A Criança do Silêncio

Arte por: ~Xavier Collette~

I

— Vamos logo! Ande logo, Zayn! Que droga! Parece que nem isso você sabe fazer!
Uma garota bela, de aparência simples, liderava a caminhada com o rapaz. A garota tinha cabelos compridos castanhos que caiam até mais da metade das costas. Tinha um corpo exuberante, seios modestos, porém firmes e seu quadril com toda a certeza era o grande destaque. Suas curvas faziam dela uma das mais cobiçadas da aldeia. Porém, seu arco e suas flechas a tornavam uma das mais perigosas e temidas também. Diziam que conseguia acertar um esquilo a mais de 200 metros de distância, uma marca antes só obtida por Stewart, o zarolho, um arqueiro tão habilidoso quanto azarado.
— D-D-Desculpe, Maryse. Estou indo. — O rapaz caminhava desajeitado atrás da moça descendo a colina de sua cabana, a mais afastada da vila.
O jovem caminhava sempre de cabeça baixa, tinha vergonha de olhar qualquer pessoa que seja nos olhos. Usava roupas sujas, um yukata comprado com muito custo depois de meses juntando dinheiro. Mesmo yukata que foi vítima de uma “brincadeira” liderada por Maryse. Roubaram sua roupa enquanto ele tomava banho no rio que corre ao lado da vila e sujaram-no com todo tipo de imundice que acharam na vila. O rapaz já acostumado com esse comportamento, não retrucou mas sentiu muito a “brincadeira”.
Seu yukata originalmente era roxo, porém estava marrom e todo manchado, sendo que cores diferentes desfilavam em suas vestimentas por conta do pó e de alguns produtos alquímicos. O rapaz era belo, muitos aldeões diziam que a beleza extrema representa a figura do mal encarnado. Suas orelhas pontudas sempre foram motivo de riso para todos, até o incidente no orfanato, onde um elfo matou um órfão humano. Depois disso, as orelhas representavam o mal e a perversão. Seus olhos eram únicos, um amarelo e um roxo, seus cabelos estavam presos e por entre o capuz que sempre estava em vigência, nunca abaixado fora da cabana.
— VAAAAAMOS, OH MOLEZA! — Impaciente a moça começou a puxar o rapaz pela mão.
Zayn enrubesceu por um instante, pois nunca tinha sentido um toque feminino desse jeito. O mais perto disso foi Neema, quando o puxou da vala perto do rio. Sua velha amiga do orfanato sempre o protegeu de tudo e todos, mas uma hora ela teve de parar de fazê-lo, pois o rapaz fora adotado pela Velha Matilda. Uma senhora odiosa e feia, que tinha em sua voz uma aura maligna e jocosa. Disse a todos no orfanato que o amaria como um filho, mas até mesmo o garoto sabia que isso nunca aconteceria, ele seria apenas mais um para trabalhar para ela, como muitos outros foram. Eles sempre morriam. Testar os venenos, poções e elixires da velha tinha seu preço, afinal.
Não se sabe ao certo o porquê, mas Zayn não morreu. Sobreviveu a tudo, os venenos, as poções, os elixires, as surras, o chão duro do porão onde dormia, as doenças que pegou e nunca ganhara se quer um remédio, ao trabalho escravo que era submetido. Enfim, sobreviveu.
Neema uma vez o defendeu de uma surra injusta que levou de Matilda. O resultado foi o pior possível, apanhou tanto que quase perdeu um dos olhos. Neema nunca mais interferiu na vida de Zayn. Afinal, ela mais causou dor e sofrimento aquele dia do que o salvou, eles não estavam mais no orfanato e nos belos anos de infância, ele realmente poderia morrer com outra dessa.
— Ma-Maryse? — Olhou corado para a moça que nem se quer se deu o trabalho de olhá-lo.
Um pequeno sorriso se escreveu em seu rosto, carinho era algo que ele não estava acostumado
Depois de algum tempo de caminhada eles chegam a um pequeno bosque ao lado da vila. Zayn não fazia ideia do porquê Maryse, uma das pessoas que mais maltratava e ria dele o chamou para ir junto numa caçada. Seu coração teimava em achar que ela tinha mudado, visto que ele não era ruim como falavam, e ela resolveu se aproximar dele. Isso era um dos piores defeitos dele, a carência. Todos que demostravam interesse ou carinho, rapidamente ganhavam seu coração, bondoso e puro.
— Bom, chegamos! Estamos aqui para o quê? — A moça olhou para o rapaz.
