Sepulcro Gélido

Arte por: ~Alexandoria~

I

– Alto lá! Quem vem aí? – Falou o encardido guarda debaixo da grossa chuva.
Uma figura encapuzada sobre um corcel negro parou em frente ao guarda. Sem falar nada ele fixou o olhar no guarda, que pensara ver uma mecha clara por debaixo do capuz. Não tinha certeza se vira certo, pois o capuz dificultava demais a visão. Uma voz firme saiu como um trovão em direção ao guarda.
– E faz diferença? – Disse de forma ríspida e rude.
O guarda engoliu a seco a falta de cordialidade, apertou um pouco mais sua azagaia no chão e falou de forma ríspida, se controlando o máximo para não explodir de raiva.
– Claro que sim, caralho! Quer ser preso, porra? – Mal conseguia se conter.
O encapuzado ficou quieto por um momento. A tensão era visível, tão grossa que poderia ser cortada com a espada reluzente nas costas do rapaz. Aliás, uma das espadas, pois o guarda logo confirmara com um rápido olhar mais três armas. Duas em sua cintura e uma sobressalente nos alforjes. Um barulho estridente, causado por um trovão, acabou com a tensão no ar ao fazer o guarda se assustar. Ele perdeu a compostura, mas pôs-se em sentido de novo. Irritado pelo silêncio, apontou sua azagaia para o corcel do encapuzado.
– Se não falar quem caralhos és tu eu matarei seu alazão e te prenderei! – Cuspiu no chão.
Olhos prata atravessaram seu olhar de tal forma que pareciam duas adagas pendurando folhas de papel. O encapuzado se ajeitou na cela e disse.
– Um Pietra...
O guarda arregalou os olhos de tal forma que parecia ter ouvido o nome do próprio demônio. Sua respiração parou por um segundo, apertou sua azagaia e a desceu ao chão na hora. Ele se segurou para não cambalear com a perna esquerda, que tremia a essa altura.
– Pi-Pi-Pietra? Ora, você de-deve e-estar de gozação! Só p-pode!
O encapuzado tirou por um instante a manga comprida que cobria seus pulsos. No esquerdo, uma tatuagem conhecida como o símbolo negro, uma marca passada por gerações pelos Pietras, uma família nobre importantíssima de Mystical, formada por meio dragões negros, em quase sua maioria. O Guarda gelou. Tentou engolir seco a situação e falhou miseravelmente. O suor começou a descer de sua face, como uma catarata de Gramorn.
– M-Me d-d-d-desculp-pe, se-senhor Pi-pi-pietra! – Falou gaguejando tanto que parecia que sempre fora assim.
– Apenas cale a maldita boca e saia da minha frente. Tem sorte de eu não ser meu pai! – O Encapuzado falou de tal forma que o guarda soltara, mesmo com muito esforço, um peido molhado em sua armadura.
O guarda não conseguiu responder. Não tinha como. Apenas saiu da frente e deixou o encapuzado seguir seu caminho.
  

II

– Ei ei ei ei! EI! EI VOCÊ AI! O QUE VOCÊ DISSE DA MINHA MULHER? – Disse um bêbado gritando a todos pulmões para um anão do outro lado da taverna.
– DISSE QUE ELA É UMA PUTA SEM MÃE! POR QUÊ? – Gritou o anão em retruca.
– VOU LHE ENFIAR A PORRADA! – O homem saiu correndo para cima do anão.
– PODE VIR, VIADO! – Gritou o anão, pegando um banco a sua frente.
– Argh! Todo dia tem briga nessa porra de taverna! – Disse um jovem ruivo.
– Todo dia mesmo? Eles não cansam? – Respondeu o não mais encapuzado misterioso. Um jovem de cabelos tão claros que chegavam a ser prata, uma pele branca como a neve, sobrancelhas e barba por fazer de coloração negra e olhos quase brancos, cinzas puxados para o prata.
Vestia uma armadura que mais parecia uma veste de festa, porem era pesada. Ouviu-se o ranger da cadeira ao se sentar nela, como se fosse um grito de dor da madeira. Suas armas não se faziam presentes no momento, repousavam confortáveis num quarto nessa mesma taverna; Suas botas carregavam a areia gelada da região; Ele ostentava também uma bela capa branca adornada em dourado com o símbolo de Ghrian, o deus-sol, nela.
Sua estatura era média, apesar de ser um meio dragão não era muito grande. Suas asas recolhidas repousavam na cadeira de modo tão bonito que pareciam estar dormindo, negras, grandes e vistosas. Asas de dar inveja a qualquer dragonete do mundo que vivia.
– Não, não mesmo! Todo dia alguém ofende alguém aqui. Por isso essa cidade de merda não cresce! – Falou, irritadiço, o rapaz ruivo. Era jovem, devendo ter seus 19 anos, ostentava um singelo bigode, que mais parecia uma linha ruiva em seu rosto, vestia roupas simples de pescador e andava descalço.
– Isso deve ser chato! Porém, devo dizer que uma taverna sem briga não é uma taverna, meu amigo! – O jovem meio dragão falou com um sorriso no rosto.
A taverna era simples, pequena e toda de madeira. Tinha um balcão apenas e algumas mesas não mais que uma dezena, alguns quartos no andar de cima, quartos simples e pequenos, com camas de solteiro apenas. E nos melhores deles uma cômoda com um balde d’água, para lavar o rosto, e uma singela toalhinha.
