No pátio do Forte Hedryl,
o vazio reinava quase absoluto. Naquela manhã úmida, os pássaros não saíram de
seus ninhos e os soldados ainda tinham pelo menos mais uma hora de sono antes
de a primeira trombeta do dia soar alta na torre do pátio. Sozinho no alto da
muralha, Zander apenas ouvia o som das ondas quebrando contra o penhasco no lado
de fora, algumas dezenas de metros abaixo de seus pés.
Era um passatempo que
tinha, uma das coisas que mais lhe dava prazer. Sempre era o primeiro a
acordar, caminhava até a torre mais a oeste do forte, no lado em que as
muralhas encontravam o mar, escalava pelo lado de fora e se sentava no alto do telhado,
observando as ondas.
Zander gostava
especialmente das manhãs cinzentas como aquela, em que ele via um charme
incompreendido escondido naquelas alvoradas firas, que pareciam não ter o mesmo
efeito nas demais pessoas.
Ele esticou os braços a
frente do corpo, enquadrando o horizonte entre os dedos, imaginando a cena em
uma pintura. Deixou sua mente vagar por entre as ondas abaixo de si até se
perder em pensamentos melancólicos. Pensou em seus pais e se voltaria a vê-los
algum dia. Pensou em sua irmã e tentou imaginar como ela se pareceria hoje,
cinco anos depois.
Pensou em seu lar e em
mais um milhão de coisas até que seus pensamentos finalmente foram interrompidos
por uma voz feminina que ele não conhecia.
— Um dia você vai cair
daí! — Ele olhou para a direção de onde vinha a voz, virando a cabeça em um
movimento ágil. Logo abaixo da torre, encostada junto a uma ameia, uma jovem de
cabelos vermelhos observava o mar. — Às vezes vejo você aí, mas você nunca me
vê.
Zander viu seu rosto
quando ela se virou para lhe dirigir um sorriso amistoso. Ela tinha olhos cor
de mel e pele clara, com o rosto ornado por sardas na região das bochechas e do
nariz. Seus lábios eram pequenos e de um vermelho vivo. Ele desceu da torre e a
encontrou já de costas descendo as escadas da muralha para o pátio principal.
— Me
desculpe! Não era minha intenção ignorá-la!
— Tudo bem!
A vista é realmente mais chamativa do que eu. — ele se inclinou nas ameias para
vê-la melhor e do alto da muralha pôde ver um sorriso no rosto da garota. —
Qual o seu nome?
— Zander! E
o seu?
— É... — Zander
não conseguiu ouvir o nome dela, pois ao dizê-lo ela se virou e se pôs a correr
em direção aos aposentos dos servos ao mesmo tempo em que trombeta tocou anunciando
o inicio de seu turno. Ele teve que ir e se contentar em ter conseguido ver bem
seu rosto, na esperança de encontra-la posteriormente.
Zander
desceu e se dirigiu ao terceiro pátio de treinamento, onde ele e Magnus eram
encarregados da instrução de todo e qualquer novo recruta do forte. Seus
pupilos eram em geral jovens fazendeiros, gatunos ou fugitivos buscando refugio
da perseguição dos minotauros. Pastores de Cabras, Comerciantes, Moleiros e
Curtidores; Órfãos e ex-escravos e até filhos de antigas casas nobres. Eram
tudo, menos soldados, e seu dever era justamente fazer com que ao menos se
parecessem com um, antes de serem passados a instrutores mais experientes.
Ele deveria
mostrar àqueles novatos como era lutar, mas ao invés disso estava sentado com
os fundilhos na lama.
— Mas que
porra você está fazendo? — Magnus esticou a mão para Zander, que o olhou com
uma expressão abobalhada enquanto o outro continuava a falar em voz baixa —
Você é o instrutor, se me deixar chutar sua bunda assim esses moleques não vão
te respeitar.
Zander
segurou a mão do amigo e se levantou limpando a sujeira das calças. Olhou para
o sul, em direção ao mar e suspirou.
— Muito
bem, novatos, quem pode me dizer onde eu errei? Por que Magnus me derrubou com
tanta facilidade?
Sua voz
soava casual e em seu rosto estava o costumeiro sorriso. Um dos novatos era um
jovem magro e baixo, com feições femininas. Parecia tímido e retraído, mas mesmo
assim foi o primeiro a falar.
— Por
que... — Ele se interrompeu ao perceber que todos olhavam pra ele.
— Continue.
— Zander o olhava com um olhar sereno, passando-lhe confiança.
