Histórias de Taverna || Problemas no Forte Hedryl #4



NOITE EM VIGÍLIA

A fumaça subia da janela da torre dois, onde Magnus se esticava na tentativa de reativar a circulação do sangue em seu corpo. Fumar era proibido no forte, assim como em muitas partes do império, mas diabos, eles eram rebeldes, por que deveriam se importar com as malditas leis imperiais? Era esse o argumento que o oficial utilizava sempre que precisava lidar com um dos superiores. Quando quem reclamava de seu habito era Zander ou qualquer um a quem ele não devesse nenhuma deferência especial, um simples “foda-se” resolvia o problema, contudo, infelizmente a comandante Beatrice não era alguém que se pudesse usar tal linguajar. 
Havia pelo menos uma dúzia de lugares em que ele preferia estar: Seu quarto, um quarto da taverna dos nobres e a cama de alguma mulher eram algumas das primeiras opções. Se tudo desse certo, na noite seguinte ele teria uma “Reunião animada” com Zhatra, onde poderia descarregar seu estresse de maneira construtiva.
Mas até lá ele estava preso ao dever. Primeiro deveria aguentar aquela interminável noite de guarda, depois, uma reunião provavelmente tão entediante quanto seria saudável ser. “Pelo menos poderei beber e comer bolovo” pensava, tentando se animar.
Na torre ao lado estava Zander. Provavelmente sonhando acordado com alguma nova paixonite. Só no ultimo verão foram três juras de amor para três diferentes donzelas. Era um saco ter que ouvir o amigo declamar as poesias que escrevia para cada uma de suas amadas, cada uma mais terrivelmente cafona do que a anterior. Com a garota ruiva, porém o efeito era ligeiramente diferente, visto que seu amigo não havia ainda escrito nenhum verso, apenas ficado distante e com um olhar tolo na face. Poderia ser que dessa vez ele estivesse verdadeiramente apaixonado... Não, provavelmente era só mais uma aventura de uma ou duas semanas.
...
Uma hora mais se passou e Magnus já não pensava em nada, apenas olhando entediado para o mar noturno, enquanto tragava o quinto cigarro da noite. Ao seu redor, tudo estava parado e silencioso, exceto por um murmúrio de uma cantoria que vinha até ele quando o vento soprava do leste, onde Fafagon deveria estar.
Já estava decidido a ir dormir quando abaixo de si, viu um vulto se esgueirar por uma das saídas secretas do forte, em direção à praia. Magnus imediatamente se pôs em alerta, expandindo seus sentidos. De seus cabelos apareceram um par de orelhas caninas que até então permaneciam escondidas das vistas dos demais. Poucos sabiam, mas na realidade ele era descendente de habitantes da distante terra de Moreania, tendo herdado as características de um dos antigos animais lendários. 
Sem pensar muito ele se esgueirou torre abaixo e saiu pela mesma portinhola que o vulto teria usado momentos antes. Ele seguiu o cheiro do desconhecido por entre o caminho rochoso das escadarias da costa, até avistar uma figura feminina encapuzada com uma lamparina coberta a alguns metros a sua frente. Logo a figura parou e pareceu ter percebido a aproximação de Magnus e tentou virar abruptamente à direita, mirando outra formação rochosa à frente, de onde ela conseguiria dar volta nele e talvez conseguir voltar para dentro do forte sem que Magnus pudesse alcança-la. 
Magnus sabia que não conseguiria chegar até ela a tempo então respirou fundo e deu um salto através da fissura que os separava. Era uma distancia de pouco mais de dois metros, que ele cobriu com uma agilidade felina, caindo de pé logo atrás da fugitiva e a segurando-a pelo capuz.
A figura se virou assustada, mas sem intenção de lutar. Ele viu com espanto, quando a luz do lampião revelou uma moça de vestes finas, cabelos negros e lisos que chegavam até as costas e uma pele clara que reforçava os olhos brilhantes de Astéria Ironshield, filha de Lady Kardia e Sir Zudam Ironshield uma das mais influentes famílias nobres de Curanmir. 