– Isso é verdade! Mas me diga amigo, o que fazes aqui nesse fim de mundo? Vejo que tens dinheiro. Nunca tinha visto uma coroa de platina antes! – Falou o rapaz ruivo bebericando sua caneca de cerveja.
– Estou só de passagem, caro Ruppert. Estou indo para o norte, mais precisamente Yenrry. E alias, o que achou da coroa de platina? – Sorrindo pegou sua caneca.
– Linda! Sem mais. Linda de morrer com toda a certeza! Bom, pelo menos mais bonita que minha esposa! MUITO MAIS. – Falou, sorrindo de forma descarada.
O rapaz de roupas finas riu alto e olhou para sua caneca até o riso sumir.
– Ruppert, me diga. Por quê casaste tão jovem?
– Ora, simples, meu querido! Eu a engravidei. – Riu de forma estridente.
O jovem riu alto de novo e ao fundo um som alto de um grito interrompeu a risada dos dois.
– CHUTA A CARA DELE! – Uma voz perdida gritava isso de forma louca e escandalosa.
Os dois riram até doer a barriga, porém em instantes o riso foi cortado pela queda brusca e repentina de Ruppert no chão. Era o anão furioso da briga, e com a risada dos dois, achando que estavam ridicularizando ele, e toda sua raça.
– QUEREM APANHAR TAMBÉM, SEU PAR DE VIADO? – Exclamou de forma raivosa o anão.
O Jovem bem afeiçoado parou de rir na hora. Seu humor mudara repentinamente, como se fosse da tranquila e calma poça d’água numa estradinha de terra para uma tormenta violenta em alto mar. Fixou o olhar furioso no anão e não se moveu.
– O QUE FOI, SUA ABERRAÇÃO? MACHUQUEI O NAMORADINHO? – Gritou, apontando o dedo para o rapaz.
O jovem não se moveu, nem respondeu. Ficou apenas parado, encarando o anão com olhos tão frios que mesmo um dragão branco sentiria o gelo de sua alma.
Repentinamente uma voz firme e ríspida surge de sua boca.
– Cale a boca. Você não passa de um inútil, cuja vida é tão miserável que precisa machucar outras pessoas e criar balburdias em tavernas para se sentir parte de algo. – Falou de jeito soturno.
O anão enrubesceu-se totalmente de raiva e gritou.
– QUERO VER REPETIR ISSO! VAMOS! NA MINHA CARA! – Partiu para cima do rapaz, levantando a mesa com um ágil e violento movimento.
O rapaz foi tão rápido que o anão nem vira o momento que o jovem passara por debaixo da então arremessada e rodopiante mesa, parou em frente o anão e com uma joelhada tão rápida quanto um trovão, fazendo com que o anão cuspisse sangue num acerto certeiro na boca de seu estomago.
– M-Maldito – Falou com dificuldade curvado cuspindo sangue o anão.
O meio dragão o olhou e o ergueu com uma força descomunal do chão, passando em muito o seu ombro, deixando o anão com as pernas suspensas balançando no ar.
– Cale a boca. Você não passa de um inútil, cuja vida é tão miserável que precisa machucar outras pessoas e criar balburdias em tavernas para se sentir parte de algo. – Falou de forma pausada e calma, o que nada condizia com a brutalidade em seu olhar, parecia um demônio se o olhassem.
– Assim está de bom tamanho seu verme? Ou preciso soletrar cada letra para você, enquanto arranco seus dentes?
O anão respondeu da forma mais vergonhosa possível. Com um gemido baixo de medo, visível sua cara de espanto, nunca virá nada tão rápido quanto o ser que ali o humilhava.
– Ora...O gato comeu a sua língua? – Disse o rapaz.
A taverna sorveu num silêncio tão audível que até as gostas de cerveja que pingavam do barril ao fundo do balcão podiam ser ouvidas. Depois de um breve tempo o rapaz derrubou o anão o soltando. O mesmo despencou e caiu no chão, se arrastando depressa para fora da taverna.
– Um aviso... Só tenho um aviso... Se forem brigar, briguem, se matem, se xinguem. Mas não envolvam nunca pessoas que estão apenas se divertindo, rindo e tomando uma bebida em boa companhia. Eu fui clemente hoje, mas se eu entrar nessa taverna e for importunado de novo, eu juro por Ghriam que quebrarei a perna de todos os envolvidos em tantas partes que precisaram de um clérigo de Kur só para pararem de gritar de dor. ESTEJAM AVISADOS.
O rapaz estendeu a mão para o Ruppert ainda caído e pasmo com o ocorrido.
– Vamos, amigo. Levante! – Ergueu o rapaz.
– Ele é o demônio! Olha as asas dele. – Gritou uma senhora de trás da multidão que o rondava.
O rapaz torceu o rosto. Ruppert, vermelho de raiva, soltou um palavrão e disse.
– Ele parou com a putaria das brigas aqui e é assim que tratam ele? Ele não é um demônio. É apenas alguém que pôde dar cabo nas fanfarradas de Jorge, aquele anão filho de uma cadela!
O povo ficou quieto novamente.
– Qual o seu nome amigo? – Disse Ruppert de modo gentil.
– Adell.



III

– O-o-olá, senhor campeão do Deus sol. – Disse uma jovem meia elfa cobrindo o rosto de vergonha.
O rapaz não respondeu. Continuou ajeitando suas coisas em seus alforjes.
– Vamos, Adell! Dê oi para a mocinha. Ela queria muito te conhecer. – Ruppert olhou com dó para a moça ignorada.