Ele imediatamente abaixou o olhar e a cabeça, evitava o máximo troca de olhares.
— Pra-Pra-Pra... — Fora interrompido.
— Já esqueceu? Você é um inútil mesmo, hein? — Maryse se inclina em direção a ele.
— De-desculpe, Maryse. Eu-eu j-juro que lembro. — Levantou o olhar por um momento e viu por dentre o decote da moça. Os seios brancos e redondos repousavam graciosamente numa tira de tecido usada por ela para amarra-los. Assim ficava mais fácil de correr e se esgueirar, tanto pelo chão quanto pelas arvores. Um calor repentino subiu pelo rapaz.
Maryse olhou os olhos dele e percebeu o que acontecia. Ficou fula de raiva, mas se controlou o máximo que pode, mesmo se sentindo imunda pelo ocorrido. Tinha nojo dele.
— Vejo que gosta dos meus seios, né? — Semi-serrou os olhos e falou em tom provocante.
O rapaz ficou vermelho como um tomate, desviou o olhar o mais rápido possível e se controlou a ponto de suas pernas tremerem.
Sabia que precisava pedir desculpas. Essa era a sua chance de finalmente ser aceito e já estragara tudo. Nunca se perdoaria se isso comprometesse a mudança de comportamento de Maryse para com ele.
— DESCULPE-PE-ME... MA-RYSE! — O pedido foi desajeitado e saiu totalmente berrado e desesperado.
Um silêncio ensurdecedor se estendeu por alguns segundos após o grito do rapaz, que afastara alguns pássaros e pequenos animais de onde estavam. O silêncio foi cortado enfim pela moça.
— Então eles são feios? — Falou a moça se aproximando.
O rapaz não sabia o que fazer. Se falava a verdade ou não. Se falava ou se calava. Se fugia ou pedia de novo desculpas.
— Quer pegar? — Maryse puxa o cordãozinho que mantinha amarrado a parte de cima de seu vestido.
As pernas de Zayn ficaram bambas, tremulas e mal se sustentavam. Ele tentou falar algo, mas nada saiu. O que saiu foi um pequeno grunhido estranho e quase mudo, totalmente incompreensível.
Um barulho de galho se partindo no chão ecoou por eles naquele momento. Maryse, como uma raposa ágil, se virou atenta para onde saiu o barulho. Conhecia esse tipo de barulho, o de uma lebre. Sacou seu arco e instintivamente se esgueirou na arvore atrás dela e fez um sinal de silêncio para Zayn, que o máximo que fez foi ficar de joelhos.
A lebre saltitou mais quatro vezes, duas para a direita e duas para frente, depois disso. Sempre com pequenos espaços de tempo entre os pulos, onde o pequeno animalzinho olhava para o bosque atento e seu narizinho rosa e pequeno mexia sem parar.
O que se sucedeu foi uma flechada certeira no dorso da lebre, sem chances de fuga e sem escapatória. Um ataque fulminante, mais um de Maryse, que satisfeita fora até a lebre com a parte de cima do vestido folgada e quase aberta, mostrando a tira de tecido que segurava seus seios.
Zayn se recuperou do choque e se levantou. Foi até ela e olhou atento para a lebre.
— Vo-cê é boa! — Falou inseguro o rapaz.
Antes de Maryse, ofendida com o comentário, pois não precisava da opinião e nem de elogios do imundo meio elfo que tanto desprezava, conseguir responder ele se levantou e foi em direção oposta da lebre. Se abaixou e passou o dedo na grama, levando-o depois ao nariz. Cheirou profundamente e disse.
— Era fêmea! — Pela primeira vez sua voz saiu firme.
Maryse espantada, pegou a lebre abatida e se dirigiu ao rapaz.
— Como você acha que sabe de algo assim? — Em tom arrogante e surpreso.
— O Cheiro! É forte e uniforme, como um hormônio, devia estar no cio! Se procurarmos bem, acharemos pelo menos mais dois machos nas redondezas, afinal eles sentem isso de uma forma muito mais intensa que nós e de muito mais longe.
Maryse olhou incrédula para o rapaz. Nunca o tinha visto falar com firmeza ou acertar algo na vida. Também pudera, sempre que o via, jogava coisas nele, ria, o derrubava, batia de alguma forma ou pregava uma de suas peças nele. Não sabia o que estava acontecendo, mas não esperava por isso.
— E agora você vai liderar? — Falou rispidamente.