— O que você faz tão tarde fora dos muros? — Magnus perguntava, sem esconder a surpresa por encontra-la em tal situação.
Astéria ergueu o olhar e resignada com a captura, começou a se explicar:
— Para ser bem sincera... — hesitou ela, tentando encontrar palavras para prosseguir — Eu queria sair um pouco do forte, sem que ninguém me visse...
Magnus observou enquanto falava, notando sua voz levemente tremula, e um nervosismo em sua maneira de agir. Ela com certeza não estava revelando algum detalhe importante.
— Garota, eu estou te perseguindo às quatro horas da manhã, do lado de fora das muralhas. Acha mesmo que vou cair nesse tipo de conversinha?
Magnus viu o ombro dela relaxar levemente enquanto ela respirava fundo buscando de volta a compostura perdida.
— Muito bem, se você quer mesmo saber, eu estou tentando fugir daqui. De meu pai e de minha mãe, pois ambos no momento, não mantêm uma relação muito saudável. Se é que você me entende.
Magnus a observou por mais um tempo antes de prosseguir com o inquérito.
— E por que escolheu esse horário? Você é uma nobre e pelo que eu saiba basta você conversar com Beatrice.
— Beatrice pode ter poder sobre os guardas, mas não tem sobre minha família. — A garota olhou para Magnus e ao não notar nenhuma reação, continuou: — E além disso, coisas que acontecem entre quatro paredes, raramente alcançam os ouvidos da comandante.
Magnus assentiu com a cabeça e continuou:
— Temos aqui um dilema. Tenho aqui uma bela mulher que está fora de casa em uma hora bem perigosa. — Astéria o olhou e ele prosseguiu. — Eu tenho uma ordem, sabe? É de não deixar ninguém sair. Mas se essa bela mulher estiver apenas passeando e conversando comigo, ela não teria problemas para voltar.
Ele a olhou serio, lhe estendendo o braço para que ela caminhasse com ele de volta ao forte. 
— Muito bem — Astéria não lhe estendeu o braço em resposta, mas se pôs ao lado do rapaz, para acompanha-lo.
Após apenas dois passos, Magnus voltou a falar, sem olhar diretamente para ela.
— Vamos, me conte o que aconteceu.
— Você sabe, problemas com bebidas, discussões... Brigas físicas. — Ela suspirou e o olhou de canto. — Depois de um tempo isso tudo cansa. 
— E fugir vai resolver isso de alguma forma?
— Não há muito o que eu possa fazer, para ser sincera.
— E o que aconteceria se fosse pega por algum bandido, ou algo pior?
— Eu sei me defender, rapaz! — Interrompeu ela de forma abrupta, olhando-o ofendida.
— Eu também sei me defender, mas já me vi contra cinco lutadores e não tive a menor chance. — A voz de Magnus não se alterava, enquanto ela apontava a falta de lógica nas ações da garota. — Você pode ser forte, mas você não é três.
— Eu sei andar sem ser vista, já caminhei por aqui outras vezes.
Magnus apenas sorriu, lembrando-a de sua mais recente falha em se esgueirar pelas sombras. Vendo que a garota não o respondeu ele se pos a examinar a situação:
— O que eu faço com você, garota? — olhou a com atenção, tentando decidir se a deixava ir ou se a entregava à comandante. — Me diga, para onde iria, por quanto tempo? O que faria?
Astéria pensou por um tempo antes de responder:
— Eu costumo sair para cá para esfriar a cabeça... Tomar um ar fresco e ouvir o barulho do mar. — Seu olhar vagava para longe de Magnus enquanto ela falava com a voz melancólica. — Aqui é o único lugar onde posso ficar longe de todo mundo.
Magnus sorriu ao ouvir as palavras familiares.