As asas negras se abriram de forma leve, como se estivessem se esticando. Um pequeno estalar pode ser ouvido das juntas da asa. O rapaz se virou e olhou com um olhar cansado para a moça.
– Olá.
– M-meu nome é...é Lyfia. – Disse com dificuldade.
– A Lyfia queria muito ver e dizer obrigada ao cara que deu uma lição no Jorge! Sabe, aquele anão cretino vivia se aproveitando dela. Passava a mão sempre que podia na sua bunda, cuspia nela. Enfim, abusos e mais abusos. – Disse Ruppert com a mão no peito.
– Bom saber que fui útil. Porém, acho que causei mais problemas do que ajudei. – Disse o rapaz, olhando para uma comitiva de anões vindo em sua direção.
– Filho da...
Fora interrompido pelo anão da frente.
– O senhor Adell – Cuspiu no chão. – Está intimado para falar com o xerife da cidade. Alegação, humilhou, bateu e começou uma briga com o senhor Jorge Fortares. Esperamos que vá agora mesmo a prefeitura. – Disse o anão encarando Adell de forma soturna.
– Onde fica a prefeitura? – Disse um quase sem paciência meio-dragão negro.
– Por aqui. Nos siga, seu arruaceiro! – O anão faz um gesto enquanto os outros pegaram seus machados de forma a intimidar Adell.
– Guardem isso. Não será necessário usa-los! – Fala calmamente.
– Pois bem! Então, venha. – O anão faz um gesto para Adell e o mesmo o segue.
O grupo passa por casas quase em ruinas, verdadeiros barracos de madeira, todos caindo aos pedaços, onde alguns pode se ver a água do mar entrando pelo piso. Andam por uma pequena trilha e chegam ao centro da cidadela, um amontoado de casinhas de madeira mais bonitas, porem de certo modo modestas ainda.
A prefeitura era um casarão de pedras cinzas, não tão grande quanto as outras, no alto de um pequeno morro. Era a única da cidade feita de pedras e a mais alta, podendo assim se ter uma vista de toda a cidadezinha.
– Espere aqui. – Disse o anão apontando para um banco logo na entrada da prefeitura.
– Tudo bem. – Sentou-se desconfortavelmente no banco, pois o mesmo era muito próximo da parede, deixando suas asas exprimidas contra as pedras da parede.
Depois de algum tempo o mesmo anão volta e chama Adell de forma grosseira, apontando com descontentamento uma sala, onde um aroma de vinho bem forte saía. Adell se levanta de forma polida, o agradece e vai até a saleta. Chegando lá vê uma sala escura, de pedras cinzas, cheia de cabeças de animais selvagens, empalhadas no alto como se fossem um troféu.
Uma lareira estava acesa e iluminava de forma sem graça o ambiente, tão frio quanto o próprio dono. Um anão que se sentava a mesa de forma largada, já visivelmente bêbado, brincando com uma besta de forma irresponsável. Usava roupas chiques, chiques demais para a cidade que vivia, e em sua mesa amontados de papeis. Ao entrar, o anão se distrai e solta um virote em direção ao rapaz, que rapidamente se desvia do projetil, que vinha em linha reta diretamente no seu olho esquerdo. Com um movimento rápido para a direita evita graciosamente o que se tornaria trágico.
– EITA PORRA! – Exclamou o anão, assustado com o que fez.
Adell fecha os olhos e puxa toda a paciência que ainda sobrou em seu amago. Fechando sua mão e apertando forte, um sonoro estalar ecoou pelas paredes.
– Tenha mais cuidado, por favor, senhor xerife! – Falou com voz tremula.
– XERIFE! XERIFE! O SENHOR ESTÁ BEM? O QUE FEZ COM ELE, SUA ABERRAÇÃO? - Falou o anão que buscara Adell na frente da taverna, pegando um punhal de sua bota.
– CALE A MALDITA MATRACA, ALFRANEO! FOI UM ACIDENTE, NÃO VIU? O RAPAZ QUASE PERDEU O OLHO, SEU IDIOTA! – Gritou de forma escandalosa.
– D-desculpe, senhor! Eu achei que ele tinha lhe atacado. – Disse Alfraneo, se encolhendo na porta.
– SUMA LOGO DAQUI! ANTES QUE TAQUE ESSA GARAFA DE RITA-CRIZ EM SEU CU! – Gritou a todos os pulmões, de forma que ficou vermelho pelo esforço.
– S-sim, senhor! – Correu para fora da sala.
O anão ficou um tempo imóvel olhando a porta. Se Alfraneo aparecesse por lá de novo tinha certeza que o acertaria com uma bola de ferro pintada de dourado, que servia peso de papel, bem no meio da cabeça.
Ficou um tempo sem nem mexer o volumoso bigode, que por fim mexeu de forma contorcida e nada graciosa, causando uma cocega que culminou num espirro.
– Vamos, garoto! Sente ai. Quero falar com você. – Falou de rosto virado, com uma das mãos na cara por conta do espirro. A outra mão fazia gestos, que nada condiziam com o que dizia.
Adell, sem responder, se sentou na cadeira a frente da grande mesa onde o anão se sentava do outro lado.
– Primeiramente. Não, você não está sendo preso. Segundo. Você não é inocente também! E terceiro... CARALHO, VOCÊ É RÁPIDO! – Falou o anão de forma rápida e mole.