— N-não...Eu nem saberia como, não sou como você. Me desculpe, Maryse! — Abaixou o olhar novamente e se encolheu em seu manto.
— Ótimo! Não esqueça do seu lugar, seu verme! — Deu um tapa na cabeça do rapaz e foi seguindo bosque adentro.
Andaram mais um pouco pela mata e acharam, como dito pelo moço, duas lebres, próximas relativamente uma da outra. Maryse se aprontou, escolhendo uma, ficou chateada. Por mais que seja a mais habilidosa da vila, nunca conseguiria atingir as duas, escolheu a da direita que repousava em cima de uma pedra larga circular e disparou a flecha.
Repentinamente, um silvo no ar passou rasgando rente a caçadora. A surpresa em sua expressão ficou clara com aquilo. Ficou imóvel por alguns momentos, enquanto via a segunda lebre cair com um virote no pescoço, um tiro certeiro, digno de palmas. Ela se virou e viu Zayn com a besta já abaixada, ficou vermelha de raiva na hora.
— MAS QUE PORRA VOCÊ TÁ FAZENDO? QUER ME MATAR, SEU MERDA? — Gritou a todos os pulmões enquanto olhava furiosa para o rapaz.
— D-d-desculpe, Maryse! Eu só queria ajudar! Sabia que-que sozinha duas se-seria impo—possível. — Abaixou na hora o olhar com medo.
— VOCÊ ESTÁ DIZENDO QUE EU PRECISO DA SUA AJUDA? — Furiosa, avançou com passos firmes até o imóvel rapaz. — EU NUNCA PRECISEI DE VOCÊ, SEU LIXO! NUNCA! OUVIU? NUNCA! — Gritou tão alto que desafinou no final.
O rapaz ficou quieto, sabia que era o melhor a se fazer. Guardou sua besta, ainda de cabeça baixa e ficou esperando o castigo, que em nada demorara. Um tapa furioso atingiu o rosto de Zayn, que segurou o choro com toda a sua força. O que se seguiu foi o pior, um cuspe em seu rosto.
— Aprenda seu lugar de uma vez por todas! Tente parar de ser aceito! — Maryse se virou de costas. — Ninguém nunca vai te amar.
As palavras cortaram o coração do rapaz, que pensou que, enfim, tudo iria mudar a partir de hoje. Tentou dar o seu melhor e mostrar seu valor, mas nada mudara. As palavras cruéis de Maryse atingiram ele como um trovão e lagrimas fugitivas correram por seu rosto.
— Nunca! Nem se você fosse outra pessoa! Você não merece ser feliz!
Foi a gota d’agua. Zayn correu para sua cabana, chorando e destruído por dentro. Nada mudaria nunca para ele. Tinha certeza que nada iria mudar, nunca. Apenas duas pessoas deram carinho para ele em sua vida, Neema e Altair. Sentia falta do seu irmão mesmo que de consideração. Altair cresceu na vila junto de Zayn e Neema e depois do incidente com o órfão, conhecido como O Esquisito, fugiu da vila. Zayn não tinha para onde correr, não tinha mais com quem contar, não sabia quem amar, não tinha para quem chorar. Ele estava sozinho, como sempre fora. Ele e apenas ele. A tristeza e a solidão lhe faziam companhia. Suas fiéis damas. Ele esperava a terceira chegar com afinco, pronto para dar um fim em tudo, a dama morte.
Maryse viu a fuga, e com um sorriso maligno ajeitou seu vestido.
— Ótimo — Se pôs a pegar as lebres.
Correu com todo o fôlego e sem parar um instante. Suas pernas queimavam por dentro, não era acostumado a se exercitar tanto, mas o desespero e a dor falavam mais alto, jurava que ficaria na cabana depois disso até morrer.
Cruzou as primeiras ruas da vila até chegar na praça principal, caminho mais rápido para sua cabana.
As pessoas riram ao verem ele naquele estado. Todo tipo de xingamento era desferido, como facas, contra o jovem.  Riam, xingavam, jogavam coisas nele. Os que passavam por seu caminho o empurravam e tentavam fazer ele cair. Até que finalmente um dos aldeões o empurrou com força suficiente para fazer ele perder o equilíbrio, tropeçar num monte de forcados e cair no meio da rua. A risadaria era ensurdecedora. As moças riam, os rapazes, os xingamentos só aumentavam e sua vontade de morrer só crescia.
