Os Reinos da Magia são um lugar podre. Aconteceu de novo.
Mais uma fuga, mais uma perseguição, mais uma queda e já estavam correndo de
novo.
Lucy estava lá para trazer mais entretenimento ao
entretenimento. Era assim que as coisas funcionavam nos Reinos da Magia de uma
maneira geral, mas as pessoas do reino de Bsalom costumam ser inventivamente
sádicas.
O nome de Lucy era uma prova do sadismo de Bsalom. Seus
pais escolheram um nome muito comum do Império Santagar, e também no, agora,
Deserto de Abkham-Traster. Traster era um homem de Bsalom, nada estranho.
Enquanto Abkham era um anão do subterrâneo. Os anões eram muito mais pacíficos
do que os bsalonis, mas eles imitam com perfeição os modos daqueles que os
cercam, como uma forma de defesa até. Abkham era basicamente um bsaloni em sua
alma.
Depois que o cataclismo do deserto, como era chamado o
evento nos Reinos da Magia, terminou, os bsaloni comemoraram muito o fato de
não ter que lidar com o Império Santagar, ao menos não no período de vida
deles. Foi assim que surgiu a Sinfonia da Noite. Bardos em essência feitos para
entorpecer a nobreza bsaloni, a Sinfonia da Noite, desde 40 anos atrás,
desenvolveu técnicas e métodos novos para entreter esses homens de alma imunda.
Eles eram intocáveis até certo nível, e também eram muito requisitados, mas não
era incomum ver um correr por sua vida quando saia da linha e ajudava quem não
devia. Atos de benfeitoria são extremamente reprováveis, e foi isso que pôs
Jaumani na posição em que estava. Um homem tão velho deveria entender que não
era bom ser bom, isso era o que passava na cabeça de Lucy, que tinha de
presenciar seu mentor ser caçado por burgueses inflamados, e salivando, com a
cara mais blasé que conseguia produzir.
Uma verdade inexorável de todas as existências é que não
podemos ignorar as individualidades de um ser. Até no lugar mais conspurcado e
infame de toda Velynian havia pequenas brasas de bondade. Bem pequenas mesmo.
Bsalom já não era um dos maiores dos Reinos da Magia, ter alguém como Jaumani,
um nativo, com o coração que tinha, era um milagre que deixaria um Ordenado dos
Sete Rios com os queixos caídos.
Até Lucy conhecer Jaumani, e os seus ideais, ela tinha uma
visão injusta do mundo. Ela pensava que todo aquele mundo era coberto por uma
gosma pútrida que tocava o solo e as pessoas e os deixavam nojentos e impuros.
Jaumani era um bardo da Sinfonia da Noite, ele tinha tido o privilégio de ser o
bardo do rei algumas vezes. Ele sabia a verdade, e a contou para a pequena
Lucy, que já era uma criança diferente.
Lucy era uma elfa como todos aqueles que tem uma vida digna
em Bsalom. Os elfos em Bsalom, e na maioria dos reinos, gostavam de ser
chamados de jidjabi, que significa atraente. Para o resto de Vortúmbria eles
eram elfos, ao menos até os elfos que vieram do continente no Sul chegarem.
A diferença de Lucy estava na sua aparência não tão élfica.
Ela tinha as orelhas pontudas, são tez não era tão azulada assim, seu cabelo
era vermelho e seus olhos eram totalmente verdes, de um verde bem brilhante
aliás. Os cabelos de um elfo são predominantemente brancos, os olhos são
leitosos e as orelhas são como a da maioria das outras raças, pequenas.
As orelhas de Lucy lhe permitiam ser mais precisa nos sons
que escutavam, mas fora a estética ela não ganhava mais nada. Ela era exótica,
e perfeita para a corte. Se casaria com qualquer nobre bsaloni, se Jaumani não
a tivesse encontrado antes e levado sua excentricidade para a Sinfonia da
Noite.
Pessoas esquisitas essas que se chamavam de membros da
Sinfonia da Noite. Eles tinham vários nomes para si mesmos. Lucy por exemplo,
era uma Minueto, Jaumani era um Adágio. Para pessoas de fora isso pode não
significar nada, mas lá dentro quer dizer que Lucy estava longe de ser tão boa
quanto ele.
