Diário de Campanha || Problemas no Forte Hedryl #1


PRÓLOGO

No pátio do Forte Hedryl, o vazio reinava quase absoluto. Naquela manhã úmida, os pássaros não saíram de seus ninhos e os soldados ainda tinham pelo menos mais uma hora de sono antes de a primeira trombeta do dia soar alta na torre do pátio. Sozinho no alto da muralha, Zander apenas ouvia o som das ondas quebrando contra o penhasco no lado de fora, algumas dezenas de metros abaixo de seus pés.
Era um passatempo que tinha, uma das coisas que mais lhe dava prazer. Sempre era o primeiro a acordar, caminhava até a torre mais a oeste do forte, no lado em que as muralhas encontravam o mar, escalava pelo lado de fora e se sentava no alto do telhado, observando as ondas.
Zander gostava especialmente das manhãs cinzentas como aquela, em que ele via um charme incompreendido escondido naquelas alvoradas firas, que pareciam não ter o mesmo efeito nas demais pessoas.
Ele esticou os braços a frente do corpo, enquadrando o horizonte entre os dedos, imaginando a cena em uma pintura. Deixou sua mente vagar por entre as ondas abaixo de si até se perder em pensamentos melancólicos. Pensou em seus pais e se voltaria a vê-los algum dia. Pensou em sua irmã e tentou imaginar como ela se pareceria hoje, cinco anos depois.
Pensou em seu lar e em mais um milhão de coisas até que seus pensamentos finalmente foram interrompidos por uma voz feminina que ele não conhecia.
— Um dia você vai cair daí! — Ele olhou para a direção de onde vinha a voz, virando a cabeça em um movimento ágil. Logo abaixo da torre, encostada junto a uma ameia, uma jovem de cabelos vermelhos observava o mar. — Às vezes vejo você aí, mas você nunca me vê.
Zander viu seu rosto quando ela se virou para lhe dirigir um sorriso amistoso. Ela tinha olhos cor de mel e pele clara, com o rosto ornado por sardas na região das bochechas e do nariz. Seus lábios eram pequenos e de um vermelho vivo. Ele desceu da torre e a encontrou já de costas descendo as escadas da muralha para o pátio principal.
— Me desculpe! Não era minha intenção ignorá-la!
— Tudo bem! A vista é realmente mais chamativa do que eu. — ele se inclinou nas ameias para vê-la melhor e do alto da muralha pôde ver um sorriso no rosto da garota. — Qual o seu nome?
— Zander! E o seu?
— É... — Zander não conseguiu ouvir o nome dela, pois ao dizê-lo ela se virou e se pôs a correr em direção aos aposentos dos servos ao mesmo tempo em que trombeta tocou anunciando o inicio de seu turno. Ele teve que ir e se contentar em ter conseguido ver bem seu rosto, na esperança de encontra-la posteriormente.
Zander desceu e se dirigiu ao terceiro pátio de treinamento, onde ele e Magnus eram encarregados da instrução de todo e qualquer novo recruta do forte. Seus pupilos eram em geral jovens fazendeiros, gatunos ou fugitivos buscando refugio da perseguição dos minotauros. Pastores de Cabras, Comerciantes, Moleiros e Curtidores; Órfãos e ex-escravos e até filhos de antigas casas nobres. Eram tudo, menos soldados, e seu dever era justamente fazer com que ao menos se parecessem com um, antes de serem passados a instrutores mais experientes.
Ele deveria mostrar àqueles novatos como era lutar, mas ao invés disso estava sentado com os fundilhos na lama.
— Mas que porra você está fazendo? — Magnus esticou a mão para Zander, que o olhou com uma expressão abobalhada enquanto o outro continuava a falar em voz baixa — Você é o instrutor, se me deixar chutar sua bunda assim esses moleques não vão te respeitar.
Zander segurou a mão do amigo e se levantou limpando a sujeira das calças. Olhou para o sul, em direção ao mar e suspirou.
— Muito bem, novatos, quem pode me dizer onde eu errei? Por que Magnus me derrubou com tanta facilidade?
Sua voz soava casual e em seu rosto estava o costumeiro sorriso. Um dos novatos era um jovem magro e baixo, com feições femininas. Parecia tímido e retraído, mas mesmo assim foi o primeiro a falar.
— Por que... — Ele se interrompeu ao perceber que todos olhavam pra ele.
— Continue. — Zander o olhava com um olhar sereno, passando-lhe confiança.
— Por que o senhor estava distraído?