E assim foi atendida, com um encontrão violento foi arremessado longe em um monte de lixo, uma carroça o pegara em cheio. Fora arremessado tão longe que todos tinham certeza que morrera. O sangue começou a escorrer, seu braço esquerdo quebrara, e em sua cabeça um rasgo digno de lendas. A poça rubra logo tomou o chão a sua volta, parecendo um lençol carmesim que vira uma vez na loja dos Borges. A última coisa que se ouvira fora as pessoas rindo e gritando:
“VIVA O LIXO MORREU! VIVA! ”
Depois a escuridão tomou o seu corpo. Sorriu ao ver a morte de perto, ela não o maltrataria, finalmente iria descansar. Finalmente. A dama morte saberia como trata-lo. Teria carinhos, enfim descanso.
A morte o beijaria e seriam um casal. O choro pararia. Tudo pararia. Tudo.



II

— O garoto está mal! Tenho medo que os sedativos não sejam o suficiente. — Uma figura magrela, alta e vestida de forma única andava de um lado para o outro na cabana. Usava uma máscara com um longo bico e sua vestimenta continha diversas parafernálias.
Uma voz doce e leve, porém, em tom alterado ecoou pela porta
— Tá me dizendo que não dá para salva-lo? Já desistiu assim sem mais nem menos? — A voz era feminina e aveludada, porém firme e decidida.
— Neema, entenda de uma vez! Eu sou um curandeiro! Não um deus, eu não sei o que farei para salvar ele. Perdeu sangue demais, e nada parece surtir efeito. — O curandeiro falava pela porta aberta com uma moça de pele escura, de altura mediana e corpo lindo, uma das mais atraentes da vila com toda a certeza.
— Mas que porra, Giu! Eu vou pegar algo na cabana dele, afinal deve ser fácil entrar lá sem a velha. Já faz um ano que aquela praga morreu. Vou trazer poções e faça mais do que desistir dessa vez, por favor! — Antes da resposta do curandeiro a moça se pôs em retirada numa corrida certeira e desenfreada.
O curandeiro olhou para o rapaz, se sentou ao lado dele e pôs sua mão em sua cabeça. Mediu a temperatura e tirou o curativo, fazendo outro com o maior cuidado e delicadeza possível.
— Às vezes me pergunto se a morte não seria o melhor para você. Sua vida não ficará mais fácil depois disso.
O silêncio inundou a cabana e apenas os grilos cantavam do lado de fora.



III

— Acorde...acorde meu amor...
Acordou de súbito. Ouvira um sussurro em seu ouvido, ou será que não? Pode ter sido em seu consciente, mas sabia que ouvira algo.
Olhou em volta e viu que não estava em sua cabana, muito menos morto. Uma lágrima escorreu por seu rosto. Queria ter morrido. Desejava que tudo tivesse acabado. Mas a vida é injusta e cruel para consigo, sempre foi.
— Por quê? Por que eu não morri? Por que tenho que passar por essas coisas e viver ainda? O que fiz para sofrer tanto? Será que apenas minha existência é um pecado? Eu preciso passar por tudo isso? Eu estou cansado...tão...tão cansado de tudo!
— Não pense assim. Eu te amo, sempre te amarei. Eu te escolhi, só você. Minha criança.
A voz aveludada ecoou em sua cabeça. Não fazia ideia do que acontecia, mas tinha medo. Nunca passou por isso antes.
— As pessoas são más, cruéis, duras e medrosas. Elas te maltratam porque são podres, elas te maltratam porque têm medo, elas te maltratam porque são pessoas. Você é especial, Balhén, sempre foi, sempre será, aprenda isso! — Um calor começa a crescer no corpo do rapaz.
Ao olhar o local vira que estava sozinho, Giuresh deve ter ido para seu quarto se deitar. O casaco de Neema repousava sobre uma cadeira confortável, porém a mesma não estava lá. Sempre foi péssima em situações preocupantes. Normalmente ia afogar as magoas na bebida.
— Balhén? Quem é esse? Meu nome é Zayn! Z-A-Y-N! Deve ter se engando! — Tentou se levantar, mas pouco conseguiu. No máximo se sentou.
— Quieto, meu filho... Acalente-se em meu amor! — Um calor intenso tomou o corpo de Zayn o confortando e o deixando confuso ao mesmo tempo. — Eu te protejo desde sempre, nunca deixaria minha criança morrer. Você é importante para mim.
Zayn fechou o semblante, e ficou quieto por um tempo. Uma lágrima começou a escorrer por sua bochecha esquerda, a face da tristeza comandava o rapaz. Parecia partido por dentro.
