Fazendo o nosso trabalho por conta própria.

No meio de pessoas de bem como essas que floresceu para a nossa causa o pequeno Omar. Pistoleiro dos melhores que o Nordeste já viu, mesmo sendo cego de um olho. Faz a coisa ficar mais sinistra, não é mesmo? Tudo que Omar fazia era por instinto, e isso era o que afastava as pessoas dele. Inclusive esse foi o motivo de sua mulher em Jandiaçú fugir grávida para outro estado da qual Omar nunca teve ciência. Pra ele isso nunca importou de qualquer forma! Só queria saber de matar a mulher e o filho ou filha se viesse a cruzar o seu caminho.

Vejam, O Velho Omar nunca foi uma pessoa agradável de se conversar como eu, mas as trevas abraçaram ele naqueles dias e pelo resto do seus dias. Pelo menos até o fato que desencadeou a sua lenda. O que fez os matadores ficarem mais unidos, sabe? É algo que você vai perceber um dia. Não seja como o Velho Omar.

O Velho voltava de tempos em tempos pra Jandiaçú, assim que tinha terminado um número de serviços suficientes pra viver bem o resto do ano. Podemos dizer que nunca teve ninguém esperando por ele. Na verdade é justamente o contrário. Não era assim todos os dias que ele passava em Jandiaçú, mas quando ele chegava das viagens pelo Maranhão ele voltava com os olhos engolfados de um vermelho da pura raiva do seu ser. Ninguém queria cruzar o caminho dele. Era como se fosse o gato preto da morte! Era até assim que os conterrâneos dele o chamavam nos dias em que ele partia da cidadezinha.

Daquela vez ele recebeu uma visita em sua casa, uma visita que nos dias de hoje ele não teria recebido. Uma garota de pele tão escura quanto a dele, mas de olhos mais claros e um sorriso afável, porém voluptuoso, que o Velho Omar reconhecia de algum lugar, só não lembrava daonde.

Ele abriu a porta com uma cara de surpresa. “Uma garota sozinha? Na minha porta?”. A menina já foi entrando na casa pequena e claustrofóbica do Velho Omar dizendo que queria que ele fizesse um pequeno favor remunerado para ela. O Velho Omar já percebeu que a menina não era flor que se cheirasse, é claro. Ela ficava enfeitando as palavras invés de dizer logo o que queria dizer. Isso é coisa de gente falsa, ele pensou, e eu também na primeira vez que ouvi essa história.

Mas de qualquer forma o Velho Omar não recusou o serviço, sabe? Ficar em Jandiaçú era como férias pra ele, mas ele não gostava de férias, então ter alguém pra matar ali seria interessante. Fazia tempo que ele não matava ninguém na cidadezinha, desde a sua infância, quando isso ainda era necessário. Você sabe do que eu to falando, né? Então a expressão mais estranha brotou na cara do Velho Omar, o que os mais ousados tem a audácia de dizer que era um sorriso. Bom, na verdade pode até ser, né?

“Eu tenho um homem pra matar nessa cidade, Seu Matador! E esse homem é o meu pai”. Uma chavezinha virou na cabeça do Velho Omar. “Minha mãe teve que fugir comigo ainda na barriga por causa do que ele era. Ela não aguentou e se matou uns anos depois!” O sorriso morreu no rosto do Velho Omar. “Olhe, menina. Dos piores eu sou o melhor que tem... Deixe o serviço comigo!” Não era como se o Velho Omar soubesse o que tava fazendo, mas agora ele ia ver onde o instinto dele ia levar ele, sabe?

“Muito obrigada, Seu Matador. E por quanto que é o serviço?”. O Velho Omar disse que aquele ia ser o último serviço dele então ia ser de graça, só pra terminar de vez com aquele modo de vida. Ele já tava muito velho e a última missão parecia intrigante demais pra deixar passar a oportunidade de fazer história. É claro que ia se matar depois, porque um pistoleiro não tem descanso nessa vida, isso se existir outra vida.

As coordenadas do ponto de encontro foram decididas e o Velho Omar foi pra lá, sem medos de emboscadas, ele falava sério quando ele dizia que aquela ia ser sua última missão. Depois de um, dois, três passos dentro do beco que era o ponto de encontro o Velho Omar conseguiu distinguir a silhueta da menina. Tava de noite, sabe? E ai ele soltou uma daquelas frases que não se ouve mais nesses dias. “Você pensava que eu não sabia quem você era né, menina? O seu pai sou eu e eu prometi que iria matar seu pai. Mas primeiro eu vou lhe matar. E depois eu me mato.” “Eu sabia que você sabia velho asqueroso!” Das sombras do beco já era possível distinguir o que o Velho Omar só suspeitava. Cinco covardes com armas de fogo. Essas pistolinhas fuleiras, mas que se acerta dói, sabe?

No final das contas o único pistoleiro de verdade ali era o Velho Omar e ele levou a menina e mais três junto com ele antes de morrer. O Velho Omar era um cara brabo! Bom, no final das contas a menina era irmã da filha dele que a outra tinha engambelado pra fazer esse serviço suicida pra ela. De qualquer forma a filha verdadeira também já tá morta. Eu me encarreguei disso. Eu meio que devia uns favores pro Velho Omar e agora, pra finalizar essa parte da minha jornada eu tinha que terminar o serviço do beco, sabe?

É claro que você sabe! Você foi o que deu o tiro na perna dele. O cara que eu peguei antes de você me contou. Mas isso não importa agora! Eu já terminei a história. Eu quero um simples café puro sem açúcar pra comemorar. Esse vai ser fácil, não é? O quê? E o que tem a ver você está amarrado?

Bom, não era isso o que eu queria ouvir. E você não vai ouvir mais nada.
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