A Cidade de Hamelin

jeremias_07


Eu vi acontecer! Eu era um morador de Hamelin perdido na incredulidade que se sucedeu em 1284 e que vos conta essa história agora tantos e tantos anos mais tarde. Vivíamos bem em Hamelin, mas nem todos nós éramos justos para com nossos semelhantes. Nossa cidade era próspera e crescia tal qual a ganância do prefeito que nos governava.

Sem mais nem menos começou a infestar a cidade uma infindável quantia de ratos vindo de todos os lados e indo para todas as direções. Corroíam, mordiam, comiam e destruíam tudo que podiam até nos deixar apenas as migalhas para sobrevivermos. Hamelin outrora tranquila e sossegada agora estava infestada de caos e de roedores que não eram bem vindos. Tudo ia de mal a pior, até que o prefeito resolveu por um fim a essa situação e dar uma moeda de ouro para cada cabeça de rato que estava em Hamelin até então.Com certeza a pessoa que conseguisse exterminar todos aqueles ratos ficaria rica, mas aquilo não estava me cheirando bem. O nosso prefeito era muito sovina para ceder boa parte de seu cofre a uma única pessoa ou a varias, se fossem várias a conseguir, que seja.

De toda forma, ninguém na cidade não foi capaz ou ao menos teve uma boa ideia para tentar exterminar todos os ratos de Hamelin até que ouve uma reunião no centro da cidade, em volta do monastério para que pudéssemos por fim aquele problema. Em meio a todas as discussões e gritos e barulhos e todos os tipos de ruído um som de flauta se sobressaltou e foi ficando cada vez mais forte até que no centro de todos nós estava o homem que se autodenominou “caçador de ratos” e nos disse que com sua flauta iria exterminar todos os ratos. É muito mais que óbvio que na nossa cara estava estampada o semblante da incredulidade e não demos nada pelo flautista até ver o seu método em prática. Se havia algum descrente em magia na cidade de Hamelin, essa pessoa se retratou de joelhos ao ver como o flautista levava todos os ratos da cidade de Hamelin, até aqueles que já estavam antes mesmo da infestação, pelo portão e os conduzia a um banho no rio Weser.

E lá vinha o flautista tocando sua flauta e antes que ele chegasse perto suficiente, o prefeito ordenou a mim e a mais outros cinco conterrâneos meus fechássemos o portão da cidade e deixássemos o flautista do lado de fora. Não que eu quisesse fazer aquilo, mas o prefeito era conhecido na cidade por ter prazer em enforcar desobedientes e ladrões. Principalmente ladrões desobedientes. O prefeito nos ordenou a subir no alto da muralha da cidade com os outros cidadãos de Hamelin para ver o desfecho do ocorrido. De lá de cima podíamos ver o sorriso do flautista que pedia humildemente pelo seu saco de ouro que o prefeito havia prometido. Não muito longe de mim pude ouvir o gargalhar desdenhoso do prefeito ao humilde pedido do flautista. Foi daí pra frente que aconteceu o fato mais intrigante e misterioso da cidade de Hamelin. Os olhos do flautista estavam tão cheios de fúria que pareciam ter se encharcado de vermelho sangue e as gargalhadas do prefeito ficavam cada vez mais baixas a medida que o tocar da flauta do flautista ia ficando mais alto. Abaixo de nós o portão da cidade começou a tremer de forma descontroladamente. Cada vez era possível ouvir um barulho de bater mais alto e mais alto e mais alto até que todas as crianças que uma vez moraram em Hamelin saiam pelo portão. “Esse ouro não ia lhe fazer tanta falta, prefeito. Mas ficar sem o futuro da sua cidade vai ser bem trágico pra você, presumo!”

As crianças foram todas levadas em direção ao rio Weser, por isso ficamos apreensivos de que as crianças pudessem ser afogadas por aquele homem que estava louco. Porém, enquanto corríamos em direção a salvação de nossas crianças vimos a magia do flautista entrar em ação novamente e criar uma ponte de corda e fazer com que todas as crianças atravessassem a mesma com ele por ultimo. Alguns dos cidadãos da cidade ainda conseguiram andar por sobre a ponte, mas assim que o flautista chegou do outro lado do rio Weser a ponte se desfez e quem estava em cima dela morreu afogada e hoje está dormindo de baixo do rio com os ratos que causaram tudo isso. No fim das contas o prefeito da cidade foi enforcado por nós que já estávamos insatisfeitos a tempos com suas atitudes e os habitantes de Hamelin só viram outra criança e a volta da possível prosperidade da cidade quando os primeiros turistas desavisados do ocorrido começaram a aparecer na cidade. O que aconteceu com as crianças de Hamelin? Só o flautista sabe.
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