— Mentira! — Finalmente falou. — Mentira, mentira, mentira! Sua mentirosa! — A tristeza deu lugar a raiva.
Zayn se levantou e olhou quieto os frascos de poções vazios na pequena mesa de madeira a sua frente.
— Como pode ser tão cruel?  Depois de tudo o que passei, toda a dor e sofrimento, você me diz que me manteve vivo? — Sua voz era tremula e fraca.
— Eu sempre te ame... — Fora interrompida
— Cale a maldita boca! Chega de mentiras! CHEGA! — Apertou forte em sua mão um dos frascos. — Eu sofri minha vida inteira, sem amor, sem carinho, sem nada! Pedi a morte a cada dia. Todos aqueles que me amaram e me protegeram foram afastados de mim por conta do destino... — Deu um sorriso triste. — Você sabe o que é ser alvo de maldade todo santo dia que saia de casa? Rezar para que tudo mudasse e nada acontecer? Você sabe o que é acreditar nas pessoas e nada mudar? Sabe o que é pedir a morte todos os dias para se ver livre disso?
— Não diga isso, minha criança. Eu estou aqui para você.
— Claro que está! Agora! E antes, onde esteve você e seu amor? Você é a mais cruel de todas, mais que a Maryse até! Se me amasse de verdade teria me deixado morrer! Como eu pedi!
— Maryse terá o dela ainda, ela não sabe porque faz isso com você. Espero que não descubra da pior forma possível.
— Foda-se ela! Foda-se o destino! Foda-se você e seu amor! Foda-se a vila! Foda-se essa vida de merda! — Zayn pula pela janela, estava no térreo o que facilitava a saída desesperada — Eu estou cansado de todos vocês! Quero apenas morrer! Eu não mereço ser feliz, nunca, nem se eu fosse outra pessoa!
O jovem correu em direção a saída da vila em busca do bosque, a selva era perigosa de noite sabia que encontraria o que procurava se fosse e nunca mais voltasse. Se não fosse por conta de algum animal, morreria afogado no rio, estava decidido.
— Pare, meu amor... Não fuja de mim... — A voz ficava cada vez mais fraca.
— Eu não pude te proteger antes eu estava tão... fraca!
Silêncio.



IV

— O rio era por aqui?
Correu mata adentro, descuidado e desesperado. Buscava a morte de qualquer jeito, mas nem as corujas estavam lá para ele. Nenhum animal à vista.
— Não importa...ouviu? NÃO IMPORTA! Eu irei morrer de qualquer jeito! Não adianta você mandar os animais para longe! A água estará lá para mim! PARE COM ISSO! ME DEIXE PARAR DE SOFRER! — Gritou até ficar rouco.
Abaixou o olhar e seu corpo cedeu, caindo de joelhos entregue ao desespero.
— Pare com isso... por favor... me deixe morrer! — Sua voz ficou fraca, o choro fazia coro com suas palavras como se fosse uma melodia fúnebre e extremamente triste.
O choro foi ficando mais intenso e o desespero do rapaz tomou proporções alarmantes.
Se levantou e olhava para tudo com medo e desespero, como se tivesse sendo perseguido por bandidos, ou até mesmo monstros. Tinha medo das folhas que caia, olhava assustado e atento enquanto chorava para tudo. A sua mente tinha chego ao fundo do poço, o desespero e o abandono se transformaram em duas pessoas diferentes a sua frente.
Uma delas era Maryse e a outra pessoa era Altair. Os dois o rodeavam e falavam frases para ele, enquanto flashbacks tomavam conta de sua cabeça.
— Você tem de parar de tentar ser aceito! — Falou a mulher, e subitamente a imagem da caçada de antes veio a sua cabeça.
— Não dá para te amar! — Falou Altair, e a imagem dele partindo do orfanato veio a sua mente.
— Nem que fosse outra pessoa! — Enquanto a mulher desabotoava o vestido, veio em sua mente um flashback da primeira vez que Maryse falara isso para ele.
Era uma lembrança antiga, eles eram crianças e se encontraram na praça da cidade. O menino encantado com a beleza da menininha em sua frente perguntou se poderiam ser amigos estendendo sua mãozinha suja e pequena com um sorriso doce e esperançoso no rosto. A menininha torceu o nariz, cuspiu no chão e empinou o nariz e falou “Nem que você fosse outra pessoa, não ando com lixo.”