— Por que o
senhor estava distraído?
— Alguém
tem outro palpite? — Instigou seus alunos em busca de mais teorias, os
incentivando a falar mais.
— O senhor
Magnus é mais forte que o senhor? — Uma voz soou em meio às fileiras e Zander
procurou o interlocutor. Com um sorriso, ele tentava deixar claro que poderiam
falar o que quisessem, porém nenhuma nova resposta veio de seus recrutas.
— Heron,
venha até aqui. — um jovem alto e de olhar confiante deu um passo a frente e
prestou continência ao jovem oficial. — Pegue sua espada.
Magnus
sorriu e se recostou num pilar de madeira ali perto.
Heron era
um palmo mais alto do que Zander e seus músculos eram bem desenvolvidos,
provavelmente fruto de uma juventude nos arados de uma fazenda da região.
Zander deu o sinal para
que ele fizesse o movimento que lhe fora mostrado, se posicionou e esperou o
jovem, que o atacou repetindo um golpe por cima. Seus movimentos eram rústicos
e amadores, mas mesmo assim Zander ao invés de desviar ficou e aparou o golpe
com sua espada de treino. Heron segurava a arma com as duas mãos e colocava
todo seu peso naquele golpe, porém seu professor parecia suportar toda aquela
pressão sem fazer muito esforço.
— Errado. — Zander sorria
— Como podem ver isso não tem nada a ver com força. Magnus me derrubou por que
eu me desconcentrei. — Com um movimento rápido e preciso, ele saiu do golpe do
jovem fazendeiro que acertou com violência o solo de pedra fazendo com que seu
braço vibrasse incomodamente, ao passo que após um giro rápido ao redor do
corpo do recruta, Zander deu um leve toque em sua nuca com a ponta da espada. —
Assim como você agora, Heron.
Zander bateu amigavelmente
no ombro do jovem e o dispensou, se virou para o jovem de rosto delicado e lhe
deu uma piscadela de cumplicidade antes de prosseguir com seu discurso.
— Tenham isso em mente! Concentração
é muito importante em um combate, nunca se deixem distrair, pois isso pode
significar algo pior do que ser derrubado da lama.
Magnus acenou
positivamente com a cabeça.
Zander sorriu e se voltou
para seus recrutas na intenção de retornar o treinamento, quando seus olhos
cruzaram o portão principal e por entre as grades pôde ver a jovem de cabelos
vermelhos daquela manhã. Ela estava caminhando em quanto levava uma cesta cheia
de flores e acompanhava uma comitiva de soldados e serviçais do forte e em sua
perna direita viu uma corrente quebrada em volta do tornozelo.
— Magnus, assuma o treino
de hoje, por favor, preciso fazer uma coisa. — Ele não ouviu a resposta, pois
antes que ele mesmo percebesse, seu corpo corria em direção ao portão.
Estava
quase chegando quando uma sombra entrou em seu caminho e ele se chocou contra o
corpo solido e maciço de Sir Maximo Mossgrain.
— Você não deveria estar
treinando os novatos?
Seu tom de voz era grave e
sua expressão era severa.
— Sim, mas...
— Não há “mas”. Volte para
seu dever.
Zander o olhou com o rosto
sério e depois para além dele, apenas para descobrir que havia perdido a chance
de falar com a garota novamente. Resignado, preferiu não discutir e com um
suspiro deixou os ombros relaxarem.
— Sim senhor.
Naquele dia Magnus o
derrubou mais duas vezes. E ele frustrado derrubara os recrutas outras vinte
mais. Nos dias seguintes ele esteve no alto da muralha, mas ela não voltou.
Naquela tarde chuvosa uma
semana depois, ele assistia enquanto Fyr o jovem de feições femininas treinava com
Heron. Ambos aprendiam rápido e logo mais seriam repassados para treinar com o
restante dos cadetes.
— Mais força, Fyr.
— Não mova tanto o
quadril, Heron.
Ele e Magnus davam as
instruções enquanto a chuva açoitava todos incessantemente.
Após uma hora de instruções e lamentos, o treino
acabou e ele foi se sentar em um banco de madeira protegido da chuva. Em outra
guarnição à frente, Magnus se recostava na parede e acendia um cigarro,
enquanto ao seu lado, Jorah, um dos guardas do forte limpava as botas sentado
em um latão. Zander podia vê-los conversando, mas sua mente não estava ali. Em
sua mente só havia as correntes no tornozelo da garota ruiva de quem não sabia
o nome.