Ainda assim, fizeram-na tocar as músicas que Jaumani havia
composto. Tanto as agitadas como "Ainda Contando os Imbecis", quanto
as ditas baladas, como "Eu perdoo". Ela tocava sem parar, ela cantava
também. A letra de "Eu Perdoo" tinha sido ela que tinha composto como
um presente de aniversário para Jaumani. Era bastante famosa, mas apenas eles
dois sabiam desse fato. Esse foi o pior momento daquele circo. Ali quase Lucy
tinha desabado, mas ela se mostrou digna, assim como Jaumani tinha lhe pedido.
A Noite foi longa, mas que noite não era longa em Bsalom.
Um pouco da esperança do mundo tinha sido perdida para Lucy no instante em que
os cachorros daqueles nobres malditos tinham alcançado a jugular do seu mestre
que caiu igual um saco de grãos, duro, com um som seco, e então não se moveu
mais. Aquele foi o momento em que a piedade tinha sido expurgada tanto do
vocabulário quanto do coração de Lucy. Ao menos no que tangiam aos seus. Elfos
não mereciam sua piedade, nunca mais.
***
As Terras Férteis eram uma terra de oportunidade. Foi isso
que Lucy tinha ouvido tanas vezes de Jaumani, seu, agora falecido, mestre. Ela
tinha a oportunidade nas mãos. Bsalonis tem um humor negro, degradante, mas da qual
Lucy se aproveitaria agora.
Todos aqueles que praticavam o bem em Bsalom eram caçados,
em um esporte chamado Caça, que era um nome que pecava em originalidade, mas
era preciso quanto a finalidade. Como uma caça a animais, coisas que
praticamente nenhum reino de dentro da região dos muros gigantes, chamados
Reinos da Magia, permitia, a Caça era ministrada pela nobreza contra aqueles
que cometiam crimes de desonra.
A Caça não era uma exclusividade de Bsalom, mas eles foram
os pioneiros dentro dos muros gigantes.
Lucy não compactuava com o modo de vida dos seus, de uma
maneira geral, mas ela precisava de um padrinho, ou de motivos muito bem
claros, para poder viajar dentro dos Reinos da Magia, e de muito bons contatos
para ir para fora. Se Jaumani não estivesse no comitê do rei em pessoa ele
nunca teria tido a oportunidade de sair dos Reinos da Magia.
Mas os portais existem. Esse tipo de Magia ainda por cima é
coisa de elfo. Magia de portais e necromancia são as artes que os elfos, tanto
os de Vortúmbria, como os de Setsuri, dominam muito bem. Não que todos saibam,
não que Lucy saiba. O negócio dela é tocar o seu baixo.
Ela não tinha um estojo para guardar o seu baixo, que ela
apelidou de Francesca, uma das poucas heroínas que ela tinha ouvido falar, de
forma ilegal, sendo ela uma cavaleira sagrada da Ordem das Beatrices, no
longínquo norte, na Liga do Norte.
Ela tocava Francesca, nome que ela mantinha em segredo,
carinho com o instrumento é desencorajado, com a sua palheta de diamante.
Material que ela ganhou em um cortejo recebido de um anão, aparentemente muito
bem abastado. E que lhe rendeu a alcunha de Lucy da Palheta de Diamante.
Essa palheta fez com que a elfa arrebentasse muitas e
muitas cordas, até aprender como usá-la, e que tipos de cordas comprar, sem
fazer com que muito sangue saia a partir de seus dedos de uma vez, ou que o som
que Francesca produzisse fosse irritante e inútil.
Ela usaria de toda a informação que ela possuía naquele
reino para colocar seu plano em ação, agora. A pior parte da Caça, nem é a caça
em si, mas todo o circo que se faz no dia seguinte, com um cortejo que sai da
Casa do Rei, e vai até o Cemitério de Duinque, com um monte de ovos, e vegetais
sendo atirados no caixão, que sai da residência do rei branco e chega colorido
ao cemitério.
As atenções estariam em outro lugar, e Lucy usaria a
distração para fugir. Foi isso que Jaumani decidiu no seu fim eminente. Lucy
iria escapar.
Ainda assim, havia um esquadrão de magos nas portas dos
portais. Apenas o topo na nobreza poderia utilizar um daqueles portais. Eles
eram definitivos e, quase, indestrutíveis. Quase, e Lucy teria que fazer isso
acontecer dessa vez.