— Alguém tem outro palpite? — Instigou seus alunos em busca de mais teorias, os incentivando a falar mais.
— O senhor Magnus é mais forte que o senhor? — Uma voz soou em meio às fileiras e Zander procurou o interlocutor. Com um sorriso, ele tentava deixar claro que poderiam falar o que quisessem, porém nenhuma nova resposta veio de seus recrutas.
— Heron, venha até aqui. — um jovem alto e de olhar confiante deu um passo a frente e prestou continência ao jovem oficial. — Pegue sua espada.
Magnus sorriu e se recostou num pilar de madeira ali perto.
Heron era um palmo mais alto do que Zander e seus músculos eram bem desenvolvidos, provavelmente fruto de uma juventude nos arados de uma fazenda da região.
Zander deu o sinal para que ele fizesse o movimento que lhe fora mostrado, se posicionou e esperou o jovem, que o atacou repetindo um golpe por cima. Seus movimentos eram rústicos e amadores, mas mesmo assim Zander ao invés de desviar ficou e aparou o golpe com sua espada de treino. Heron segurava a arma com as duas mãos e colocava todo seu peso naquele golpe, porém seu professor parecia suportar toda aquela pressão sem fazer muito esforço.
— Errado. — Zander sorria — Como podem ver isso não tem nada a ver com força. Magnus me derrubou por que eu me desconcentrei. — Com um movimento rápido e preciso, ele saiu do golpe do jovem fazendeiro que acertou com violência o solo de pedra fazendo com que seu braço vibrasse incomodamente, ao passo que após um giro rápido ao redor do corpo do recruta, Zander deu um leve toque em sua nuca com a ponta da espada. — Assim como você agora, Heron.
Zander bateu amigavelmente no ombro do jovem e o dispensou, se virou para o jovem de rosto delicado e lhe deu uma piscadela de cumplicidade antes de prosseguir com seu discurso.
— Tenham isso em mente! Concentração é muito importante em um combate, nunca se deixem distrair, pois isso pode significar algo pior do que ser derrubado da lama.
Magnus acenou positivamente com a cabeça.
Zander sorriu e se voltou para seus recrutas na intenção de retornar o treinamento, quando seus olhos cruzaram o portão principal e por entre as grades pôde ver a jovem de cabelos vermelhos daquela manhã. Ela estava caminhando em quanto levava uma cesta cheia de flores e acompanhava uma comitiva de soldados e serviçais do forte e em sua perna direita viu uma corrente quebrada em volta do tornozelo.
— Magnus, assuma o treino de hoje, por favor, preciso fazer uma coisa. — Ele não ouviu a resposta, pois antes que ele mesmo percebesse, seu corpo corria em direção ao portão.
Estava quase chegando quando uma sombra entrou em seu caminho e ele se chocou contra o corpo solido e maciço de Sir Maximo Mossgrain.
— Você não deveria estar treinando os novatos?
Seu tom de voz era grave e sua expressão era severa.
— Sim, mas...
— Não há “mas”. Volte para seu dever.
Zander o olhou com o rosto sério e depois para além dele, apenas para descobrir que havia perdido a chance de falar com a garota novamente. Resignado, preferiu não discutir e com um suspiro deixou os ombros relaxarem.
— Sim senhor.
Naquele dia Magnus o derrubou mais duas vezes. E ele frustrado derrubara os recrutas outras vinte mais. Nos dias seguintes ele esteve no alto da muralha, mas ela não voltou.
Naquela tarde chuvosa uma semana depois, ele assistia enquanto Fyr o jovem de feições femininas treinava com Heron. Ambos aprendiam rápido e logo mais seriam repassados para treinar com o restante dos cadetes.
— Mais força, Fyr.
— Não mova tanto o quadril, Heron.
Ele e Magnus davam as instruções enquanto a chuva açoitava todos incessantemente.
Após uma hora de instruções e lamentos, o treino acabou e ele foi se sentar em um banco de madeira protegido da chuva. Em outra guarnição à frente, Magnus se recostava na parede e acendia um cigarro, enquanto ao seu lado, Jorah, um dos guardas do forte limpava as botas sentado em um latão. Zander podia vê-los conversando, mas sua mente não estava ali. Em sua mente só havia as correntes no tornozelo da garota ruiva de quem não sabia o nome.




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