– Primeiro. Obrigado. Segundo. Eu já sabia que isso aconteceria! Terceiro, obrigado novamente. – Falou o rapaz de olhos fechados e de forma pausada e serena.
O anão ficou quieto por um instante. De repente explodiu numa gargalhada alta e sem fim, parando apenas quando ficou sem folego.
– Gostei de você, moleque! O Jorge bem que mereceu uns tapas. Ele é muito folgado e totalmente nervosinho.
Adell não respondeu.
– Mas, sabe. Se eu deixar viajantes baterem em meus empregados, por mais que estejam certos, eu vou acabar me complicando. Está entendendo? - Falou o anão servindo mais uma caneca de sua tão amada Rita-Criz, uma bebida nova na região inventada pela não tão amada Rita. Uma cultivadora de uvas que decidiu um dia misturar vinho ao leite, gostou do resultado e a fama pegou rápido.
– Bebes comigo? – Falou o anão, olhando para a caneca nova servida.
– Tenho escolhas? – Disse o rapaz, abrindo os olhos de forma lenta e vagarosa.
– Na verdade tem! Ser cuzão ou não vai de você, meu amigo. – O anão mudou para uma expressão dura e fria.
Adell pegou a caneca e deu um gole grande, lambendo os lábios molhados em seguida. O anão riu e mudou para uma aparência amigável e festiva em questão de segundos.
– Sabia! Sabia que você não era esse cuzão de pai e mãe que Jorge me pintou.
– Eu sou só com quem merece, xerife. – Disse Adell, estendendo a mão com um sorriso no rosto.
– Francis. Francis Elstract. – Apertou a mão do rapaz com um aperto forte e animado, combinado com um sorriso de orelha a orelha.
– Adell, Pietra. – Falou o rapaz, devolvendo a cordialidade.
O anão parou por um instante com cara de pasmo.
– Um Pietra? É raro termos um nobre em nossa cidade! – Falou, espantado.
Adell torceu a boca, se encostando na cadeira de volta.
– Ora ora, senhor Pietra! Me desculpe o engano e tal. Mas mesmo assim eu não posso deixar essa briga no bar passar em branco, não é? – Se recostando na cadeira também.
– Vá, homem! Fale logo o que quer de mim. – Adell cruza os braços e olha impaciente para o xerife.
– Assim que eu gosto! Direto ao ponto. – Deu uma golada em sua caneca. – Bom. Eu preciso cobrar os impostos de uma pequena vila de camponeses que tem aqui perto e você fara isso para mim! – Disse o anão, mexendo em seu bigode.
– Não confias no Jorge? – Falou de forma ríspida Adell.
– Não. E nem em você! Por isso irá com ele. Dois de meus homens, e o seu amiguinho Ruppert, e aquela putinha da Lyfia também. – Falou o anão de forma grossa.
– Por que eles juntos? Quem bateu no seu empregado está aqui na sua frente. – Adell apertou o próprio cotovelo para manter-se calmo.
– Porque eu quero, caralho! Ruppert dando uma de defensor de estrangeiros na taverna e aquela piranha foi pega pelo Melias, um empregado meu, falando mal de mim. Então todos vão pagar sua dívida comigo! – Falou o anão de forma grosseira e alta.
– E você? Ah não. Me desculpe. Você é quem dar as ordens. – Falou um Adell quase sem paciência.
– Bom. Se queres tanto, eu irei também! Afinal eu dou as ordens sim. E faço o que bem entender nessa porra de cidade! – Bateu a mesa na mão de forma violenta.
Adell quase se descontrolou, um milagre o salvou de não perder as estribeiras, ao invés disso bufou, respirou fundo e falou de forma vagarosa.
– Quando iremos?
– Hoje mesmo.
– Pois bem! – Falou o rapaz. – Irei preparar o meu cavalo, se assim me permitir. – Falou, fazendo uma mesura enquanto se levantava.
– Vá! Esteja pronto dentro de uma hora e meia. E, garoto! – Falou o anão segurando o braço de Adell.
– Diga... Xe-rife – Adell quase que paralisado para não explodir falou de forma grosseira, porém pausada.
– Eu gosto do seu jeito! Porém, não confio em você nem para foder minha cabra, está me entendendo? Se tentar pensar em fazer bosta, eu te tranco num calabouço por aqui e arranco suas asas. – Falou o anão de forma soturna e fria.
– Não farei nada de errado. Espero que saiba disso! Nada. – Com uma voz tão grossa e ríspida que parecia ser outra pessoa ao falar.
A tensão era tão grande no ar que poderiam se ouvir respirando de forma acelerada e pesada. O anão soltou o braço de Adell e esse por sua vez saiu arrumando sua roupa da sala, se dirigindo para fora da prefeitura, com passos apressados e firmes. Um bardo alegre que cantava do lado de fora da taverna gentilmente fez uma mesura pro rapaz e disse.
– Olá jovem! Gostaria de ouvir uma música?
– Vai tomar no seu cu! – Falou Adell de forma irritada.


IV

– Finalmente chegamos nessa maldita vila! – Exclamou cansado Ruppert, se agarrando forte ao seu casaco surrado.
– Cale a boca, Ruppert! Você, mesmo nesse frio, não para de falar! Puta merda! – Gritou Jorge, irritado e com a barba cheia de gelo devido a neve que caia.
Adell permanecia calado em sua égua, que levava ele e Lyfia, que se sentava entre ele e as rédeas.
– Senhor Adell? O senhor está bem? – Falou, de forma tímida, a menina.