Na poesia "O Jardim ao Pé da Montanha", que um
outro Adagio, chamado Seraf, havia transformado em canção, um gnomo fazia um composto
mais potente que o sopro de Drokona, um dos Três Reis Balrogs, e Senhor do
Norte do Abismo, o que todo mudo achava irreal demais, mas que Lucy estava
disposta a recriar, dado o seu estado de espirito atual. O Jardim ao Pé da
Montanha estava no repertório de Lucy, então ela sabia o que deveria fazer, já
que todos os passos do composto estavam descritos na canção. Junto com, um
ainda vivo, Jaumani ela conseguiu reunir os ingredientes necessários para
derrubar, definitivamente, as estruturas de um desses portais.
O segundo passo que Lucy havia tomado foi determinar qual
portal levava para onde. Eles não haviam qualquer indicativo neles mesmo ou ao
redor. Era algo proposital. Haviam portais que levavam para o Abismo, mais de
um, e portais que levavam para as geleiras ao norte da Liga do Norte, Mais de
um, que era um lugar tão mortal quanto. Era um aviso para aqueles que tentassem
atravessar um desses portais de maneira descuidada. Os portais eram trocados
periodicamente, mas não tão periodicamente assim. De semana em semana, o que
quer dizer que Lucy tinha cinco dias para planejar para onde iria. Às vezes, um
portal era retirado e outro com outro destino era colocado no lugar. Então
Lucy, e Jaumani, aguardaram até o destino preferido das histórias de Lucy estar
disponível. Ela queria ver o mar, e assim seria. O único lugar que isso seria
possível, e a vida seria boa, era nas Terras Férteis, bem ao sul, pertinho dos
Reinos da Magia, geograficamente falando, mas longe o bastante para ela não ser
perseguida, se o portal fosse destruído. Ela iria para Helewidis. O lar das
histórias de animais marinhos gigantes, e do Sindicato Pirata, uma organização
dedicada a caçá-los. Ela queria conhecer Robisberta Freider, a líder pirata, de
perto. Ela queria poder navegar no Canhão Gentil ao menos uma vez, mesmo que
como prisioneira.
Então ela tinha a pasta para passar no arco do seu portal,
ela tinha o seu destino, mas ela não tinha uma coisa muito importante, desde
que Jaumani morreu. Uma distração. Essa era a parte que tinha sido deixada para
ele, e agora ela entendia. Ele morreria para ela fugir, muito nobre da parte
dele, apesar de Lucy achar um milhão de vezes estúpido e insensível. Ela ainda
teria que passar por todos os magos que vigiavam os portais, e não seria nada,
nada, simples.
Esses magos usavam um colar, Lucy conhecia, que detectava a
presença de Música, com letra maiúscula, nas imediações. Música com letra
maiúscula pode ser música, mas a recíproca não sempre é verdadeira. Música são
efeitos que causam emoções nas pessoas. Que alteram de alguma forma a mente, ou
o coração daqueles tocados por ela. Pode ser uma música, pode ser uma poesia,
pode ser uma escultura, uma pintura. Todas elas têm esse poder, que vem do
domínio de Arcana do Bardo, aquele que utiliza da Arcana proveniente das Brumas
de Sangue em forma de Música.
Ainda não estava tudo perdido. Existia uma forma de
utilizar a Música para se desvencilhar desses magos, mas era muito arriscado e
cansativo. A Música funciona em um indivíduo de cada vez. O esforço para fazer
com que mais um alvo seja influenciado pela mesma música é sempre o dobro para
cada novo alvo. Se o esforço é x para um alvo, para mais um esse esforço é 2x,
para 3 o esforço é 4x, para mais um esse esforço é 8x. Existiam 5 magos de
tocaia por perto, o que faria com que, usando os termos de antes, o esforço
fosse 16x. Muito mesmo. Além disso, todas as Músicas são registradas, em
Bsalom, já que esse é um reino bastante autoritário, nenhuma música com um
efeito indesejado poderia ser tocada dentro de seus limites. Qualquer padrão
que poderia ser reconhecido era detectável por esse dispositivo dos magos. Era
um acúmulo de problemas.
A solução era improvisar. Isso dobraria novamente o
esforço, fazendo com que todo o esforço que Lucy teria que fazer fosse 32x. E
isso antes de perder algum tempo aplicando a pasta no arco antes de atravessar.
O efeito era quase imediato, e alastrável. Se ela aplicasse um pouco na base do
arco, tudo racharia, e quando uma rachadura encostasse na outra, o arco inteiro
explodiria.
E então ela tinha de começar.