— Veja eu não quero te entregar, mas também não quero que digam que não faço meu trabalho, que como vê eu faço, e faço bem. — Magnus se aproximou mais de Astéria, ficando a poucos centímetros dela. — Quando você quiser fazer algo estúpido como fugir, suba até aquela torre e converse comigo. Talvez eu te deixe brincar na areia um pouco. Talvez a ajude a construir um castelinho.
Magnus puxou mais um cigarro e o acendeu, enquanto Astéria lhe respondia:
— Muito bem, farei o que você diz, mas pelo menos hoje, eu poderia caminhar um pouco sozinha?
— Sinta-se a vontade. Eu não a vi e você não me viu fumando. E não se exclua do mundo, conversar com as pessoas as vezes faz bem. Eu não ando com o Zander por que acho ele bonito. — Disse com um sorrisinho de chacota, prontamente replicado pela garota, que sorria pela primeira vez aquela noite.
Magnus se virou e com um aceno se despediu da garota que se virou e voltou a fazer seu caminho pelas rochas.
...
Zander em sua torre permanecia alerta, apesar do sono e cansaço, quando ouviu, ou pensou ter ouvido um assovio ao longe. Parecia o chamado de uma ave noturna, mas Zander sabia que não se tratava disso. Ao leste, na areia da praia ele avistou uma mulher indo em direção a água. À frente dela o rapaz notou uma pequena movimentação na água, de onde surgiram três criaturas, andando eretas como se a água não apresentasse obstáculo à sua respiração. A mulher não se assustou, pelo contrário, se aproximou e após alguma troca de palavras, entregou um pergaminho à criatura do meio, que após selar a carta em uma bolsa, deu sinal para que as outras duas a seguissem de volta para o mar.
A mulher então olhou para os lados e voltou correndo por onde veio. Zander olhou para a torre onde Magnus deveria ter uma visão melhor, mas para sua surpresa não pode distinguir a forma do rapaz contra a fogueira. Ele então se levantou e se virou aos três guardas que o acompanhavam na vigia:
— Mantenham a posição, eu já retorno. — E correu até o posto de observação do amigo. Quando chegou lá, viu que Magnus já havia chego e se sentava de volta em sua cadeira. Magnus estranhou ao ver Zander, tendo em vista que ele nunca deixava seu posto.
— Ficou com saudades florzinha?
Zander não respondeu, e foi direto até o parapeito, de onde não viu nenhum sinal da mulher de antes.
— Eu vi alguém lá em baixo.
— Era só uma garota Procurando um pouco de ar fresco, problemas com mãe e pai alcoólatras. 
— Bom então acho que você não tem com o que se procupar, pois ela acaba de falar com três terapeutas. — Magnus se debruçou na direção de Zander com olhar sério e inquisitivo, ao que Zander prosseguiu: — Criaturas do mar, ela entregou algo para eles. Você viu quem era?
— Era uma Ironshield. — Disse Magnus com uma pitada reconhecível de rancor na voz. Ele não gostava de ser enganado e a garota pagaria por aquilo.
— Qual delas? — Insistiu Zander.
— Astéria. 
Zander balançou a cabeça em concordância e se virou de volta para Magnus.
— Não adianta tirar ela da cama agora. Amanhã falo com ela.
— Amanhã reportarei diretamente para Beatrice.
Zander balançou novamente a cabeça, dessa vez negativamente.
— Espere. Deixe me falar com ela antes.
— Você é muito sentimental. — Zombou Magnus.
— Não é isso, é só que não vejo que bem isso faria. Seria sua palavra contra a dela. — Ele refletiu por um tempo antes de finalizar: — Tem outra forma de lidar com traidores, vamos pressioná-la e conseguir nossas respostas.
...
Longe dali as três criaturas nadavam em direção a uma esquadra que espreitava o forte ao longe, ocultos pela noite e pelas ondas da tempestade.



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