Adell não respondeu. Ficara calado o caminho inteiro. Sempre de olho no xerife e em Jorge, desconfiado e alerta. O frio mal o atingia. Estava com uma roupa impossível para uma pessoa comum trajar em meio a tanto frio.
– A garota humilde, da porca Kevhand, tentando laçar o nobre Pietra. Vejam isso pessoal! Pode? – Riu Alfraneo de forma perversa e gozadora da pequena Lyfia.
Todos os anões explodiram numa gargalhada estrondosa. Ridicularizaram Lyfia, mandaram beijinhos, assoviaram, falaram todos os tipos de imundice possível para a garota. Porém em um momento o quieto e quase imóvel meio dragão virou o rosto de forma leve até a altura do ombro ficando de perfil. Seu olhar, mesmo que de lado, era frio, impetuoso e claramente mostrava descontentamento com o comportamento do grupo.
Ruppert já vira esse olhar antes e certamente o temia. Logo avançou um pouco o cavalo para uma das cabanas para não sobrar para ele. Todos os anões pararam de rir de imediato, um silêncio mortal tomou conta do grupo. Lyfia mesmo com medo se sentiu aliviada e deitou a cabeça no ombro de seu protetor. O primeiro a quebrar o silêncio foi o xerife.
– Cale a boca, Alfraneo! – Falou de forma curta e grossa com olhar fixo em Adell.
– Sim, senhor! – Respondeu com voz tremula o anão.
Todos chegam a vila e encostam seus cavalos numa cabana um pouco maior. Adell desce e ajuda Lyfia a descer também, a pegando no colo. Os anões descem também e o silêncio é interrompido mais uma vez por Ruppert.
– Onde ficaremos? Está muito frio para colher agora os tributos, além de já estar anoitecendo.
– Sim. Por isso será você, a puta e Adell que farão a coleta enquanto ficaremos aqui na fazenda do velho Albert. – Falou Jorge levantando o dedo de forma desajeitada.
– Nós? Não somos coletores senhor e... – Fora interrompido.
– Agora são. Vão antes que eu meta um chute na bunda de cada um de vocês.
– Diz o xerife se encolhendo em seu bem adornado casaco.
– Mas senhor... – Fora interrompido novamente.
– Vamos, Ruppert. Não adianta falar com eles. Pegue o meu casaco e tudo ficara bem. – Diz Adell de forma serena, porém firme.
– Tudo bem se insistes, Adell.
Ruppert pega o casaco do guerreiro e fica olhando enquanto ele retira um colar de seu pescoço e coloca o mesmo em Lyfia. A meia elfa ruiva de olhos verdes fica encantada com o colar. Acha que é um presente e nem entende o porquê de ter recebido tal agrado. Sua pele, extremamente branca, combina com o dourado e o símbolo do sol no colar ornado com uma pedra vermelha ao centro, lindíssima.
A visão do colar reluzente caído sobre os belos e fartos seios da jovem hipnotiza Ruppert por um certo tempo. A jovem logo entende que não era uma joia comum, sentindo um calor intenso, porem reconfortante. Parecia que não estava no rigoroso inverno do norte de Mystical e sim no quente verão de Krismoril.
– O que é esse calor que sinto? – Falou, fitando Adell intensamente nos olhos.
– É A VONTADE DE DAR! – Gritou Jorge ao fundo.
Os anões explodem em outra gargalhada estrondosa enquanto entravam na casa principal da fazenda. Adell, mais uma vez, lançou o olhar para eles, mas este não teve efeito nenhum, pois os anões rindo entraram na casa.
– É o calor do senhor solar, o lorde da bondade, Ghriam. – Passando a mão no rosto da jovem falou docemente.
– É reconfortante, eu sinto todo o calor da paz. – Ela fecha os olhos indo em direção a boca do rapaz, esperando ser tomada. Ao invés disso ela quase tropeça pois Adell já tinha dado os primeiros passos em direção as outras cabanas. A jovem se recomponhe do embaraçoso momento rezando para o rapaz de seus sonhos não ter notado.
Adell estava parado, de costas para ela, tentando ler uma placa toda coberta de neve com Ruppert, depois de algum tempo eles conseguem ler. Dizia “Vila Entre-linhas”.
Então seguem para as cabanas recolhendo os impostos, sempre cordiais e compreensíveis com os que não podiam pagar. Adell mandava eles guardarem segredo e cobria a parte deles nos impostos. Depois de um bom tempo gasto eles se dirigem para a fazenda cansados.
– Espero que não haja mais problemas, tô cansado de tudo isso!
– Desculpe de novo os problemas que causei.
– Não é sua culpa Dell! Isso é o que ganhamos por deixar porcos anões no poder! – Disse, de forma indignada Lyfia.
– E porque não fizeram nada ainda? – Adell olha para a meia-elfa.
– Dell? – Ruppert faz cara de perplexo.
– Ora, o que faríamos? Você viu como agem. Eles fazem o que querem. Um passa a mão na cabeça do outro!
– Dell? – Continua Ruppert de forma perplexa.
– Mandarei uma carta ao rei, quando chegar em casa.
– Pode mandar um barco. Ele que designou essa raça nojenta para “cuidar” dos moradores de Kevhand. – Cospe no chão.
Adell não responde.
– Espera, Dell? – Ruppert para e fica olhando para eles.
– Você, a puta e o lagarto podem dormir no celeiro. Aqui dentro só anões e gente descente. – Leu com voz alterada Lyfia.
