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Eu
não posso ir embora. “Não podemos ir embora!” minha mãe disse. “Temos negócios
aqui! Temos família aqui! Não podemos simplesmente deixar tudo assim!” O chão
tremia. A fundação da nossa casa se balançava. Minha casa tremia, mas eu estava
em alto-mar.
Meus
ossos tremiam, meus olhos tremiam e eu chorava. Estava mesmo em alto-mar. Meu
quarto tremeu e eu tentei sair por baixo da minha cama, mas não fui rápido o
suficiente e a minha perna ficou. Minha perna quebrou. Escombros saltaram em
direção à minha cama quando finalmente consegui me desvencilhar.
Joguei-me
no corredor abafado. O corredor também tremia. Corri o máximo que pude com a
minha perna quebrada se arrastando. Que sorte dos meus pais! Eles não estavam
em casa, mas eu podia ouvir os gritos de desespero e o choro e os soluços da
minha irmã. Ia entrar no quarto dela, mas depois que ouvi barulhos de
escombros, não ouvi mais nada. E o corredor tremeu. Estava mesmo em alto-mar.
Descer
as escadas era o maior martírio! Minha perna quebrada tremia, o chão tremia.
Arrastava-a com o máximo de vontade que conseguia reunir. Mas que vontade eu
tinha? Não ouvi mais a minha irmã. Não ouvi mais nada. Sentia vertigem. Afinal
de contas, eu estava em alto-mar? Minha cabeça girava e meu corpo tremia. Era
medo. Mas o chão tremia. Tudo tremia.
Cheguei
à sala e vi a pistola do meu pai e sorri. Que sorte meu pai não estar em casa!
Ele nunca me deixaria sair de casa armado. Assim que pisei do lado de fora da
minha casa, me arrastando em direção à calçada, a construção ruiu completamente
atrás de mim. Minha irmã estava se afogando, presa em alto-mar.
O
bafo gelado do vento tocou a minha face e eu tremi. O chão ainda tremia e eu
podia ouvir! Distantes ruídos de explosões cercavam todos os lados da minha
rua. Eles se afastavam, mas eram constantes. Um tiro vindo de lugar nenhum
acertou a minha perna quebrada. Caí no chão que tremia. Eu também tremia. Tinha
medo. Ouvi alguém gritar. “Isso é a guerra, garoto! Volte pra baixo da sua cama
e molhe as calças por lá!” Olhei para baixo e constatei que a tirada do
guerrilheiro não era nenhuma inverdade e fazia sentido. Mas, como voltaria para
casa? Que casa? Aquele monte de cimento, madeira e fios atrás de mim que um dia
fora uma casa? E, mesmo que tivesse ficado lá, iria morrer afogado! Minha cama
estava ali, mas tive a certeza que jamais conseguiria voltar para baixo dela
onde eu estivera!
Porém,
ao olhar para frente constatei que teria sido melhor ter ficado embaixo da
minha cama. O pânico da guerra. Oh, o pânico da guerra que me impeliu para frente.
O chão ainda tremia. Os abalos abalavam tudo a minha volta. Senti-me abalado!
Abalado por ter de ver o que vi. A dor que é se segurar à vida e vê-la se
esvair é pior que a dor da morte. A dor da quase-morte. A dor que eu sinto.
Andei alguns passos para um lado, dei meia volta, passei novamente em frente
àquilo que um dia chamei de lar e dei mais passos para o outro lado, até me
sentir perdido de todas as formas em que essa palavra possa ser empregada.
O
que adianta sair do meio do mar e ir direto para o âmago da guerra? Em alto-mar
não há guerra! Há a maresia que me enjoa, o vai-e-vem das ondas. Eu poderia
voltar para o alto-mar? Não existia mais mar! Existia o solo firme que se
umedecia de sangue e suor e sofrimento, e constatei que não poderia voltar para
o alto-mar. Meus pais não reclamariam de voltar para o alto-mar, mas os meus
pais não estavam ali. Por que meus pais não estavam ali? Por que minha irmã
teve de se afogar? Por que eu não a salvei? Senti novamente a dor da quase
morte forte o bastante para me enlouquecer. Isso é a guerra, mas eu não tenho
mais uma cama para me esconder! O medo avassalador da quase morte é a dor da
quase morte e eu senti os dois.
Eu
avancei. Senti os abalos aumentarem novamente. Novamente o chão tremia. Tudo
tremia. Estava novamente em alto-mar? Mas eu estava na guerra e não tem guerra
em alto-mar! Ouvi novamente um estampido ensurdecedor e o chão tremia. Tentei
correr, não conseguia. Percebi novamente minha perna baleada e quebrada. Caí no
chão, o chão tremia. Meu corpo também tremia, mas ainda não estava morto e me
levantei. Rastejei o bastante para sair da minha rua. Não importa! Olhei em
volta e novamente a guerra, a guerra em todo lugar. Não havia alto-mar.
Cuspiram em mim. O que cuspiu em mim? Não existe nada ali, só existe a guerra.
A guerra cuspiu em mim e se sentiu ultrajada com a minha presença. Eu não faço
parte do cenário de guerra! Ouço a guerra falando comigo: “Isso não é o
alto-mar, garoto! Dê meia volta e vá se afogar por lá!” Mas eu não podia. Eu
fui recusado, era um pária e não me encaixa em lugar algum.
A rua seguinte e um abalo.
Caminhava como o aleijado que era. “Deus, essa perna não é minha!” Só conseguia
ver o vermelho e o negro da guerra. Via o marrom e branco das construções
manchados de vermelho e negro da guerra. Eu chorava? Não sentia meu corpo pular
com soluços ou a torrente de água brotar do meu queixo no chão que eu encarava.
Não queria ver a guerra. A guerra não me queria, tampouco eu não a queria.
Sentimentos conflitantes de quase morte brotavam em meus pensamentos. O que foi
a minha vida? “Eu não vivi nada, eu não presenciei nada! Eu sou só um garoto da
calça mijada!” Lembrei-me que estava segurando a pistola do meu pai e atirei.
Acertei algo e sorri. Sorri tempo o bastante para cair no chão. Caí e senti meu
corpo úmido. Por que estava úmido se eu não estava chorando? Agora estava
chorando. Eu via o mundo, o mundo escuro da guerra. Mas, se eu morri, por que
estava tremendo? Ou era o chão que tremia?