— Você é fraco. — Altair dá um tapa na cabeça do choroso rapaz, fazendo-o lembrar das constantes surras que levava quando pequeno.
— Você não merece ser feliz! — Mais uma frase de Maryse, o levando para as lembranças de ser adotado e ter a esperança de ter uma mãe. Quando chegou na cabana ficou com receio mas arriscou.
— Posso te chamar de mãe? — O medroso e desajeitado pezinho se movia enquanto falava.

Um tapa direto na boca o acertara de forma cruel e forte, o sangue escorreu por dentre sua boca machucada e o choro começou a sair. Antes da primeira lágrima cair no chão levou um chute no estomago vindo da velha o acertou em cheio.
— Nunca mais repita isso, seu rato! Eu não sou sua mãe e nunca serei! Não se engane. Você não foi adotado. Foi pego para repor outra pessoa...e só! — Cuspiu no menino de quatro no chão por conta da dor da pancada.
Olhou por um tempo e virando as costas para o mesmo falou de forma fria e cruel.
— Limpe tudo. As lágrimas eu permito porque foi a primeira, mas terá de ser a última. Não quero meu chão sujo por sua conta! Caso caia mais uma lágrima, ou pior, uma gota de sangue sequer, eu arranco um de seus dedos como castigo. Estou sendo clara?
O menino respondeu com um gemido desesperado e amedrontado, buscando ao máximo não chorar ou tossir o sangue em sua boca.
— Bom! Agora vá para o porão, e fique lá até eu mandar sair. Não tenho comida para você! Se vire. Coma baratas se precisar!
A lembrança se dispersou em fumaça quando Altair passando em sua frente falou.
— Somos ruins!
A lembrança de ser castigado por ter a orelha pontuda, assim como seu amigo de infância que matara um garoto do orfanato, apareceu. Pessoas jogando coisas, atirando pedras, tomates, paus e até ovos no pequeno Zayn amarrado na placa da praça da cidade. Enquanto o mesmo chorava copiosamente, sem entender o motivo daquilo tudo. Enquanto xingamentos e gritos de ódio enchiam a praça dentre o linchamento coletivo.
— Eu não preciso de você! — Maryse parou em frente o rapaz quebrado no chão.
A lembrança mais dolorosa talvez até agora tomou sua mente.
Era um dia quente de verão e as crianças brincavam na beirada do bosque. O pequeno Zayn recolhido em sua vestimenta pobre era puxado por Altair.
— Vamos logo, Zayn! Pare de ser tão medroso, já disse que bato em quem caçoar de você. — O Elfinho puxava o amigo com afinco e pouca paciência.
— E quando você apanhar eu bato em quem te bateu. — Falou a pequena Neema enquanto via a cena de cima de um galho.
Altair torceu o nariz e disparou.
— Cale a boca, Neema! Eu sou forte, fique sabendo que... — Fora interrompido.
— Poupe a saliva, Altair! Eu já defendi vocês mais vezes do que troquei de meia. E sim vamos logo Zayn ninguém gosta de bundões. — Pulou do galho.
— Me de-desculpe, Neema. — Falou de forma tímida e sem jeito.
— Nada de desculpas ok? Só sorria! Você fica bonito sorrindo. — A mocinha parou na frente do menino e com a ponta do dedo tocou a pontinha do nariz do meio-elfo.
O menino enrubesceu e se escondeu atrás de Altair, a vergonha foi tamanha que até tossiu.
— Viu o que fez, Neema? Eu já tava conseguindo fazer ele não ficar se escondendo, ai vem você e ferra tudo! — Puxa Zayn pela gola das vestes pobres do mesmo e o leva a força para onde as outras crianças estavam.
— Desculpa? — Neema dá um sorrisinho sapeca e põe o dedinho nos lábios.
A tarde passa com brincadeiras e mais brincadeiras, e Zayn, que ficara quieto e contido a maior parte do tempo, se solta e começa a correr e brincar como uma criança normal e sadia.
Ao irem embora vê Maryse sobre os galhos da arvore que estava embaixo e a curiosidade o pega de tal forma que simplesmente a segue, tomando cuidado para não ser “pego” pela menina.
Maryse se esgueira em um galho algumas arvores a frente e se estende para pegar um ovo de Coleirinha que havia visto. Um movimento em falso acontece e a menina cai junto do galho que se partiu.
Zayn fica desesperado e vai ajudá-la imediatamente. Levanta a menina desnorteada e quando ela enfim percebe quem a ajudou a empurrar de modo que ele caiu de bunda no chão.