Adell gemeu, descontente, e Ruppert indignado chega perto de Lyfia após ouvir e tudo e fala em tom semi-alto.
– DELL?


V

Adell acorda no meio da noite, completamente dolorido. Seu corpo estava pendurado como um boi albergue e sua cabeça doía como nunca. As vacas que partilhavam da moradia onde dormira não estavam mais lá. Ruppert e Lyfia também não se encontravam.
O rapaz após se balançar um pouco percebe que pequenas manchas de sangue trilhavam um rastro fino avermelhado em meio o branco da neve que cobria o chão batido de terra. Sabia que isso se dava por conta da porta aberta, porém o sangue o deixara intrigado.
– Mas, mas que porra aconteceu aqui? Ai! Minhas asas doem! – Disse o rapaz dolorido e desconfortável.
Adell, agilmente, se olhou enquanto balançara mais um pouco. Vira que o sangue não era dele e logo se preocupou com seus companheiros.
– Se aqueles filhos da puta machucarem algum deles, eu juro, juro que vou entrega-los ao próprio Ghriam! – Repentinamente sentiu um frio na espinha, coisa quase que impossível por conta de sua natureza. – O que está acontecendo?
Uma das diversas moscas que voavam de lá para cá parou no ar, ficou imóvel com as asinhas estáveis, como se fosse suspensa por fios no ar. Nada se mexia, nem suas asas, muito menos suas finas patinhas. A corrente de vento cessou e Adell pode ver as pequenas bolinhas brancas de neve levadas pelo vento suspensas no ar.
Não fazia ideia do que acontecia àquela altura. Sentiu um medo que nunca sentira antes. Nenhum monstro ou criatura que enfrentou ou ouvira falar podia fazer isso, parar o tempo. Imagine só o poder do que poderia fazer isso. Estranhamente ele podia se mexer. Conseguia se balançar, respirar, menos falar. Ficou tão espantado que mesmo se quisesse gritar com toda sua força sua voz não sairia. E sabia que isso não era por conta do que via e sim pelo medo ao ver aquilo tudo acontecer.
Um barulho de porta veio do além, abrindo, rangendo com tudo. Uma barulheira só. E, na sua frente, a paisagem começou a se contorcer de forma aterrorizante. Como se a paisagem fosse cortada no formato de uma porta perfeita, abrindo e levando para frente e depois a esquerda aquilo que antes era a paisagem e agora mais parecia um quadro móvel. Um faixo de luz intenso cobriu todo o recinto e uma figura contra a luz apareceu.
Um humanoide que vestia o que parecia um chapéu, mas Adell nunca vira algo no estilo. A sombra logo saiu, sem cerimônia, do portal e se revelou um homem com roupas estranhas nunca vistas pelo rapaz. Um chapéu de cowboy, um poncho e uma calça de couro. Botas com esporas e um cinto ornado de couro cheio das mais diversas balas e um revólver na mão.
O rapaz tirou dos bolsos um cigarro de palha, acendeu e começou a fumar. Então falou com uma voz rouca, firme, extremamente forte, porém de modo alegre e descontraído.
– Vai uma mãozinha aí, amigo?
– Q-q-quem é vo-você? – Falou, Adell quase sem volume algum.
– O quê? Um White que não sabe quem sou? Parabéns, você conseguiu! Me ofendeu profundamente. – O homem tragou profundamente seu cigarro.
Adell não respondeu.
– Bom! Alessandra deveria ter falado de mim para você, ou o ingrato do seu pai. – Disse o homem levantando o chapéu para observar melhor o rapaz, suspenso como um salame no teto, esperando uma resposta ao qual não teve. – Nada? Argh! – Bufou impacientemente.
O homem, andando de forma descolada, se aproxima de Adell e com um toque nas correntes que o prendiam ao teto o solta, fazendo o cair de cara no chão. As correntes evaporaram no ar de forma graciosa como se fossem uma nuvem de belos e cintilantes grãos prata.
– Eu sou Tid, o senhor do tempo, das eras e de tudo. – Falou de forma curta grossa, seu tom era sério dessa vez.
Adell, ao se recuperar da queda, logo se lembrou das histórias que ouvira quando criança da divindade misteriosa. Sabia que era um dos iluminados, os deuses que provém da luz da relação de Fyr e Tama. Aqueles que chamam de primordiais, Fyr o pai de todos os elementos e Tama a mãe de toda a escuridão e de tudo que mundano.
Adell pôs-se a reverenciar Tid na hora, se ajoelhando em sua frente e escondendo o máximo possível de sua dor que só se acumulava.
– Pare com isso, moleque. Eu não sou meu irmão. Não exijo que me reverenciem. – Um tom de desprezo ao ato foi rapidamente percebido por Adell, que o olhou nos olhos.
– Não... Me desculpe, senhor Tid. mas minha criação me fez assim e assim eu sou. – Falou com firmeza na voz.
Tid parou por um momento. A deidade olhou fundo nos olhos do rapaz e depois de um breve instante explodiu numa gargalhada.
– É atrevido, pretencioso e cheio de si! Igualzinho seu pai mesmo, um verdadeiro White! – Falou rindo.
Adell congelou por um momento. Mesmo sendo uma deidade, achara que não sabia quem era. Ser reconhecido como White nesses tempos era perigoso!
– Fique tranquilo, fedelho! Eu não estou contra os White. Na verdade, eu vivo ajudando vocês... O porquê disso? Nem eu sei ao certo. – Tid se sentou à frente do rapaz, esticando suas pernas.