Os seus dedos começaram a dedilhar o seu baixo, com sua
palheta de diamante. Nenhum som era produzido por aquele instrumento, mas isso
era totalmente intencional. Lucy tinha a capacidade de fazer vibrações com o
seu instrumento que não era audível por meios tradicionais. Essa era a técnica
secreta da Sinfonia da Noite. Se a pessoa soubesse da existência de tal técnica
ela poderia ser facilmente notada. O som se misturava com o ar e produzia
lufadas de vento. Se a pessoa se focasse no vento ela poderia captar a vibração
e então ouvir, apesar de que bem baixo, a melodia. Muitas poucas pessoas sabiam
disso, fora da Sinfonia da Noite. Se essas pessoas fossem dedos, não
completariam os necessários para formar as duas mãos e os dois pés de um corpo
inteiro e saudável.
A Música que Lucy tocou pareceu funcionar, mas ela não
poderia parar até chegar na base dos portais. Cada portal tinha detalhes
diferentes, que os distinguiam, mas esses detalhes estavam nas partes internas
dele, bem embaixo. Quase onde a magia encostava na madeira. Lucy estava
procurando o número 368 nesses detalhes.
Todos os magos deixaram o ambiente por causa da música
improvisada de Lucy, e então ela teve espaço para começar a parte mais perigosa
do seu plano. Ela foi de portal em portal. Não tinha uma ordem clara entre
eles. O primeiro portal tinha os dizeres 7RTR5, o segundo eram só letras,
GGASE. E eles iam se misturando, até que Lucy chegou no sétimo portal. Lá
estava. 368.
Imediatamente, Lucy parou de tocar o seu baixo e, com
movimentos rápidos, fixou sua palheta em um cordão pendurado em seu pescoço, o
transformando em um bonito colar. Ela então tirou de suas vestes a pasta
explosiva. Ela tirou também umas luvas feitas com as paredes do intestino de
cães de rua. Ela precisava de uma simples proteção para que sua mão não
entrasse em contato totalmente com a pasta. Ela percebeu que a luva estava
começando a corroer.
No momento em que a luva com a pasta encostou um dos lados
do arco o alarme do lugar soou. Alto e claro. Alguém estava tentando escapar.
Para Lucy, o alarme era tão alto que ele poderia ser ouvido por todo o reino,
apesar de ela saber que isso poderia ser feito, por meios arcanos, ela não
estava tão convencida disso.
Assim que ela terminou de aplicar a pasta no outro lado do
arco, e ela pode ver as rachaduras começarem a aparecer, e as suas luvas se
desfazerem totalmente em sua mão, Lucy sentiu algo de encontro ao seu corpo e
dois braços surgirem na altura do seu peito.
Alguém estava dizendo para ela ficar parada. Obviamente,
Lucy não queria. O aperto não parecia tão forte. Pelas vestes daqueles braços,
aparentemente era um dos Magos que estava tentando segurá-la. O aperto era
firma, entretanto. Ela não conseguia se desvencilhar. E o portal rachava e rachava.
Ela tomou uma decisão rápida, a única decisão possível. Ela
subiu um de seus calcanhares e deu um coice nas bolas do mago. Funcionou. Lucy
estava livre, mas toda essa agitação fez com que a alça que segurava Francesca
nas costas de Lucy se rompesse.
O portal estava quase totalmente rachado, Lucy só teve
tempo de se virar rapidamente. Como se fosse a câmera lenta mais lenta do
mundo, Lucy viu aquela sala lotada de pessoas, preparadas para lançarem magias.
Ela conseguiu segurar Francesca bem no momento em que começava a atravessar o
portal, de costas.
Todo o restante aconteceu em instantes. Lucy atravessou o
portal, mas tudo o que via era aquele redemoinho amorfo e esverdeado no momento
em que atravessou. Mas do outro lado ela sentiu o cheiro do sal que Jaumani
tinha contado para ela. Ela viu o céu do dia, que não tinha todas aquelas
nuvens acinzentadas de Bsalom. Era verdadeiramente azul. Pela primeira vez,
Lucy viu a luz das quatro luas de Velynian de dia. Ela sorriu.
Antes de desmaiar de exaustão, a última coisa que ouviu foi
o efeito da pasta explosiva. O sopro de Drokona tinha que ser muito bom para
superar aquele barulho que ela ouviu.
Lucy não pode deixar de rir novamente antes de
ficar totalmente inconsciente.