— Porque você está aqui? Estava me seguindo, seu pervertido? — Fala grosseiramente.
— Claro- Claro que não! Eu vi você caindo e fiquei preocupado.
— Me poupe de sua “preocupação”, seu imundo! — Um zumbido começa a se fazer presente no momento.
Eles então percebem uma colmeia de abelhas caída ao lado da menina. Antes que mais zumbidos entrassem no coro, Zayn, com um pulo ágil de gato, agarra a colmeia e sai correndo com ela em direção ao rio. Não deixaria nunca Maryse se machucar, tinha um coração bondoso e faria isso até por Jonathan, o garoto que sempre bateu nele.
Enquanto corre as abelhas começam seus ataques de forma cruel e sem pudor, acertando o menino em todos os lugares possíveis. Até que finalmente ele se joga no rio e desmaia por conta da dor.
Acordou no orfanato, no quarto, com Neema dormindo na cadeira, a dor era tremenda mas conseguiu perceber que não tinha apenas ela lá, Maryse também estava lá.
— Maryse... — Abriu um sorriso aliviado pois viu que ela saiu ilesa.
A garotinha não respondeu, se levantou e deu um tapa na cara dele que logo começou a chorar e ficou sem entender o porquê daquilo.
Ao chegar na porta a menina o olha com desdém por cima do ombro e fala.
— Eu não preciso de você!
Zayn não aguentava mais as frases e as lembranças chorava e rolava no chão com as mãos na cabeça gritando alto e estridentemente.
— PAREM! PAREM! PAAAAAAAAARRRREEEEEEEEEMMMMMMMM! — Aos poucos foi parando os movimentos e ficou lá, jogado, pasmo, no chão como se estivesse morto.
— Por favor parem...
Silêncio.
Ouviu de longe um choro, era belo e triste, melodioso e amedrontador. Não sabia de onde vinha e nem o porquê, mas foi se levantando e seguindo o som tristonho com aparência mórbida, andava de cabeça baixa, estatura curvada, braços largados, parecia mais que rastejava do que andava.
Chegou na beirada do rio e uma bela moça lá estava, chorando. Não sabia o porquê, mas por instinto se aproximou dela com um semblante totalmente morto por dentro.
— Venha meu pequeno, não sofra mais. — A belíssima mulher chorosa estendeu suas mãos delicadas para ele, fazendo menção de ser abraçado.
Zayn como num transe a abraçou, estava nua, pele macia, branca como a neve, cheirosa e cheia de curvas atraentes e provocantes. Seus cabelos eram lisos e castanhos, os olhos cor de púrpura e suas orelhas pontudas
— O que é você? — A voz mórbida foi ouvida com pesar pela moça que se pôs a chorar mais.
— Aquilo que você nunca teve.
— Amor?
A pergunta atingiu a mulher como um raio, partiu seu coração. E então ela o aninhou sob a pedra que se encontrava, o acalentando entre suas pernas e aninhando sua cabeça em seus seios. Começou a fazer carinho nele e sentiu um pequeno susto do garoto, como um gato que se assusta quando está dormindo e alguém mexe nele.
— O que é isso? O que está fazendo?
A mulher não se conteve e se derramou em lágrimas enquanto o abraça forte com todas as forças do seu corpo.
— Carinho...estou fazendo carinho em você. — Falou chorando.
— Mentira! Eu não posso receber carinho...não sou digno disso. — Se tornou apático e sem forças, falava roboticamente as coisas, como se estivesse enfeitiçado.
As lágrimas dela começaram a cair sobre o rapaz e ele sentiu um pequeno calor dentro de si, mas nada que mudaria seu estado, ele não estava mais vivo por dentro, quebrou de uma forma que nunca mais voltaria a ser o mesmo.
— Eu juro que vou te proteger! Juro! Ninguém mais vai te machucar, você não pode viver assim sofrendo.
— Por que? Eu sou imundo, um lixo, um nada...eu não mereço viver, não mereço ser feliz...Nem se eu for outra pessoa.
— Não repita mais isso! A partir de agora eu cuido de você, darei a você meu amor e meu poder. Você será meu e eu sua, para todo o sempre.
— Eu não mereço isso...porquê insiste em fazer isso?