– O-o que queres de mim, vossa divindade? – Falou tremulamente.
– Argh! Que coisa cafona! Pelo amor dos deuses! Me chame de Tid, moleque. E eu vim aqui por um simples motivo. – Terminou a última tragada de seu cigarro após parar de falar.
Adell continuou calado, apoiado no gelo que aos poucos machucava seus joelhos.
– Sabe... Prefiro seu avô! É muito mais arrogante que você, mas pelo menos não se cala para ninguém. Deveria ter visto o jeito que ele falou com Vin! – Gargalhou de novo – Nunca a vi tão fula da vida!
Tid se levanta e pega no braço de Adell, o erguendo com uma força extraordinária e o colocando de pé em sua frente.
– Não suporto falar com ninguém sem estar na mesma postura que eu! Bom, eu vim aqui meu querido fedelho para te mostrar algo. Algo que você irá mudar, meu amigo. E já era para ter descoberto... Mas como é cabeça de vento o titio Tid tem que vir dar uma força.
Adell ficou imóvel por um instante. Seu corpo estava duro, paralisado. Porém em algum momento, não sabe direito qual, seu corpo começou a se mexer. Como se fosse por magia, seu cérebro o mandava parar o corpo ignorava e continuava a seguir em frente.
Passaram pela porta de luz e adentraram num recinto vazio. Não havia nada lá além de branquidão, era realmente infinito e vazio, sem nenhuma forma a mais. Só os dois ali em pé.
– Sabe, Adellzinho, meu fedelho? Tudo o que lera nos livros e te ensinaram era tudo mentira. Bom, quase tudo. – Disse o homem, fazendo uma pequena pausa – Deixe que o tempo conte a verdade.
Neste momento Tid some e Adell é levado para um turbilhão de imagens, rodando como um peão. As memórias vão passando como um filme em extrema velocidade, até que param e seguem em velocidade normal.
Adell vê sua tia e seu tio, Alanis e Gabriel White, ambos brigando feio e vários fatores passando após isso. No final, todos culminando numa sangrenta guerra travada em Nordaeust, a principal ilha do arquipélago de Mystical. Aquilo machucou Adell, pois foi esse evento que causou a morte dos dois reis, seus tios, que brigavam como cachorros famintos pela coroa como se fosse um pedaço de carne.
Passou também pela coroação do escolhido do povo. O líder religioso da ordem do caminho da fênix, Magnus de Tolousse, mais conhecido como o “Grande Fênix”. Porém, o que vinha a seguir o chocou. Em uma cena, Magnus estava de joelho para um figura oculta no trono real, que um dia fora de seu avô, e depois de sua tia. E, repentinamente, a figura arrancou a cabeça do então coroado rei, a erguendo ao alto e bebendo seu sangue.
A criatura se levantou e saiu das sombras. Estava sozinha, então não havia necessidade de mudar sua forma. Era Kateus, o deus da inveja. O male que maquinara toda a guerra entre os irmãos pela coroa, tendo o melhor resultado possível. Sua marionete subiu ao trono e já não se fazia necessária. Com um gesto, evaporou o corpo e sorriu.
Se sentou no trono de novo, mudando sua forma para a de Magnus, e com uma voz sombria e um sorriso mais sombrio ainda no rosto falou: “Agora começa o meu reinado. A era da inveja e do terror começa agora!”
O que se seguiu foi uma intensa gargalhada.
Adell foi sugado de volta para o celeiro, caindo de bruços no chão. Ofegante e expelindo um pouco de sangue, estava cansado. Não fizera nada, mas sentia como se tivesse corrido por milhas. Tid apareceu do seu lado e ficou observando o rapaz arfando no chão.
– Bom trabalho, fedelho! – Disse a deidade.
– Mal-mal-maldito! MALDITO SEJA, KATEUS! – Furioso, deu um soco no chão tão rápido que apenas Tid poderia ver. O chão destroçou com a força do golpe numa pequena cratera, só um pouco maior de diâmetro que o punho do rapaz.
– E garoto, talvez você se interesse em ver o que está acontecendo na casa. – Tid pegou seu chapéu e acendeu outro cigarro. – Tchau! – De forma sonora, como se estivesse cantarolando se despediu do rapaz e saiu pelo portal, que se fechou e o tempo voltou. As moscas continuaram seu percurso e o vento voltou a lufar.
Adell levantou e arrumou sua roupa, saiu do celeiro e foi direto em linha reta para a porta da casa. Chutou com tudo aquilo que um dia foi uma porta, depois do chute não passava de um pedaço de madeira disforme. Ouviu gritos vindo da cozinha. Foi para lá com uma cara indecifrável. Chegando no recinto viu os anões todos sem calças, fazendo turnos num estupro coletivo em Lyfia, que gritava de desespero e dor enquanto Jorge estava em cima dela.
– O QUE? COMO VOCÊ SE SOLTOU? – Falou Alfraneo, histérico.
Adell logo sentiu o cheiro forte de carne, olhou para o canto esquerdo da cozinha e viu Ruppert aberto como um boi na sangria, com o pênis cortado e colocado na boca. Adell suspirou.
– Vocês tem de fazer merda, né? – Falou com uma voz enigmática.
– CALE A BOCA, FILHO DA PUTA! – Alfraneo veio correndo, ainda sem calças, para derrubar Adell.
Adell com um movimento ágil, imperceptível para o anão, desviou e o pegou pelos cabelos, o arremessando de cara na parede, e finalizando com um soco tão rápido e potente que fez a cabeça de Alfraneo explodir contra a parede de madeira.
Todos os anões olharam para aquilo aterrorizados e congelaram.
– Al-franeo! – Falou como num sussurro Francis, o xerife.
 Adell, como um raio, parou atrás de Jorge e o ergueu deixando apenas Lyfia na mesa arriada. Jorge soluçava coisas incompreensíveis.
– Não me mate. – Conseguiu sussurrar finalmente algo entendível.
– Não... Não te matarei assim. Você vai sofrer demais antes de morrer, seu anão filho da puta! Porco imundo! – A voz de Adell era soturna, sombria e carregada de violência, como se algo tivesse entrado em seu corpo.
Lyfia estava com olhos de aliviada pelo tormento ter cessado. Seu amado cavaleiro veio protege-la. Mas logo sentiu o peso no olhar de Adell e o frio na espinha causada pela sua voz.
– Fuja, Lyfia. Fuja para longe, e não olhe para trás. Não volte aqui nunca mais. Nunca! Eu mal consigo conter o que dorme em mim a essa altura! Estou te dando a chance de partir em segurança, mas seja rápida e nem pense em voltar me ouviu?
Lyfia sentiu a morte nas palavras de Adell e sem entender correu, mesmo pelada. Correu tanto, mas tanto que nem se lembrou de suas roupas. Sorte dela que os anões não tiraram seu amado colar que Adell tinha dado para ela. Diziam que uma puta tem de ser fodida bonita, e achavam lindo o colar dourado em seus peitos de vagabunda, como diziam eles.
“Odeio todos os anões. Raça imunda! Quero a morte de todos!”. Pensava avidamente enquanto chorava.
“Adell! Por que ele disse aquilo? Que algo dorme nele? Ele é bom, sei disso! Por isso me salvou. Mas... Mas a forma que matou o Alfraneo... Parecia uma besta, sem coração, sem alma!”. Pensativa, correu a noite toda, sem olhar para trás.
O que aconteceu foi uma verdadeira carnificina na casa. Os anões, mesmo morrendo de medo, atacaram Adell todos de uma vez. Ninguém conseguiu atingi-lo. Em certo momento parecia um gato brincando com suas presas. Desviava e ria dos gritos desesperados dos parcialmente desnudos inimigos.
Repentinamente, seu braço esquerdo começou a brilhar e ficou totalmente prata, brilhante como se fosse runas. Mas eram escamas vivas e brilhantes. Uma rapieira ornada e prata se materializou em sua mão esquerda. Era linda. A lâmina, prata gelo, adornos gentis e perfeitos em sua empunhadura.
– QUE PORRA É ESSA? ELE É UM DEMÔNIO! ATAQUEM RAPAZES! – Jorge gritou a todos os pulmões.
E não estava totalmente errado. Adell se movia como um demônio de fato. Porém, era apenas um poder adormecido dentro de si. Aquilo tomou seu corpo e sua mente. Seus olhos ficaram frios e mortos, e em sua face apenas uma expressão gelada existia.
E como um verdadeiro demônio fatiou todos, sempre brincando com as vítimas. Arrancando membros como o pênis primeiro e deixando-os sangrar desesperados e apavorados, gritando por misericórdia. Os moradores barraram com tudo o que tinha suas portas e janelas naquela noite.
Adell rapidamente se cansou e esquartejou todos os anões.
Ouviu um suspiro e um choro de criança de dentro da casa. Destruiu a porta com um sopro ácido e matou todos lá dentro, e o mesmo fez com a vila inteira, até as mulheres e crianças que tentavam correr. Todos foram pegos e mortos de forma brutal e sem chance alguma de defesa.
Depois de algum tempo, Adell se encontrava com a expressão gélida da própria morte no meio de um mar de sangue na praça da pequena vila. Todos ali morreram, e repentinamente ele viu um ser alado se aproximando dele. Adell sorriu de forma fria e soturna se preparando para matar mais uma vítima. Não raciocinava mais, sua alma parecia estar fora de seu corpo, era uma máquina de matar, não pensava, só agia.
O ser alado estendeu a mão em sua direção e Adell, na hora, parou. O calor, o amor que emanava era muito mais forte que a sede de morte. Muito mais forte que o poder que o movia como uma máquina. Era uma anja, linda, loira, com o rosto tão divino que parecia uma deusa, suas asas brancas plumadas e formosas abriram a levando graciosamente para frente.
Adell aos poucos começou a recobrar a consciência, que vinha junto a uma dor esmagadora em todo o seu corpo. Jurava que iria morrer. Se não morresse pelas mãos da anja, morreria por conta de seu corpo e toda a dor que nele emergia.
A anja parou em frente o rapaz e suas asas o envolveram de tal forma que parecia um abraço. Passou a mão em seu rosto e o olhou com ternura, o beijou leve mente nos lábios e com uma voz sonora, calma, perfeita e reconfortante disse.
– Veja, uma flor... A primavera está vindo e logo o frio vai passar.
A voz dela soou com uma leve melodia. Adell embalou como uma criança e apagou nos braços da anja.
A mesma se sentou no chão e o aconchegou em seu colo. O aninhando enquanto acariciava seu cabelo e o via entrar em coma com um leve sorriso no rosto.
Uma pequena lágrima cintilante caiu no rosto do rapaz apagado e ela falou de forma tremula.
– Não morra...

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