— Eu já fui como você, já fui abandonada e maltratada. Um grupo me achou e um casal me adotou, eles me deram amor, me criaram e cuidaram de mim. Infelizmente eu vivo muito mais do que qualquer outra coisa mortal. Eles faleceram, mas eu tive um pai e uma mãe que me ensinaram o que é amar e a importância de salvar as pessoas da solidão. — Ela levantou a cabeça dele e o olhou fundo nos olhos.
— Eu não mereço moça...eu...eu. — Fora interrompido
— Me chame de Lola. — Ela deu um beijo no rapaz que nunca tinha sentido isso antes, uma energia tremenda correu por seu corpo. — Pronto! Está selado o nosso pacto, você tem o meu poder e eu o dever de olhar por você, minha criança.
— Eu não queria isso...
— O que queria? — Olhou confusa para Zayn.
— Morrer... Acabar tudo de uma vez. Me ver livre da vida que só me maltratou. Queria ser o lixo que sou e servir pelo menos de alimento para os peixes e adubo a terra. Queria acabar o sofrimento dos outros por terem que me ver, acabar com o pecado que cometo cada vez que respiro. Destruir em fim o meu coração que bate, para que aquela moça que falou comigo não precisar ficar me protegendo da morte. Queria dançar com a morte no baile dela, ver seu vestido, beijar sua boca, ela cuidaria de mim. Ela me protegeria. Eu não mereço ser feliz, nem se fosse outra pessoa. Eu queria dar fim em tudo e deixar as pessoas livres de mim.
O discurso destruiu Lola por dentro. Sentiu o peso de uma criatura pura maltratada a ponto de se achar podre apenas por existir. Sentiu a dor, o sofrimento em cada palavra. Sentiu que o rapaz morreu por dentro e sua mente estava destruída.
Começou a chorar de novo e se pôs a cantar. Era uma melodia calma e linda, que logo pôs Zayn para dormir.
— Durma, meu príncipe, durma bem! — Olhou com amor para o rapaz de orelhas pontudas adormecido em seu corpo nu. — Durma bem, eu sei o que dorme em você, e sei quem te protege. É algo bom e puro assim como você, não a culpe, ela não tinha forças para te proteger. Mas eu tenho e o farei.
Se levantou e deixou o garoto deitado sobre a pedra larga que estava, com um feitiço trocou de aparência. Agora tinha cabelos cacheados negros e sua orelha pontuda sumira.
Se sentou ao lado do rapaz e com carinho passou sua mão em seu rosto, se vestiu magicamente com um vestido e o pegou no colo indo em direção a vila.
— Mamãe está com você agora... Mesmo que nunca pudesse ter uma, agora tem. E ela ama seu pequeno príncipe. Eu vou te proteger meu amor, eu prometo.
Silêncio.



V

— Olá? Tem alguém aí? Zayn você está aí, seu inútil?
Maryse adentrava com cuidado na cabana, que mais parecia cena de um conto de terror. Totalmente largada e cheia de coisas espalhadas. Livros abertos, potes vazios, frascos quebrados e muitas coisas derramadas pelo chão.
— QUEM OUSA ENTRAR NO MEU DOMINIO? — Uma voz tenebrosa tomou conta do recinto.
— Quem-quem é você? Zayn se for você eu juro que vou te encher de porrada! — Amedrontada deu um pequeno passo para traz.
— CALE A BOCA! AQUI NÃO EXISTE ZAYN! — A estante do seu lado tremeu e alguns frascos caíram.
Maryse deu um pequeno grito agudo e sacou seu arco.
— Quem é você? — Falou com voz tremula.
— VOCÊ SABE QUEM EU SOU! VOCÊ ME MATOU! NUNCA MAIS ENTRE AQUI! NUNCA MAIS PROCURE NADA AQUI, NEM VOCÊ NEM OS OUTROS ALDEÕES! EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM! SEI QUE TRAMOU MINHA MORTE JUNTO DE JONATHAN E EU VOU ME VINGAR SE NÃO DEIXAREM MEU ESPIRITO REPOUSAR EM PAZ AQUI!
Maryse empalideceu e sem pensar duas vezes correu para fora da cabana gritando como uma louca.
Do segundo andar Zayn estava deitado na cama, e Lola sentada ao seu lado.
— Pronto, meu príncipe... Mamãe resolveu o seu problema. Agora você irá acordar e espero que seja, enfim, feliz. Sempre que precisar, eu te encontrarei. Adeus, meu anjo! — Deu um beijo na testa de Zayn e se levantou indo graciosamente para a janela. — Mamãe te ama, Balhén.
Silêncio.






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